O governo italiano evitou esta quarta-feira uma crise política ao superar duas moções contra o seu ministro da Justiça, Alfonso Bonafede, apresentadas ao parlamento devido à libertação de presos no contexto da pandemia de Covid-19.

A primeira moção de censura, apresentada no Senado pela oposição de direita, terminou com 160 votos contra, 131 a favor e uma abstenção.

A segunda, promovida pelo partido “+Europa” da antiga comissária europeia e ex-ministra Emma Bonino, acabou com 158 votos contra, 124 a favor e 19 abstenções.

O ministro da Justiça foi submetido a essas duas moções depois de cerca de 8.000 presos, entre estes cerca de 500 elementos da máfia, acabarem em prisão domiciliária devido ao plano de libertações nas prisões no contexto da pandemia de Covid-19.

Itália. Pelo menos quatro chefes da máfia libertados da prisão por risco de infeção com Covid-19

Essas moções foram importantes porque representavam um novo teste para a coligação do governo, composta pelo movimento antissistema Cinco Estrelas (M5S) e pelas forças do Partido Democrata (PD), Itália Viva (IV), e Livres e Iguais.

Especialmente porque o líder do IV, o ex-primeiro ministro de direita Matteo Renzi, havia ameaçado fazer cair o ministro Bonafede.

Isso teria aberto uma crise governamental, pois Bonafede é um dos expoentes mais importantes do Cinco Estrelas, como membros dessa formação já haviam reconhecido, nomeadamente o presidente da Câmara dos Deputados, Roberto Fico.

Renzi deixou em dúvida qual seria o voto do seu novo partido – com 17 senadores – até a manhã desta quarta-feira, pois nas suas redes sociais havia avançado que o seu discurso no Senado seria “um dos mais difíceis” de sua carreira política.

No entanto, finalmente votou contra a moção e permitiu que Bonafede continuasse, embora sem poupá-lo a críticas.

O ministro, por outro lado, defendeu a sua administração e garantiu que a libertação desses prisioneiros, que acabaram em prisão domiciliária por estarem em risco de contaminação pelo novo coronavírus, foi o resultado de leis aprovadas no passado.

“A imagem de um governo que abre as portas das prisões até para os detidos mais perigosos é totalmente falsa”, disse Bonafede na câmara alta.

Bonafede defendeu que um recente decreto seu permitiu a revisão dessa política e o retorno à prisão de inúmeros criminosos, também graças à melhoria da situação da pandemia.

A pressão sobre o ministro aumentou depois de o procurador Nino Di Matteo, um dos mais conhecidos do país e que investiga as ligações entre a máfia e a política, acusar o ministro de negar-lhe uma posição, condicionada pela pressão de alguns chefes da máfia.

Nos últimos dias, o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, lutou para manter a sua coligação governamental compacta e realizou uma reunião com a principal aliada de Renzi, Maria Elena Boschi, para garantir o seu apoio ao ministro da Justiça, de acordo com os meios de comunicação italianos.