Um livro de história, uma obra sobre mitologia, um manual de anatomia, um livro de ilustrações e até um diário pessoal. “O Prazer” de Mária Hesse encerra em si mesmo todas estas realidades. O anúncio é feito logo no prólogo e deixa antever a fusão de histórias e de personagens que acompanham as ilustrações cheias de vida e de cor. Não é de bom senso, avisa-nos a sabedoria popular, julgar um livro pela capa, mas, neste caso, não vem mal ao mundo. Hesse é uma ilustradora dotada, com um traço muito característico. É também ela quem assina as obras “Frida Kahlo: Uma biografia” e “Bowie: Uma biografia”.

O livro chegou ao mercado nacional em fevereiro desde ano © Divulgação

O livro que explora o despertar da sexualidade — da própria autora e de mulheres de carne e osso ou ficcionais, como Maria Madalena, Simone de Beauvoir, Marilyn Monroe ou até Daenerys Targaryen (da saga “A Guerra dos Tronos”) — cruza, no arranque, religião e orgasmos. María Hesse não teme ser disruptiva. Ao Observador, explica que o faz porque, na sua opinião, as religiões monoteístas têm sido “machistas”, não só em termos de sexualidade, “e educaram-nos em culpa”.

Assumindo que tanto homens como mulheres carecem de educação sexual, isto é, crescem com um grande desconhecimento do próprio corpo, a autora enfatiza que, no caso das mulheres, “nem a anatomia é estudada”. “O clitóris não aparece nos livros didáticos”, diz, enquanto o pénis “é facilmente visível”. “Vamos ao ginecologista e somos informadas apenas sobre a nossa função reprodutiva, que parece ser a única coisa importante. Além disso, não nos podemos tocar porque é algo sujo. Eles aprendem sobre sexo através da pornografia, onde o único prazer possível é o do homem”, esclarece.

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Quando [a escritora] Colette morreu, a Igreja Católica recusou-se a celebrar uma cerimónia religiosa na sua despedida — afinal de contas, uma mulher que abordara a sua bissexualidade sem reservas, em obras como Gigi ou na coleção ‘Claudine’, não merecia um lugar no Céu. Em contrapartida, a França laica homenageou-a com um funeral de Estado.” “O Prazer”

Hesse é da opinião que, no que toca à sexualidade, se deve “educar de forma natural o que é natural, tanto nas escolas como nas famílias”. Do desconhecimento vem a vergonha, da vergonha o medo e, depois, o mito. Questionada sobre se a sexualidade feminina ainda está presa neste ciclo, Hesse responde que sim, “lamentavelmente”, ainda que a conversa sobre o prazer feminino já tenha arrancado. “Avançamos, mas muito lentamente.”

Ao longo do livro, a autora cruza as histórias de mulheres que foram importantes para o feminismo e para a sexualidade feminina com as suas próprias vivências. Cruza as duas perspetivas — a de terceiros e a sua — para “trazer à luz aquelas mulheres que o patriarcado está encarregue de ocultar”. Fá-lo também porque acredita ser interessante aprender com estas personagens que, de uma forma ou de outra, já marcaram a história. Caso contrário, “é um contínuo começar do zero.”

O livro explora o despertar da sexualidade — da própria autora e de mulheres de carne e osso ou ficcionais © María Hesse

A uma certa altura no livro, a autora explica a desilusão face à dinâmica que mete no mesmo saco a sexualidade e a indústria cinematográfica: “Eu tinha bem presente aquele momento de Dirty Dancing em que Baby está no quarto de Johnny, os dois começam a dançar e ele despe-a pouco a pouco. Depois… corta! Na cena seguinte, já ela perdeu a virgindade e foi tudo feito. Ao menos nos filmes pornográficos mostram em que é que a coisa consiste mesmo”, escreve.

Mas se nos filmes românticos há pouca informação sobre como o sexo é na realidade, na pornografia há situações de exagero. Sobre esta dualidade, María Hesse volta a falar do patriarcado. “Somos educadas a ser submissas”, começa por dizer. “Nem a mulher é submissa por natureza, nem o homem é violento. Mas, no final, isso traduz-se em poder, e é muito difícil renunciar aos privilégios que nos são dados desde que nascemos.”

Era tudo muito estranho. Nos filmes românticos, não se admitia sexo explícito. Bastava um homem nu em cima de uma mulher nua, entrelaçados numa coreografia peculiar, e, como por magia, de repente, um prazer desmedido ficava patente no rosto dela. Em nenhum filme se falava sobre a masturbação nem se mostrava onde e como havia de tocar para que ‘aquilo’ funcionasse.” “O Prazer”

Hesse é da opinião que, no que toca à sexualidade, se deve “educar de forma natural o que é natural, tanto nas escolas como nas famílias” © María Hesse

Também a menstruação é abordada no livro, onde a autora escreve que as mulheres passam muito tempo a odiá-la para, já na menopausa, terem saudades. “A sociedade diferencia-nos quando estamos menstruadas”, diz ao Observador, referindo-se aos anúncios de pensos e tampões onde os líquidos azuis representam o sangue. Já “o sangue em filmes violentos não incomoda.”

Durante muito tempo, acreditou-se que, nos dias em que está menstruada, a mulher/mutante poderia fazer que as plantas murchassem, o vinho ficasse amargo, a maionese talhasse e o bronze e o ferro ganhassem ferrugem.” “O Prazer”

À publicação espanhola Público, Hesse chegou a dizer em entrevista que o maior órgão sexual é a mente. Considerando que a mente também pode bloquear comportamentos a ações, Hesse é perentória: “Geralmente é para isso que servem as sexólogas e os sexólogos.”