Uma das recomendações mais repetidas no mundo das substâncias reguladas é não misturar drogas porque a viagem pode acabar mal. De certa forma, a máxima também se aplica a “Have a Good Trip: Adventures in Psychedelics”. O documentário que acaba de se estrear na Netflix não tem um desfecho dramático, mas anda por todo o lado sem chegar a lado nenhum.

Num momento estamos a ver o cantor Sting descrever uma experiência mística com um vitelo ao colo, no outro é a humorista Sarah Silverman que conta como “flutuou” até um parque de Nova Iorque para se juntar a um grupo de “semi-sem-abrigo”. Parte das recriações são animadas, outras resolvem-se em encenações low-cost, há imagens de arquivo dos anos 60, falsos vídeos institucionais e um “professor” que dá “lições” sobre temas como “a Coca-Cola e a Pepsi do mundo dos alucinogénios”. Tal como os sem-abrigo de Silverman, também este caos é “semi” organizado. Cada capítulo, um separador. Cada separador, um conselho. Cada conselho, um arco-íris que desliza pelo ecrã à boleia de um cogumelo. Divertido? Sem dúvida, mas.

Perguntará o leitor, “O que é que eles andaram a tomar?” Os intervenientes contam tudo, de LSD a “cogumelos mágicos”. Quanto ao realizador, Donick Cary, é mais reservado. “Não pretendo armar-me em político – e claro que tive algumas experiências – mas sou cauteloso porque estou a educar os meus filhos”, respondeu ao jornal britânico The Guardian.

Em “Have a Good Trip”, três dezenas de referências da cultura pop contam as suas experiências com drogas psicadélicas. Dos já referidos Sting e Silverman aos atores Ben Stiller e Natasha Lyonne, passando pelo músico A$AP Rocky, o artista de rua Shepard Fairey e o humorista Andy Richter, conhecido sidekick de Conan O’Brien. Cada um dá corpo a uma parte – ou várias – daquilo a que se convencionou chamar “a experiência psicadélica”, bad trips incluídas.

[o trailer de “Have a Good Trip”:]

Cary, que tem uma longa carreira televisiva ligada à produção e escrita de humor (“Os Simpsons”, “The Late Night With David Letterman”, “Parks and Recreation”), o que explicará o número desproporcional de comediantes entre os entrevistados, passou mais de dez anos a recolher testemunhos. Ao todo, entre 75 e 100. Aqui estarão os melhores – ou de gente mais famosa. Se a ideia era recriar o tipo de conversas que se tem ao fim de um longo jantar, elas estão lá. Só falta o resto. Ou seja, o contexto em que essas histórias fazem sentido, sem mais. E em que se tornam tão ou mais cativantes para quem está a ouvir como para quem está a contar. Porque às vezes não temos a certeza.

A questão que surge depois de passar hora e meia a conhecer histórias de gente em altas é “porquê”? Em mais do que um sentido. O que leva alguém a dedicar uma década de vida a convencer celebridades a contar a sua história de paranoia ou de quando ficaram fascinados pela própria mão? E o que nos leva a nós, espectadores, a ficarmos a ver? Será que se fossem pessoas desconhecidas a protagonizar estas histórias estaríamos a ouvi-las com a mesma atenção? Ou estamos só a alimentar o voyeur que há em nós? A verdade é que haverá sempre perspetivas mais interessantes do que outras. Ou então é só a maneira de pôr as coisas. Como a atriz Carrie Fisher, que, fora o lado perturbador de se tratar de um testemunho póstumo sem qualquer referência a isso, faz do seu relato toda uma performance. Já Anthony Bourdain, noutro momento póstumo e desconcertante, volta a mostrar por que razão foi um dos melhores contadores de histórias do seu tempo e não apenas um apresentador de programas sobre comida.

Por mais que este seja um daqueles casos em que a soma é menor que as partes, a estreia de “Have a Good Trip: Adventures in Psychedelics” num canal de distribuição como a Netflix vem pelo menos confirmar a ideia que substâncias como o LSD e a psilocibina (os ditos “cogumelos mágicos”) estão mesmo a entrar no mainstream. Já em janeiro a terapia psicadélica tinha sido promovida como nova tendência de bem-estar pela atriz Gwyneth Paltrow na série “The Goop Lab”, também da Netflix. Só é pena pecarem ambos pela ligeireza.

Nos últimos anos, a investigação científica em torno do uso de substâncias psicadélicas na área da saúde mental tem mostrado resultados promissores e muito surpreendentes em perturbações como a ansiedade, a depressão, o stress pós-traumático e a adição. Tente pensar no único entrevistado do documentário que não fazia parte do mundo do espectáculo. Não, não é o guru Deepak Chopra, embora seja uma resposta válida (se bem que discutível). Trata-se de Charles Grob, médico psiquiatra, investigador da UCLA, e uma referência na área. No meio de tanto ruído, contudo, torna-se difícil fixar o que diz – e distingui-lo dos companheiros de aventura.

Um dos maiores receios dos defensores do uso terapêutico dos psicadélicos, mais que não seja pela herança histórica de desinformação, que levou nos anos 60 do século passado a uma proibição generalizada e a um retrocesso científico difícil de calcular, é que uma excessiva banalização do tema volte a levar-nos pelo mesmo caminho. O realizador Donick Cary fala em querer reduzir o estigma. Opta por não distinguir entre uso terapêutico e recreativo. E acrescenta que não é um filme de propaganda. Apesar de todos os sketches e arco-íris com recomendações de segurança torna-se difícil de perceber.