A Rússia é o segundo país com maior número de infetados, mas fica em 18.º lugar na lista dos que contabilizam mais mortos de Covid-19, o que tem levado os observadores a questionarem-se sobre uma possível manipulação dos números.

Como tem apontado a imprensa, não há dados disponíveis sobre números da pandemia de Covid-19 na Rússia até abril, mas há em relação a Moscovo.

A capital, principal foco da pandemia no país mostra, nos primeiros meses do ano, valores relativos à mortalidade bastante semelhantes ao período homólogo do ano passado, mas em abril verifica-se uma subida de 18% (1.841 pessoas) face a abril de 2019.

O número ultrapassa e quase duplica o dos valores oficiais, que é de 638 mortos em Moscovo.

Estes dados são, no entanto, insuficientes para concluir que há manipulação, já que também houve picos de mortalidade semelhantes em janeiro de 2019, março de 2018 e janeiro de 2017.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Estatisticamente, “comparar indicadores de mortalidade numa dinâmica mensal não pode ilustrar uma tendência de forma indiscutível”, observa o Departamento de Saúde de Moscovo, negando ter adulterado as contagens.

Além disso, um excedente de mortalidade não classificada como consequência da doença Covid-19 foi observado em muitos outros países.

Será necessário esperar pelos dados demográficos de abril a maio da Rússia para ver se há excesso de mortalidade e se excede o número de mortes relacionadas com a pandemia registadas oficialmente. Para já, mesmo contando o excedente de abril em Moscovo, a mortalidade pelo novo coronavírus permanece baixa.

As explicações russas

Segundo um demógrafo da Graduate School of Economics, Sergei Timonin, 70% dos cadáveres russos são autopsiados, “o que significa que se um doente de Covid-19 morrer de ataque cardíaco, será classificado como morte por um ataque cardíaco”.

Por outras palavras, nem todas as mortes diagnosticadas com coronavírus são contadas como vítimas do coronavírus”, disse, referindo que outros países contam as mortes de todos os pacientes da Covid-19 como vítimas da pandemia.

Por outro lado, o número alto de casos diagnosticados na Rússia deve-se, em grande parte, a uma triagem massiva: foram feitos seis milhões de testes. Em outras partes do mundo, os testes são ou pelo menos já foram racionados.

Quanto mais se testa, mais casos são detetados, incluindo os menos graves, aumentando a contagem de infetados sem, no entanto, fazer crescer a de mortos.

Além disso, acrescentou Sergueï Timonine, a população russa “é mais jovem do que a da Itália ou da Alemanha” e a idade é um fator central na mortalidade por Covid-19. Os maiores de 65 anos representam 14,6% da população russa, comparados com 23% na Itália e 19,3% em Espanha.

A explicação dada pelas autoridades oficiais da Rússia para uma menor mortalidade são a reorganização de seu sistema de saúde e o facto de a pandemia ter chegado mais tarde àquele país do que à Europa Ocidental.

Graças às medidas tomadas a montante, conseguimos salvar, sem exagerar, milhares e milhares de vidas”, garantiu o Presidente russo, Vladimir Putin.

Oficialmente, o número de camas dedicadas a doentes com Covid-19 aumentou de 29.000 para 130.000. Em 8 de maio, um terço estavam desocupadas.

Muitos médicos, no entanto, relataram enfrentar uma grande escassez de recursos, incluindo de equipamentos de proteção, principalmente fora de Moscovo, o que terá levado a centenas de infeções.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de Covid-19 já provocou mais de 297 mil mortos e infetou mais de 4,3 milhões de pessoas em 196 países e territórios. Mais de 1,5 milhões de doentes foram considerados curados.

Em Portugal, morreram 1.184 pessoas das 28.319 confirmadas como infetadas, e há 3.198 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Os Estados Unidos são o país com mais mortos (84.136) e mais casos de infeção confirmados (cerca de 1,4 milhões).

Seguem-se o Reino Unido (33.186 mortos, cerca de 230 mil casos), Itália (31.106 mortos, mais de 222 mil casos), Espanha (27.321 mortos, cerca de 230 mil casos) e França (27.074 mortos, mais de 178 mil casos).

A Rússia, com menos mortos do que todos estes países (2.305), é, no entanto, o segundo país do mundo com mais infeções (mais de 252 mil).