Os eleitos democratas no Congresso dos Estados Unidos da América (EUA) iniciaram este domingo um inquérito ao despedimento pelo Presidente Trump de um inspetor do departamento de Estado, que conduzia uma investigação interna sobre o chefe da diplomacia, Mike Pompeo.

O inquérito parlamentar sobre o afastamento de Steve Linick, inspetor-geral do departamento de Estado, foi anunciado por Eliot Engel, presidente da comissão dos Negócios Estrangeiros da Câmara dos Representantes, e um democrata do Senado, Bob Menendez.

“Contestamos firmemente o afastamento de inspetores-gerais por motivos políticos”, declararam Engel e Menendez, num comunicado.

Os dois eleitos democratas referiram que Linick investigava queixas sobre um alegado abuso por Pompeo dos serviços de um alto funcionário para garantir favores pessoais para si e para a sua mulher.

O chefe da diplomacia norte-americana viaja frequentemente pelo mundo num avião do Governo na companhia da mulher, Susan Pompeo, que não possui qualquer cargo oficial.

Em 2019, a CNN fez eco de uma das queixas, onde se referia que a segurança diplomática se responsabilizava por tarefas como ocupar-se do cão da família ou de efetuar compras de alimentos.

“O facto de Linick ter sido demitido das suas funções no decurso deste inquérito sugere fortemente tratar-se de um ato ilegal de represálias”, indicou Engel.

Os dois eleitos democratas exigem que os altos responsáveis do Governo conservem todos os documentos relacionados com este despedimento e que os transmitam até 22 de maio às comissões responsáveis pelo inquérito.

Segundo a CNN, o próprio Pompeo sugeriu o afastamento de Linick e escolheu pessoalmente o seu sucessor, Stephen Akard, um antigo colaborador do vice-presidente Mike Pence.

De acordo com a lei norte-americana, o executivo deve prevenir o Congresso com 30 dias de antecedência da sua intenção de demitir um inspetor-geral, para permitir a contestação da decisão pelos deputados.

A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, declarou que Linick foi “punido por ter cumprido honradamente o seu dever de proteção da Constituição” e da “segurança nacional”.

“O Presidente deve terminar com este hábito de exercer represálias e vingar-se contra funcionários que trabalham ao serviço da segurança dos americanos, em particular nestes tempos de emergência mundial”, acrescentou Pelosi.

Desde a sua absolvição no processo de destituição no Congresso em janeiro, o Presidente dos EUA desafia e critica com frequência o que designa de “Estado profundo”, numa alusão aos funcionários federais que, segundo considera, entravam a sua ação.

Donald Trump afastou ou demitiu inspetores-gerais para o Pentágono, os serviços de informações ou o departamento de Saúde, e ainda um alto responsável científico, Rick Bright, que até finais de abril dirigia uma agência responsável pelas vacinas (Barda).

Bright assegurou ter sido afastado devido à sua oposição a uma ampla utilização de hidroxicloroquina, um medicamento elogiado por Trump, no tratamento do novo coronavírus, mas cuja eficácia não foi rigorosamente comprovada.

Os inspetores-gerais têm poderes para promover inquéritos internos em cada ministério.

Procurador há longos anos, Linick foi nomeado em 2013 por Barack Obama para supervisionar os 70 mil milhões de dólares (64,7 mil milhões de euros) gastos pela diplomacia norte-americana.

Pompeo, de 56 anos, é um colaborador muito próximo de Donald Trump e um dos raros a conseguir evitar qualquer divergência visível com um Presidente impulsivo e imprevisível.

Em funções desde 26 de abril de 2018 para suceder a Rex Tillerson, que mantinha relações turbulentas com o Presidente, Pompeo impulsionou nos últimos meses uma viragem da diplomacia norte-americana, e contra a opinião de numerosos cientistas promoveu uma teoria pela qual a pandemia de covid-19 teve origem num laboratório chinês.

Em 2019, Linick teve um papel menor no decurso do processo de destituição contra Donald Trump, ao remeter ao Congresso documentos de Rudy Giuliani, o advogado do Presidente.