A Associação Portuguesa de Business Angels (APBA) enviou uma proposta ao Governo onde apelou ao alargamento de incentivos fiscais e ao recurso a fundos por usar da Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD), para ajudar no financiamento de startup.

Em entrevista à Lusa, o presidente da associação, João Trigo da Roza, realçou que este tipo de iniciativas pode apoiar no financiamento de empresas em começo de vida e a atuar em áreas inovadoras, tendo debatido a proposta com o Ministério da Economia.

É preciso “melhorar os apoios fiscais para que o capital seja direcionado para o setor do early stage [investimento em empresas em fase inicial]”, referiu, recordando que “em Portugal há uma coisa que nunca funcionou verdadeiramente, porque há um desalinhamento entre este programa e as outras políticas públicas, que é o Programa Semente, que dá incentivos fiscais, mas não permite que quem investe em grupo, através de veículo, beneficie desse incentivo”, lamentou.

Seria importante alargar o Programa Semente e deduzir em IRS os prejuízos dos investimentos, como em Inglaterra, e propusemos uma série de medidas para ver se é possível alargar o programa de forma a torná-lo mais efetivo”, referiu.

Além disso, a APBA, que subscreveu o documento em conjunto com a Federação Nacional de Associações de Business Angels (FNABA) e outras entidades da área, sugeriu que “os fundos geridos pela IFD, e que não foram utilizados, possam ser canalizados para os ‘business angels'” e para fundos de capital de risco, para introduzir o dinheiro na economia mais inovadora, referiu.

Estas propostas surgem numa altura de instabilidade causada pela pandemia de Covid-19, depois de um ano em que o setor bateu recordes em Portugal.

“2019 foi um ano excecional, com um aumento significativo em relação a 2018, e em que os valores reportados pelos nossos associados ultrapassam os 13 milhões de euros de investimento, o que em fase nascente tem muito significado”, adiantou o presidente da APBA, detalhando que este valor representa um aumento de mais de 100% em relação ao período homólogo.

“Há uns setores que se começam a destacar dos outros, o que já era uma tendência, mas que se confirmou em 2019 e é uma visão um bocado premonitória de uma nova economia que se calhar a Covid-19 veio acelerar”, e que passa por fintec (tecnológicas que prestam serviço financeiro) e empresas de saúde, energia, cibersegurança e e-commerce, destacou.

“A economia estava com muito boas perspetivas [em 2019] e as oportunidades a nível do early stage foram excelentes. Portanto, houve um incremento de atividade”, referiu João Trigo da Roza, destacando que tem existido também uma “profissionalização muito maior do setor”.

Segundo o responsável, a média de investimento por projeto é de perto de 500 mil euros, sendo que o mais pequeno foi da ordem dos 40 mil euros, para um total de 28 financiados.

Para este ano, “é difícil fazer previsões”, visto que “depende tudo da questão sanitária”, referiu.

“Vemos, para já, neste final do primeiro trimestre, em abril e maio alguma queda de investimento sobretudo dos business angels que estão a usar capitais próprios”, uma situação transversal ao setor na Europa, garantiu.

Ainda assim, João Trigo da Roza acredita que “há setores que vão beneficiar” deste cenário “porque houve uma aceleração da economia digital. E as empresas que estão nesse mundo vão disparar”, assegurou.

Até lá, a associação acredita que o segmento dos business angels e outros veículos do género pode contribuir “com pequenas rondas de investimento para ajudar à tesouraria, e isso está a acontecer”.

A APBA conta com 150 associados, mais de 12 veículos ativos de investimento e alguns fundos de venture capital.

Um business angel é um investidor privado que realiza investimentos em oportunidades nascentes (por exemplo, startup ou early stage) e participa nos projetos com smart money, ou seja, além da capacidade financeira também contribui com a sua experiência e network de negócios.

Para os empresários em início de atividade, os business angels podem ser considerados como uma espécie de padrinhos, que contribuem com capital em troca de uma participação no negócio, tal como no capital de risco.