Nas últimas semanas, os trabalhos não têm parado no campo de refugiados de Cox Bazar, no Bangladesh, para produzir máscaras e sabão que cheguem para suprir as necessidades das 860 mil pessoas que ali vivem, e para construir salas de isolamento e edifícios para albergar doentes e pessoas em quarentena.

Seria apenas “uma questão de tempo” até que o novo coronavírus invadisse o campo, encerrado desde 14 de março para tentar conter o vírus, tinha reconhecido recentemente Shamim Jahan, diretor da organização não governamental Save the Children naquele país.

No final desta semana, depois de terem finalmente sido confirmados os dois primeiros casos de Covid-19 no maior campo de refugiados do mundo, a maioria de etnia rohingya, perseguidos em Myanmar, o discurso do médico foi adaptado às novas circunstâncias: “Agora que que o vírus entrou no campo, encaramos a possibilidade muito real de que milhares de pessoas podem morrer com Covid-19″.

Explicou Louise Donovan, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) no Bangladesh, esta sexta-feira à Aljazeera, o objetivo das obras recentes no campo era o de disponibilizar 1.900 camas, tanto para refugiados como para população local. “Até ao momento ainda não conseguimos atingir esse número”, reconheceu. “É a maior população de refugiados no mundo, temos mais de 40 mil pessoas por metro quadrado por isso é muito, muito desafiante. Estabelecemos instalações para a lavagem de mãos ao longo de todo o campo”, acrescentou.

Em meados de abril, Saidul Hoque, refugiado da minoria muçulmana rohingya nascido no campo, para onde os pais fugiram em 1992, bem antes das sangrentas perseguições iniciadas em agosto de 2017, também já tinha explicado a uma equipa do ACNUR que, se o novo vírus chegasse a Cox Bazar, seria uma tragédia: “Se a Covid-19 chegar ao campo vai ser devastador. Somos sete pessoas a dividir uma casa de dois metros. Pedem-nos que mantenhamos a distância social, mas como é que podemos fazê-lo?”.