O alemão Cuneyt Kaya, realizador de “O Último Patamar”, agora estreado na Netflix, deve gostar muito de Martin Scorsese e de “O Lobo de Wall Street”. Tanto, que o seu filme parece a versão europeia, passada no mercado do imobiliário de Berlim, da história do corretor Jordan Belfort contada neste. Ao mesmo tempo, “O Último Patamar” apresenta-se também como uma resposta deste lado do Atlântico a todos aqueles filmes americanos feitos em registo de comédia dramática amoral e bombástica, sobre corretores e especuladores impecavelmente bem vestidos e engravatados, que fizeram fortunas ilicitamente no mercado financeiro e andaram num torvelinho eufórico de festas, droga e sexo, para depois se precipitarem do alto dos seus excessos e da sua soberba.

[Veja o “trailer” de “O Último Patamar”:]

A fita começa pelo fim, mostrando a prisão do jovem milionário Viktor Steiner (David Cross, de “A Leitora”), na manhã seguinte a uma bacanal de  na sua casa de luxo. Acusado de evasão fiscal, lavagem de dinheiro e fraude, Steiner é posto atrás das grades, e é na cadeia que conta a sua história a uma jornalista.  E é uma história de ascensão meteórica e queda estrondosa, movida, pela sua parte, por um enorme ressentimento que nutre contra o “sistema” desde que, em miúdo, viu o pai ser humilhado nas Finanças por ter os impostos em atraso e não conseguir nunca sair da cepa torta; pelo desejo fervoroso de nunca mais voltar a ser pobre, e por uma ganância sem freio.

Aliado ao seu amigo Gerry (Frederick Lau), um delinquente de terceira que conheceu quando foi trabalhar para as obras em Berlim e que anda sempre com um chapelinho irritante, e fazendo uso do seu bom aspecto e de uma cara de menino grande que irradia simpatia e confiança, Steiner leva a cabo uma série de fraudes imobiliárias cada vez maiores, mais ousadas e mais lucrativas, com a colaboração de Nicole (Janina Uhse), uma amiga de infância e colega de escola de Gerry que trabalha na secção de empréstimos de um grande e respeitável banco. E que, começando como cúmplice da dupla, acabará por se tornar na mulher de Steiner.

[Ouça o tema musical do filme:]

A história da transformação de Gerry e Steiner em “players” de alto coturno é contada por Cuneyt Kaya recorrendo a todos os clichés possíveis e imaginários dos filmes sobre crimes de colarinho branco cometidos por tipos que começaram por usar colarinho azul. Ele são as sessões de exibicionismo de mau gosto e de despesismo em roda livre características dos novos-ricos, ele são as festas orgiásticas filmadas em câmara lenta e contorcionista, ou ainda os subornos de altos funcionários com pastas forradas a dinheiro. E àqueles juntam-se o descarado desleixo narrativo e a inverosimilhança galopante. Por exemplo, Gerry e Steiner evoluem num mundo onde absolutamente ninguém que lida com eles ao longo de vários anos se lembra de lhes ir investigar o passado, os perfis profissionais e a atividade empresarial.

[Veja os bastidores da rodagem:]

Aí a meio de “O Último Patamar”, já estamos a ver como é que tudo vai acabar, e Kaya não nos poupa a nenhum estereótipo. Nem mesmo o da contumácia de Steiner no final, como que, se não a desculpá-lo, pelo menos a compreender os seus atos, porque foram, afinal, cometidos contra um “sistema” amoral, ganancioso, egoísta e implacável, que lhe deu motivos para se comportar como comportou. O título original do filme, “Betonrausch”, significa algo como “a euforia do betão”, e o seu nome em inglês é “Rising High”, mas não passa de cinema em contraplacado que se fica pelo nível do rés-do-chão.

“O Último Patamar” já está disponível na Netflix