Para o mundo da investigação científica, o surto do novo coronavírus veio acelerar, de uma forma sem precedentes, o ritmo de produção de evidências que tentam dar alguma resposta no meio de um tema dominado pela incerteza, dúvida e desconhecimento. Todos querem chegar a algo: um diagnóstico mais claro, um tratamento mais eficaz, formas de maior proteção e, quem sabe, a uma solução global. Mas esta produção científica a um ritmo quase alucinante também tem defeitos: com um nível de informação tão grande e diferente a ser produzido, nem tudo chega com qualidade suficiente para ser posto em prática e podem até existir informações contraditórias entre si que acabam por dificultar a criação de normas de orientação clínica e o processo de atualização dos profissionais de saúde.

Foi para fazer a ponte entre o que está a ser produzido diariamente em termos de evidência científica em todo o mundo e quem está na linha da frente nos hospitais que um conjunto de entidades médicas em Portugal se uniu e criou o COVID19PT-Ciência. O consórcio é constituído pela startup UpHill, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e a Evidentia Médica e já analisou, selecionou e resumiu mais de 150 artigos científicos sobre a Covid-19, distribuindo todo este trabalho de forma gratuita aos profissionais de saúde que estão no terreno.

“Isto permite que os nossos colegas que estão na linha da frente tenham a evidência mais recente resumida e selecionada pelos seus colegas. É uma forma de reduzir o tempo desde que a produção científica — que neste momento é avassaladora — chega até ao processo de decisão clínica pelos médicos que estão na linha da frente”, explica ao Observador Eduardo Freire Rodrigues, médico, presidente executivo e cofundador da UpHill, uma startup que tem como objetivo manter os profissionais a par das constantes atualizações no campo da saúde. O objetivo do trabalho é “distinguir o trigo do joio dentro das centenas de milhares de artigos que saem sobre o coronavírus hoje em dia”.

E como é que isso é feito? Através de uma equipa de cerca de 20 pessoas — todas elas da área da Saúde — que, semanalmente, analisam, filtram, selecionam e resumem o conteúdo da evidência científica que é publicada em várias partes do mundo e sobre todos os temas da Covid-19. Entre tabelas com critérios para classificar os artigos, a equipa da COVID19PT-Ciência divide a sua análise em duas partes: primeiro é preciso perceber a relevância do artigo no contexto atual e, em segundo lugar, verificar a qualidade da evidência científica.

No primeiro critério, explica Eduardo Rodrigues, há indicadores que mostram “se o tema está a ser muito ou pouco falado e qual é o fator de impacto da revista científica onde foi publicado aquele tema”. Estes indicadores permitem que a equipa perceba a relevância de um determinado tema ou pergunta de investigação no contexto atual. “Um exemplo muito concreto: as máscaras. Houve um período na sociedade portuguesa e internacional em que as máscaras foram o tópico prioritário. Nessa fase nós obviamente gerimos o nosso foco para estes artigos científicos relacionados com as máscaras e de alguns documentos técnicos”, acrescenta o médico.

Já no segundo critério — a qualidade da evidência — há vários estudos que são analisados que “pretendem tirar conclusões e depois não têm uma solidez científica para o fazer”. “Eu não consigo fazer uma extrapolação para a população com uma amostra que é de conveniência, uma amostra que me chegou aos meus braços e que eu não desenhei porque estava a pensar num estudo robusto. E nós vimos muito isto acontecer: pequenos estudos ou séries de doentes que pretendiam tirar conclusões para uma população muito maior. Ora, não é assim que a ciência funciona“, alerta Eduardo Freire Rodrigues.

Uma vez que o “público alvo” deste projeto são os próprios profissionais de saúde que estão nos hospitais a combater a Covid-19, a componente prática de cada investigação é privilegiada. “Quisemos que estas revisões fossem feitas por profissionais de saúde diretamente e profissionais de saúde que têm, no fundo, um contexto maior do que é a realidade do dia a dia do tratamento e da abordagem ao coronavírus”. Depois de selecionados e revistos, os resumos de cada artigo são publicados nas plataformas de cada entidade envolvida (no site da UpHill ou da Evidentia Médica, por exemplo) e difundidos para alcançar cerca de 60 mil profissionais de saúde. 

Nesses resumos são indicadas informações como o objetivo e o contexto do estudo, o tipo e dimensão da amostra, o que foi feito e os resultados obtidos, bem como a conclusão e a pessoa da equipa que realizou a curadoria daquele conteúdo.

Exemplo de como é apresentada esta ferramenta no site da UpHill

Todo o trabalho feito, garante o responsável da UpHill, “é um trabalho isento que estes parceiros fazem para os colegas, sem qualquer tipo de custo associado”. “É um projeto mesmo de comunidade e por necessidade direta de todos nós“, acrescenta. Os artigos científicos analisados podem “chegar” de duas formas diferentes: ou a equipa “procura ativamente” os trabalhos nas várias revistas científicas ou alguns profissionais de saúde preenchem um formulário para recomendar a revisão de algum artigo.

Dos trabalhos portugueses à simulação virtual

Rever centenas de artigos científicos que surgem todos os dias nunca é uma tarefa fácil. Mas a grande dificuldade de todo o trabalho, acrescenta Eduardo Freire Rodrigues, é o facto de chegarem de todo o lado, mesmo de países onde antes não se associava tanta qualidade ou conteúdo de pesquisa.

Uma grande dificuldade que tivemos foi o facto de os primeiros artigos, talvez até com grandes séries de doentes, terem vindo de países onde habitualmente não reconhecemos tanta solidez e qualidade de evidência. A China é um exemplo disso. Nós na área de Biomédica, na área da Medicina, por exemplo, não reconhecemos a mesma qualidade da evidência a uma revista científica chinesa do que a uma americana. Essa adaptação e tentar fazer o scouting em fontes onde não era tanto o nosso habitual foi um dos grandes desafios para conseguir garantir que os colegas recebiam evidência de maior qualidade nas suas mãos”, explica o responsável da UpHill ao Observador.

Houve ainda temas que “surpreenderam” os profissionais, incluindo os estudos sobre tratamentos. “No princípio começou-se a colocar em cima da mesa opções terapêuticas que quando nós olhávamos para a evidência não existia uma robustez suficiente naquele momento para recomendar aquela atuação terapêutica”, conta Eduardo, acrescentando que tem sido feito um acompanhamento da evolução da evidência. Nas máscaras, exemplifica, se antes não existia uma recomendação muito clara sobre a utilidade para toda a população, “essa evidência foi transitando para recomendações mais no sentido da adoção em maior escala”. “A equipa tem conseguido adaptar-se às alterações e proporcionar essas medidas para que os colegas consigam ter a informação mais recente”, garante.

Para já, ainda não há uma grande quantidade investigação portuguesa publicada e revista mas, garante Eduardo, há “um aumento muito interessante” e “uma grande quantidade de artigos portugueses que estão submetidos”, especialmente com a existência de iniciativas públicas de financiamento de investigação para o novo coronavírus. A importância de dar aos investigadores e médicos a possibilidade de aceder aos dados da Covid-19 em Portugal, assegura, é uma questão importante “de transparência”.

Além de fazerem a revisão científica, há ainda cerca de 60 pessoas da equipa que trabalham para disponibilizar casos clínicos de simulação virtual para os médicos treinarem a abordagem aos doentes com Covid-19. Trata-se de uma simulação gratuita no software da UpHill, disponível para qualquer profissional de saúde, independentemente do hospital. Tudo porque, com o surto do novo coronavírus, também vários médicos tiveram de trocar a sua área para ajudar a combater o vírus.

Vimos colegas que não estavam habituados a fazer urgência e que tiveram que passar a fazer, colegas que estavam a fazer urgência e tiveram que passar para internamentos e unidades de cuidados intensivos. Houve uma subida a montante dos profissionais de saúde e eles foram colocados nestas situações não familiares, onde o contacto com o coronavírus era desconhecido. Abrimos aqui uma oportunidade ao facultarmos estes cenários de simulação para que os médicos pudessem treinar a abordagem ao doente com coronavírus.

Nesta simulação, os profissionais de saúde podem testar as abordagens aos doentes nos vários cenários em que ele se pode encontrar, desde adultos em ambulatório, em enfermaria ou até nos cuidados intensivos. Todas as semanas são feitas cerca de 200 a 300 simulações. Até porque, refere Eduardo, é importante, “no âmbito desta necessidade, readaptar os profissionais de saúde nas áreas onde não estavam familiarizados”.