Que risco tem a maior probabilidade de se materializar até ao final do próximo ano? E qual é o mais preocupante? Seja qual for a dúvida, a resposta da maioria dos gestores de risco é a mesma — uma recessão global prolongada é não só a maior de todas as ameaças como tem também a maior probabilidade de perturbar o mundo e as empresas nestes tempos de pandemia.

O Fórum Económico Mundial, em parceria com duas multinacionais da área dos seguros (Marsh & McLennan e a Zurich), questionou mais de 300 profissionais de gestão do risco em diferentes setores para perceber expetativas e preocupações. E a resposta não podia ser mais clara no relatório “Perspetivas de risco Covid-19 — Um mapeamento preliminar e suas implicações” — apesar de o risco de outro surto pandémico estar bem presente nas análises, o maior pessimismo centra-se nos perigos económicos.

A maioria (68,6% dos gestores de risco) acredita que haverá uma recessão global prolongada ao longo destes 18 meses e, em simultâneo, entende que este é o risco mais preocupante para o mundo (58,5%) e para a empresa onde trabalha (66,3%).

Falências, desemprego estrutural, restrição de movimentos

A suportar essa possibilidade de recessão prolongada, os gestores de risco acreditam que uma bateria de outras ameaças económicas podem também concretizar-se: um pico de falências em todo o tipo de empresas e uma onda de consolidações (56,8%); setores de atividade em alguns países que não vão recuperar em condições (55,9%); elevados níveis de desemprego estrutural, especialmente entre os jovens (48,7%); maiores restrições de movimentos transfronteiriços de pessoas e bens (48,7%); enfraquecimento das situações orçamentais nas maiores economias (45,8%); disrupção prolongada das cadeias de abastecimento global (42,1%); ou até mesmo o colapso económico de um mercado emergente ou de uma economia em desenvolvimento (38%).

Entre estas oito incertezas consideradas como mais prováveis, apenas uma — a da restrição de movimentos — é rotulada pelo Fórum Económico Mundial como um risco geopolítico, apesar de ter também uma vertente económica.

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Só depois surgem riscos de outra natureza, como ciberataques e fraude de dados motivados por uma sustentada mudança nos padrões de trabalho (37,8%) e, a fechar o top 10, a ameaça de outro surto pandémico nos próximos tempos (30,8%). É preciso recuar outros nove degraus para encontrarmos nesta lista uma incerteza ambiental — apenas 18,2% das respostas consideraram o risco de não se investir o suficiente para fazer face às alterações climáticas.

Entre as 31 perguntas feitas pelo Fórum Económico Mundial, estão ainda a possibilidade de aumento do desemprego provocada por automação da força de trabalho (24,8%); a exploração da crise da Covid-19 para ganhos geopolíticos (24,2%) e a eventualidade de governos decidirem manter os poderes de emergência e/ou violarem as liberdades civis (23,3%).

A ameaça que menos consenso reúne tem que ver com guerra. Apenas 2,3% dos gestores de risco entende que o agravamento de conflitos armados de longo prazo está entre as mais prováveis consequências da pandemia — embora não haja nenhuma pergunta sobre o início de novos conflitos.

É também amplamente desvalorizado o aumento do sentimento anti-empresarial (apenas 3,2% dos profissionais de gestão de risco entendem ser uma das mais prováveis ameaças); a possibilidade de um menor esforço global de descarbonização (4,6%); o colapso de infraestruturas de tecnologia de informação (6,9%); e a incapacidade de apoiar e investir em organizações multilaterais para responder à crise global (7,8%).

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O facto de um risco ser mais provável nada revela sobre a sua importância para o mundo, mas, tal como na listagem anterior, as respostas de gestores de risco sobre o que entendem ser as grandes preocupações é dominada por questões económicas.

A recessão prolongada está no topo das ameaças mais importantes (58,5%), seguido pelo desemprego estrutural (43,8%) e há ainda outras cinco incertezas económicas no top 10. No entanto, a possibilidade de um novo surto pandémico ganha relevo, ocupando a terceira posição (40,1%).

No capítulo da importância para as empresas, repete-se a preocupação com a queda do PIB mundial (66,3%) e as falências (52,7%), mas ganham importância os ciberataques e as fraudes de dados num novo contexto de organização do trabalho (50,1%).

Uma retoma com mais equidade e sustentabilidade

Apesar de todos estes riscos e preocupações, o Fórum Económico Mundial entende que esta pode ser “uma oportunidade para forçar uma maior equidade social e sustentabilidade na retoma, acelerando, em vez de atrasar, o progresso com vista aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2030 e libertando uma nova era de prosperidade”.

Em termos sócio-económicos, o Fórum Económico Mundial vê uma “revalorização de quem desempenha funções de ‘trabalho essencial’ e um novo entendimento dos serviços públicos essenciais, como saúde, educação, proteção social e outras redes de segurança”.

Apesar das perspetivas económicas “sombrias”, sublinhadas no relatório, os responsáveis do Fórum também acreditam que “a solidariedade criada pela pandemia de Covid-19 oferece a possibilidade de investir na construção de sociedades mais coesas, mais inclusivas e iguais”.

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Na agenda ambiental, o relatório realça a importância de implementar programas de estímulo ambiental porque têm “o potencial para mudar radicalmente a forma como as economias e as indústrias operam, especialmente quando as mudanças de comportamento social impulsionam um consumo e hábitos de mobilidade mais sustentáveis”.

Para as empresas, o Fórum diz haver potencial para “uma nova era de inovação, crescimento e governança tecnológica ao serviço das metas sociais e ambientais”.

No entanto, avisa igualmente que, para alcançar todos esses resultados positivos, os riscos imediatos e de longo-prazo têm de ser bem geridos.