Não há que ter receio em entrar em “Quatro Casamentos e um Funeral”, versão série, que se estreia esta terça-feira às 22h10 no canal AMC. São dez episódios elaborados por Mindy Kaling e Matt Warbuton que pegam na clássica comédia romântica de Richard Curtis e lhe dão um vestuário presente, menos britânico, mais universal, menos fechado nas personagens, mais aberto à exploração de todo o elenco: é como se “Quatro Casamentos e um Funeral” casasse com “Friends”.

Nathalie Emmanuel, a Missandei de “Guerra dos Tronos”, está habituada a isto, a grandes elencos onde um protagonista – ou falso protagonista – serve de maestro para esta orquestra. Começou a carreira assim, na série juvenil “Hollyoaks”, depois “Guerra dos Tronos”, “Maze Runner” e “Velocidade Furiosa”. Agora, em “Quatro Casamentos e um Funeral”, é a sua altura de liderar. A protagonista da série é Maya, uma mulher e não um homem, como no filme (Hugh Grant).

Maya escreve discursos para um político norte-americano muito ambicioso. E também é sua amante. Numa visita ao Reino Unido, a sua terra Natal, para o casamento da melhor amiga, tudo muda. É o arranque de uma comédia que não tenta explicar as relações, mas que quer mostrá-las, procurando divertir o espectador enquanto o faz. Ao telefone, de Londres, Nathalie Emmanuel falou-nos de como se reinventa um clássico.

[o trailer de “Quatro Casamentos e um Funeral”:]

Alguma vez imaginou que poderia interpretar uma personagem da recriação para televisão de uma das comédias românticas mais populares da história do cinema?
Não, claro que não. Foi muito nostálgico para mim, também. Na série há tanto piscar de olho, não só ao “Quatro Casamentos e um Funeral”, mas a outros filmes do Richard Curtis. Relembra-me quando era uma criança, uma adolescente a ver esses filmes. Foi ótimo fazer parte disto, porque sou uma grande fã do original, foi muito divertido repensar nisto e enquadrá-lo em 2019, quando o filmámos.

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Quando o viu pela primeira vez?
Em 1994 ainda era muito nova. Acho que o vi quando tinha 10 ou 11 anos, ou seja, ainda era muito nova para o ver, mesmo assim. Quando entramos na escola preparatória, os pais deixam de ter tanto controlo sobre aquilo que os filhos veem.

As comédias românticas britânicas foram importantes para optar por uma carreira na interpretação?
Sim, claro. Cresci a ver muitas comédias românticas. Há tantas icónicas, como “Quatro Casamentos e um Funeral”, “O Amor Acontece” ou “Notting Hill”. Cresci a ver esses filmes. E adoro como as comédias românticas nos deixam a sentir, passamos por todas as emoções, tristeza, felicidade, preocupação, a satisfação de um casal apaixonar-se. E, acima de tudo, fazem-nos rir. É uma combinação perfeita. Sempre gostei de comédias românticas e queria fazer as pessoas sentirem-se assim. Gostei muito de podermos fazer “Quatro Casamentos e um Funeral” de uma forma moderna. A minha personagem é inteligente, brilhante, é uma pessoa doce, mas com a vida desarrumada, está a tentar perceber o que se passa na sua vida, a avançar com erros, não corresponde ao arquétipo de personagem feminina das comédias românticas: como nas décadas de 1980 e 1990. A Maya é mais complicada. Consigo relacionar-me mais com ela do que as personagens femininas decididas de outras décadas.

A protagonista da série, a sua personagem, a Maya, é uma mulher. Ao contrário do filme, que era um homem. Isso pesou na sua decisão?
Mas vejo esta versão mais como um trabalho de equipa. A forma como as personagens femininas são tratadas na série são mais complexas do que no filme original. Muitas vezes é uma personagem masculina que é o centro da história. Mas penso que há um grande balanço entre as histórias da Maya e do Kash, Ainsley e Duffy, ou a Ainsley e o Craig. Todas as personagens estão a passar por muita coisa e na série há um bom equilíbrio entre géneros e de como a história das personagens é contada. Isso foi interessante e divertido. E, certamente, um alívio. Porque, lá está, muitas vezes é um homem no papel principal, mas aqui fizeram um bom trabalho. Sim, a minha personagem é a principal, mas há um grande balanço entre a história dela e a do Kash. Investe-se na história de ambos. De uma forma muito prática.

“Foi bom sentir-me em casa, por que afinal estou mais habituada ao humor britânico do que ao norte-americano”, diz Nathalie Emmanuel

Já conhecia o trabalho de Mindy Kalling e Matt Warburton?
Quem é que não gosta da Mindy Kalling? Não conheço quem não goste. Eu colocaria alguém em dúvida que não gostasse dela. Estou a brincar. Bem, mais ou menos. Adoro a Mindy, acho que ela é muito esperta, brilhante, e é ótimo trabalhar com ela durante as filmagens. Ela é uma boa líder, sentimo-nos seguros com ela, sabemos o que ela quer, ela sabe dizer o que quer. É muito talentosa. Uma mulher fenomenal. Foi muito inspirador trabalhar com ela, de quem era já uma grande fã, de séries como “The Office” ou “The Mindy Project”. E o Matt, que também é um ótimo argumentista, forma uma equipa belíssima com ela.

A série acontece no Reino Unido, mas é escrita por norte-americanos. Tem a sensação de que é mais britânica ou norte-americana?
Há uma diferença entre o humor britânico e o norte-americano. Claro que ao ser escrito por norte-americanos, o humor é mais norte-americano. Mas ri-me muito ao ler o argumento e quando vi a série, ainda mais. É divertido entrar neste mundo britânico mas com norte-americanos dentro dele. Foram buscar atores que trazem algum humor britânico para dentro da série. Apesar de tudo, fez-me sentir em casa, por que afinal estou mais habituada ao humor britânico do que ao norte-americano: muitas vezes pensava que é difícil não rir das piadas, porque é tão divertido.

Ficou feliz porque a ação se passa em Inglaterra, como no filme?
Claro, estava em casa! Foi muito conveniente para mim. E, também, Londres é uma cidade muito bonita, icónica e romântica. É a única cidade onde imagino isto acontecer, se o objetivo é prestar homenagem ao filme e à obra do Richard Curtis, localizar a ação noutro local não faz qualquer sentido. Gostei muito da diversidade do elenco, penso que isso… não digo isto para dizer mal da indústria britânica, porque há muito que está a ser feito, há mudanças em termos de diversidade. Mas o facto de ser uma produção norte-americana, que veio para cá e construiu um elenco que se parece como nós parecemos, não acho que isso seja uma coincidência: os norte-americanos tendem a estar um pouco mais à frente nesse aspeto. Gostei que isso acontecesse em território britânico e que o pudéssemos fazer.

Tem um passado, e um presente, em produções em que a ideia de elenco é superior à de protagonista. Começou a carreira em “Hollyoaks” e participou em “Guerra dos Tronos”, tem um papel recorrente em “Velocidade Furiosa”. E, agora, “Quatro Casamentos e um Funeral”. Gosta de trabalhar nestas produções com muitos atores a lutarem por protagonismo?
Sim, adoro. Ao colaborar com tanta gente talentosa, absorvemos muito mais conhecimento. Mas não só das pessoas, mas também dos locais que visitas. Penso que assim é muito mais divertido. Conheci alguns dos meus melhores amigos nessas produções, tenho muita sorte em fazer parte destes projetos.