O deputado único do PCP no parlamento dos Açores considerou esta quarta-feira que a tentativa de privatizar parcialmente a transportadora SATA foi um “criminoso intento” e que a pandemia atual reforçou o “insubstituível papel” das empresas públicas regionais.

“Tivesse sido cometido o colossal erro, diria mesmo o criminoso intento de entregar a SATA a privados, como foi tentado, e não só o Governo [Regional] tinha ficado sem um instrumento de política que usou e bem para condicionar e limitar o surto pandémico, como teríamos hoje a SATA em função da crise e das falências que grassam no setor aéreo eventualmente a declarar falência como tantas outras empresas”, afirmou João Paulo Corvelo, numa declaração política no parlamento açoriano.

A “situação pandémica”, prosseguiu o comunista, “pôs em evidência a enormíssima e fundamental importância que o investimento público tem” nos Açores, e o parlamentar elogiou os “profissionais de excelência” do Serviço Regional de Saúde.

Se provas fossem necessárias para demonstrar aos defensores de tudo o que é privado em detrimento daquilo que é público este seria um bom exemplo para lhes demonstrar o quanto estão errados”, acrescentou.

Em 24 de abril, o presidente do Governo dos Açores, Vasco Cordeiro, admitiu que a atual pandemia da Covid-19 “pode afetar e muito” a decisão que o executivo tinha até agora de privatizar parte da Azores Airlines, empresa do grupo SATA, que faz as ligações de e para fora da região.

No comentário à intervenção do deputado comunista, o deputado do Bloco de Esquerda Paulo Mendes sustentou ter ficado plasmada “de forma bastante evidente” a “vulnerabilidade” da economia açoriana, que assenta em “poucos setores” e tem precisamente no turismo elemento de destaque.

Não devemos deixar de apostar e investir no turismo, mas não devemos ter a nossa economia entregue a um ou dois setores, ainda para mais tão vulneráveis às condicionantes externas”, prosseguiu o bloquista.

O PSD, pelo deputado António Vasco Viveiros, sublinhou que a situação económica nos Açores “já era de relativa dificuldade” antes da pandemia, nomeadamente ao nível da taxa de desemprego e da taxa de pobreza, “das mais elevadas do país”. “Quando se planear a retoma pós-pandemia, ou em simultâneo, as preocupações da região são acrescidas”, e nesse sentido o PSD, lembrou o parlamentar, apresentou já propostas nesse sentido.

Já o PS, partido que apoia o Governo Regional, reiterou elogios ao Serviço Regional de Saúde e ao comportamento dos açorianos com o espoletar da pandemia na região.

Várias medidas foram tomadas no sentido da valorização dos profissionais” da saúde, destacou o deputado socialista Francisco Coelho, lembrando o contexto arquipelágico dos Açores, com nove ilhas para cerca de 250 mil habitantes.

Contudo, reconheceu: “Esta crise tem algum potencial de agravar desigualdades (…) e desde logo foram tomadas pelo Governo da República, e medidas complementadas por nós, um conjunto de apoios com vista à salvaguarda das empresas, da atividade económica, do emprego com direitos, qualidade e rendimento”.

Pelo PPM, o deputado Paulo Estêvão lamentou os “ziguezagues” do PS, que criticava a privatização da TAP, mas pretendeu alienar parcialmente a transportadora regional SATA. A empresa, defendeu o parlamentar, tem vindo a dar prejuízos financeiros “por ter tido má gestão” e não por estar na esfera pública.

Pelo Governo Regional, o secretário regional Adjunto da Presidência para os Assuntos Parlamentares, Berto Messias, reconheceu que o futuro “é certamente desafiante” tendo em conta o atual contexto e “a preparação do futuro é muito complexa, mas também estimulante e desafiante”.

Temos de nos posicionar de forma a lidar com um contexto económico e social muito diferente e excecional, tendo em conta todos os constrangimentos que esta pandemia nos trouxe. E este desafio é maior ainda porque é possível dizer-se que no período pré-pandemia tínhamos uma região (…) que estava pujante, robusta, em crescimento, com indicadores económicos muito significativos e relevantes”, disse.

Posteriormente, o líder do CDS nos Açores, Artur Lima, declarou pretender intervir após ter ouvido o termo “pujante” na descrição do governante relativa à atividade económica regional, acrescentando o centrista que “pujante é a taxa de pobreza da região” e outros indicadores que “preocupam” o CDS.

“Vamos com calma, não vamos com populismos e aproveitamentos desnecessários da desgraça dos outros”, prosseguiu o também chefe de bancada do CDS no parlamento açoriano, que se escusou a “ir na onda” do otimismo mostrado por Berto Messias.

Até ao momento, já foram detetados na região um total de 146 casos de Covid-19, verificando-se 110 recuperados, 16 óbitos e 20 casos positivos ativos para infeção pelo novo coronavírus: destes, 16 estão em São Miguel, um na Graciosa e três no Pico.