Chegou no fim mas foi o momento do jogo. Apito final, confirmada a goleada do Borussia Dortmund ao Schalke 04, zero adeptos nas bancadas do Signal Iduna Park. Algo que não interessou absolutamente nada aos jogadores da casa. Liderados por Haaland e depois por Hummels, os jogadores do Dortmund correram em direção à bancada onde costuma estar a Yellow Wall, a impressionante franja de adeptos do clube, e aplaudiram-na como se estivesse lá alguém. Ainda antes de recolherem ao balneário, separados, fingiram que davam as mãos e correram. Sem adeptos, sem palmas, sem barulho, cumpriram todas as tradições habituais.

Mas este foi apenas o cume de uma montanha de mudanças na Bundesliga. Às 14h30 portuguesas, cinco jogos arrancaram simultaneamente e marcaram o regresso do futebol na Alemanha e também na Europa. Todos os elementos dos clubes, testados várias vezes ao longo das últimas semanas, têm cumprido um período de isolamento num hotel, distantes do exterior, e experimentavam este sábado pela primeira vez aquilo que é jogar em plena pandemia. O reconhecimento do relvado foi feito de máscara, o aquecimento já sem ela e os primeiros jogadores a entrar em campo foram os da casa. Correção: foi Mats Hummels.

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O experiente central, mais sedento do que os restantes de voltar ao relvado, foi o primeiro a sair do túnel e a entrar em campo, quase que esquecendo-se de que ninguém estaria do outro lado à espera. Já dentro do relvado, olhou em volta para as bancadas vazias, trocou alguns sorrisos com os elementos da equipa técnica que já estavam no banco e virou-se para trás, à espera de que alguém aparecesse para lhe fazer companhia. Os colegas demoraram e Hummels colocou-se mesmo à saída do túnel, de cócoras, a tentar perceber quando deixaria de estar sozinho no campo do Signal Iduna Park.

Os jogadores do Borussia Dortmund entraram, separados e sem qualquer cumprimento entre eles, e de seguida os do Schalke 04 fizeram o mesmo. Não há perfilação das equipas, não existem fotografias do onze inicial, não há contacto entre os dois conjuntos: os 22 jogadores entram, dividem-se nas duas metades do campo e aguardam pela entrada da equipa de arbitragem para que seja decidido quem inicia a partida. Os árbitros são mesmo os últimos a chegar ao relvado e a moeda é atirada no centro do terreno, com os dois capitães a participarem com muita distância.

Os habituais bancos de suplentes estão agora obsoletos. No estádio do Borussia Dortmund, foram dispostas cadeiras fora do banco, separadas por cerca de dois metros, para que todos os elementos possam estar sentados com a devida distância de segurança. Todos, à exceção do treinador, têm de estar de máscara, que só é retirada pelos jogadores quando realizam exercícios de aquecimento ou mesmo antes de entrarem em campo. No que toca às substituições, e numa medida que será replicada em todas as ligas da Europa que vão recomeçar, são agora permitidas cinco alterações por jogo a cada equipa mas apenas em três paragens — ou seja, duas substituições terão de ser duplas.

Quanto às bolas, que foram repetidamente assinaladas por vários especialistas como o principal risco no recomeço do futebol, são desinfetadas no início do jogo e ao intervalo. Já os apanha-bolas, que fazem parte do mais do que restrito grupo de pessoas que podem estar no estádio para lá de jogadores e equipas técnicas, estão de máscara e de luvas e sempre atrás dos placards publicitários.

Num jogo sem qualquer barulho vindo das bancadas, foi possível ouvir todos os gritos e mensagens trocadas entre treinadores e jogadores e entre os próprios colegas dentro de campo. No Signal Iduna Park, o único ruído adicional era o do speaker, que assinalou o começo e o fim da partida, o intervalo e todos os golos. E é nos golos, precisamente, que reside uma das principais diferenças deste “novo futebol” — os jogadores não podem festejar em conjunto, não podem abraçar-se, não podem saltar uns para cima dos outros como tantas vezes acontecia.

Haaland foi o primeiro a marcar, ainda antes da meia-hora, e o festejo do golo do avançado norueguês acabou por ser o mais atípico — precisamente por ter sido o primeiro. Haaland correu para a bandeirola de canto, apontou para as bancadas como se estivesse lá alguém e parou a olhar para trás à espera de sentir a chegada dos colegas. Só quando olhou é que percebeu que nenhum iria chegar e acabou por realizar uma espécie de festejo em câmara lenta com Hakimi. Nos três golos seguintes, dois deles marcados por Raphaël Guerreiro, as celebrações já foram mais compreensivas: os jogadores correram em direção ao marcador do golo e pararam a dois ou três metros de distância, trocando apenas alguns sorrisos entre si e cumprimentando-se com o cotovelo.

Entre o cumprimento de todas as regras e o protocolo sanitário seguido à risca, existiu um pormenor que é foi expressamente desaconselhado mas que continua a acontecer — e que, muito provavelmente, vai continuar a acontecer. Vários jogadores, com especial enfoque em Julian Brandt e Hummels, cuspiram para o chão inúmeras vezes durante a partida, uma atitude que prevê uma sanção por parte do árbitro nas novas regras da Bundesliga. Este sábado, porém, nada aconteceu.