Numa entrevista que deu nos anos 90, Michel Piccoli falou assim sobre a sua arte: “Gosto muito da expressão italiana ‘io faccio l’attore’. Os italianos não dizem ‘Eu sou um ator’, dizem ‘io faccio l’attore’. Gostava de seguir esta ideia até ao seu fim lógico, representar como se fosse uma marioneta”. Piccoli, que morreu no passado dia 12, com 94 anos, na sequência de um AVC (a família só hoje divulgou a notícia), tem uma carreira que se confunde com a história do cinema francês, e europeu, da segunda metade do século XX. Sem esquecer o teatro, que preencheu o início da sua vida artística, ainda antes do cinema, e onde foi dirigido por encenadores da envergadura de Jean Vilar, Peter Brook, Luc Bondy ou Patrice Chéreau.

[“O Desprezo”, de Jean-Luc Godard”:]

Na tela, é estarrecedora a lista de realizadores com quem rodou. Entre eles estão Buñuel (sete filmes), Claude Sautet (seis), Marco Ferreri (sete), Manoel de Oliveira, Godard (“O Desprezo”, que o lançou no cinema, em 1965), Renoir, Chabrol, Rivette, Malle, Ruiz, Angelopoulos, Moretti, Varda, Skolimowski, Doillon, Bellochio, Granier-Deferre, Demy, Clément, Hitchcock, Resnais, Melville ou Cavalier. Michel Piccoli trabalhou com várias gerações de cineastas, desde a Nova Vaga até figuras das levas mais recentes do cinema francês, como Leos Carax ou Bertrand Bonello, alternando grandes autores e nomes mais “mainstream”. Contemplou os mais variados registos e géneros, soube ser “clássico” e aventurar-se com realizadores mais arrojados e vestir papéis anti-convencionais (ver o bizarríssimo “Regresso às Cavernas”, de Michel Faraldo, em 1973), e foi aplaudido e admirado quer pelo grande público, quer pelos mais cinéfilos.

[“As Coisas da Vida”, de Claude Sautet”:]

P era um ator dos sete instrumentos, versatilíssimo e com o gosto do ecletismo. Podia interpretar das personagens mais lineares, abertas e encantadoras às mais soturnas, ambíguas, complicadas, truculentas ou excêntricas: inspetores da polícia, pais de família, burgueses em crise de meia-idade, homens solitários, angustiados ou derrotados, artistas (recorde-se o actor devastado pela morte de parte dos seus familiares em “Vou para Casa”, de Manoel de Oliveira, ou o pintor tirânico de “A Bela Impertinente”, de Jacques Rivette), vilões, políticos, juízes, espiões, eclesiásticos (o Papa em pânico de “Temos Papa”, de Nanni Moretti) ou libertinos perversos. E ser mais terra-a-terra ou mais “psicológico”, mais discreto ou mais esfuziante, mais físico ou mais cerebral, aveludado ou todo em arestas, conforme a personagem pedisse.

[“Une Étrange Affaire”, de Pierre Granier-Deferre:]

Nunca se deixou aprisionar por um tipo de papel, repetir-se, nem transformar em “senador” dos atores. Apesar do rigor que punha no seu trabalho, Michel Piccoli, sempre teve algo de fantasista, uns pozinhos de delírio (era admirador confesso de Totò, de quem invejava a imaginação, a riqueza da verbosidade e a capacidade de improvisação criativa). Jamais caiu na tentação do “overacting”, e estando sempre de cabeça, alma e coração com as suas personagens e nos filmes onde existiam, foi um daqueles poucos actores que acabou por se confundir com elas: Piccoli “fazia” Piccoli. No meio dos mais de 200 filmes (e alguns telefilmes) que fez, teve também tempo para realizar três, todos produzidos por Paulo Branco. E para produzir ele mesmo uma dezena, de cineastas consagrados ou em início de carreira.

[“Regresso às Cavernas”, de Michel Faraldo:]

Entre os prémios que ganhou, contam-se o de Melhor Actor no Festival de Cannes, em 1981, com “Salto no Vazio”, de Marco Bellochio, no Festival de Berlim, em 1982, por “Une Ètrange Affaire”, de Pierre Granier-Deferre, e no Festival de Locarno, em 2007, em “Sous les Toits de Paris”, de Hiner Saleem. Nunca recebeu um César, apesar de ter sido nomeado quatro vezes. Michel Piccoli não fazia teatro desde 2009, quando interpretou “Minetti”, de Thomas Bernhardt, e apareceu pelo cinema pela última vez em “Le Goût des Myrtilles”, de Thomas De Thier, em 2014. Foi casado três vezes, uma das quais com a cantora e atriz Juliette Gréco, entre 1966 e 1976.

[“Temos Papa”, de Nanni Moretti:]

Numa das cartas que trocou com o seu grande amigo Gilles Jacob, antigo presidente do Festival de Cannes, e compiladas no livro “J’ai vécu dans mes rêves”, Michel Piccoli escreveu: “De mim, ficarão apenas alguns dos filmes que interpretei.” Estava a ser demasiado modesto. São muitos, muitos mesmo.