O momento que atualmente vivemos, no mundo inteiro, faz com que esqueçamos os contos de fadas. As histórias que parecem inventadas pelos escritores mais otimistas, desenhadas pelos pintores menos realistas e interpretadas pelos músicos mais alegres. Certo é que os contos de fadas continuam a existir. E são ainda mais reconfortantes de encontrar nesta altura, em que as histórias mais comuns pouco têm de otimismo ou alegria.

Max Taylor, de 20 anos, é protagonista de um destes contos de fadas. Em novembro de 2018, foi diagnosticado com um cancro testicular. Nas fileiras do Manchester United desde os 14 anos, nascido e criado na cidade, tinha assinado o primeiro contrato profissional cinco meses antes. Depois do diagnóstico, foi submetido a nove intensas semanas de quimioterapia e uma cirurgia. Em setembro do ano passado voltou aos treinos e em outubro já estava em campo pelos Sub-23 dos red devils. Em novembro, foi chamado por Ole Gunnar Solskjaer à equipa principal para uma visita ao Astana, na fase de grupos da Liga Europa, mas não chegou a sair do banco e ainda espera pela estreia. Esta quarta-feira, 18 meses depois de começar os tratamentos, Max Taylor renovou contrato com o Manchester United e é uma das apostas do clube para o futuro.

O jovem central, que enquanto esteve doente recebeu mensagens de apoio de José Mourinho, então treinador do United, e dos jogadores do clube, foi vastamente elogiado por Solskjaer quando foi chamado à equipa principal. “É uma história fantástica. Conheci-o pouco depois de chegar cá e ver a jornada dele, voltar a estar preparado, a forma como se motivou, isso é algo que ele terá sempre do seu lado. É uma inspiração para todos os jogadores. Dá para ver que quando está no campo já não tem medo, já teve medo na vida dele e agora só quer divertir-se”, disse o treinador norueguês. O medo, esse, ficou com o apelido: em fevereiro do ano passado, Max mudou oficialmente o nome e passou a ser Taylor, o apelido do padrasto, em vez de Dunne, o apelido do pai que usava até então.

Em novembro, por altura da convocatória para o jogo contra o Astana, Max Taylor falou com a BBC sobre o diagnóstico, o tratamento e o regresso aos treinos. “Senti um caroço. Fiz um exame e pensaram que era um quisto, que é muito comum na minha idade. Mas quando repeti o exame, tinha aumentado de volume. Fui a um especialista e fiz outro exame. Foi aí que me disseram que na área de infeção junto ao quisto estava um tumor, provavelmente um tipo de cancro testicular”, contou o central. Era necessário realizar uma biopsia, para ter certezas, e o Manchester United disse a Max para tirar umas férias antes de saber o resultado. Max veio descansar para Portugal e era em Portugal que estava quando recebeu a chamada que confirmou o cenário mais grave. Voltou a Inglaterra, foi internado num hospital oncológico e soube logo à partida que a situação era ainda mais complicada do que o inicialmente esperado.

Manchester United v West Bromwich Albion: Premier League 2

O jovem central ainda não se estreou na equipa principal do Manchester United mas é presença habitual nos Sub-23 do clube

“O cancro já tinha chegado ao abdómen e também já tinha umas manchas nos pulmões. Disseram-me logo que iria precisar de uma quimioterapia forte, um período curto mas muito intenso. Estava com medo. Já tinha tido azar suficiente para ter cancro, logo à partida, por isso quando me disseram que existia a possibilidade de continuar a espalhar-se, fiquei preocupado”, recordou o inglês, que sentiu que “tudo lhe foi retirado”, incluindo o futebol. “Vivemos numa bolha. É só futebol, futebol, futebol. Treinar num dia, jogo no dia seguinte, treinar outra vez. Naquela noite, fechei a porta de casa e pensei: ‘E agora?'”, explica Max Taylor.

Depois das nove semanas de quimioterapia, o jovem inglês ainda foi operado, permaneceu internado durante vários dias e passou por um período difícil a nível mental, por não se sentir “normal” e ainda ter muitos efeitos secundários dos tratamentos. Nessa altura, foi acompanhado pelo psicólogo do Manchester United e considera que o apoio dos colegas, de José Mourinho e depois de Solskjaer no regresso aos treinos acabou por ser crucial para aliar a recuperação psicológica à recuperação física.

Ainda assim, Max Taylor, só tem um desejo: ser tratado como um qualquer jovem jogador. “Conheço alguns dos meus colegas desde os 14 anos. São os meus melhores amigos. Só foi preciso chegar ao primeiro ‘túnel’ nos treinos para eles se rirem de mim. Por mais engraçado que soe, esse momento foi muito bom. Nunca vou negligenciar o facto de ter tido cancro, mas não quero que as pessoas se lembrem de mim por causa disso. Quero ser boa pessoa, um bom jogador e alguém que retribui”, termina o protagonista de um dos contos de fadas que agora, principalmente agora, merecem atenção.