A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) mostrou-se esta quinta-feira alarmada com a “catástrofe” que a pandemia de Covid-19 está a provocar no Iémen, onde o novo coronavírus alastra perante a falta de condições médicas.

Num comunicado esta quinta-feira divulgado, a MSF faz um apelo urgente às Nações Unidas e aos países doadores de ajuda para que auxiliem no combate à catástrofe que evolui rapidamente no Iémen, um país dilacerado pela guerra e pela fome.

A organização internacional não-governamental pede para que o Iémen seja apoiado com mais profissionais de saúde e com equipamentos de proteção individual, bem como com ventiladores nos hospitais.

Segundo a MSF, em Aden, a maior cidade do sul do Iémen, o novo coronavírus veio juntar-se como preocupação a uma região já assolada com graves problemas sanitários como a malária.

O que assistimos no nosso centro de tratamento (em Aden) é apenas a ponte do icebergue, em termos de número de pessoas infetadas e moribundas na cidade”, disse Caroline Seguin, chefe de programas da MSF.

As pessoas chegam ao centro tarde demais para serem salvas. E sabemos que muitas outras nem sequer cá chegam”, acrescentou a responsável da organização.

A MSF reportou que 173 doentes foram internados no centro, com sinais de Covid-19, e pelo menos 68 morreram das duas primeiras semanas de maio.

Caroline Seguin diz que também encontrou um grande número de cuidadores, incluindo da sua própria equipe, entre os doentes e que detetou oito vezes mais enterros por dia, na semana passada.

O centro de saúde da MSF é a única estrutura dedicada ao novo coronavírus no sul do Iémen, onde muitos hospitais locais se recusam a aceitar pacientes com sintomas de Covid-19, devido à falta de equipamento de proteção dos cuidadores.

Controlado por separatistas que reivindicam a independência do sul do país, Aden não foi sujeita a medidas de contenção da pandemia e os testes para a doença de Covid-19 são praticamente inexistentes.

Os números da pandemia reportados pela MSF são mais altos do que os fornecidos pelo governo, que já admitiu ter falta de testes para avaliar com precisão a extensão da pandemia.

O Iémen está envolvido num conflito armado, desde 2014, entre os rebeldes Huthis – apoiados pelo Irão e que controlam várias regiões do país, incluindo a capital Sanaa – e o governo, apoiado por forças de uma coligação internacional liderada pela Arábia Saudita.

Segundo as Nações Unidas, esta guerra já causou uma das piores crises humanitárias do planeta, tendo causado o colapso da infraestrutura de saúde local.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de Covid-19 já provocou mais de 328 mil mortos e infetou mais de cinco milhões de pessoas em 196 países e territórios. Mais de 1,8 milhões de doentes foram considerados curados.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Depois de a Europa ter sucedido à China como centro da pandemia em fevereiro, o continente americano passou a ser o que tem mais casos confirmados (mais de 2,2 milhões contra cerca de dois milhões no continente europeu), embora com menos mortes (mais de 133 mil contra mais de 169 mil).

Para combater a pandemia, os governos mandaram para casa 4,5 mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), paralisando setores inteiros da economia mundial, num “grande confinamento” que vários países já começaram a aliviar face à diminuição dos novos contágios.