Séries que se perdem pelo meio da quantidade de estreias já não é coisa nova. O que é raro é existirem três que estrearam quase ao mesmo tempo e que merecem atenção, oferecendo alternativas que deixam o espectador mais realizado – dentro do possível – sobre questões que o atormentam frequentemente, como o amor, reviver o passado, viver para sempre ou a possibilidade de fazer um álbum de hip hop sobre o seu próprio pénis (claro que é). “Run”, “Dave” e “Devs” têm nomes curtos e também não têm muitos episódios para se ver. Sete, dez e oito, respetivamente. E não são só boas séries, todas elas são construídas com a ideia de que cada episódio conta – e muito. Por isso, há episódios nestas três séries que dificilmente vamos esquecer.

“Run”

Há formas e formas de contornar o aborrecimento. Ou seja, há a ficção que o consegue fazer e a ficção que não o consegue fazer. Vicky Jones está treinada em fazê-lo bem. É companheira de armas de Phoebe Waller-Bridge, foi o braço direito da inglesa em “Fleabag” e “Crashing”, deu uma mãozinha em “Killing Eve” e, agora, é a vez de Phoebe retribuir o favor, tendo o nome nos créditos – como produtora executiva e atriz — da primeira criação de Jones, “Run” (HBO Portugal). Que não haja confusão, esta produção não é de Waller-Bridge, é mesmo de Vicky Jones. Cheira a “Fleabag” e a “Killing Eve”, sim. Mas isso é porque tira o mofo à tradição de fazer comédias românticas “com um twist” para televisão.

O twist de “Run” está na duplicidade do título. E também é um grande elevator pitch: dois ex-namorados deixaram no ar, depois de acabarem a relação, que se um dia mandassem uma mensagem ao outro a dizer “Run” e a resposta fosse igual, encontrar-se-iam em menos de um dia na Grand Central Station, em Nova Iorque, para atravessarem os Estados Unidos. “Run” tem um duplo sentido: o de fuga, escape da vida presente; e o que nasce ao soletrar as letras em inglês, resultando num “are you in” (algo forçado, mas que é usado na série). Porque, para deixar tudo para trás, é preciso dar tudo. Mesmo tudo.

A história arranca assim. Ruby (Merritt Wever) está à beira de um ataque de nervos, dentro do carro, num parque de estacionamento, a tentar perceber porque é que tem de estar em casa para receber as colunas que o marido encomendou. “Run” aparece no telemóvel. Entra em pânico, assume a mensagem como algo literal e tenta fugir do carro. Pára. Pensa. Responde “Run” e põe-se em viagem. Do outro lado está Billy (Domhnall Gleeson), o ex-namorado que se tornou num guru de autoajuda.

O que torna “Run” interessante é o conjunto de possibilidades que isto cria: pode ser uma comédia romântica, um thriller, uma narrativa de terror, uma revisitação da trilogia de Linklater/Hawke/Delpy ou só uma história de amor. Ou pode ser isso tudo ao mesmo tempo: foi esta última opção que Vicky Jones escolheu, desmontando e voltando a montar a ideia do “isto não é o que parece” a cada episódio. Enquanto o faz, as personagens estão em permanente construção, aliciantes e vertiginosas e com uma vontade única de fazer aquilo que é errado, isto é, de ser muita coisa numa só. Que é aquilo que não se quer numa série de sete episódios, com trinta minutos cada, em 2020. Mas Vicky Jones fê-lo. Aprendeu a contornar as regras com Phoebe em “Fleabag”. “Run” é divertida, extasiante e invulgarmente pertinente: nos últimos meses temos tido muita vontade de fugir.

“Dave”

Se “Run” é fulgurante e agarra no primeiro segundo, “Dave” caminha por outra estrada. Esta produção da FXX (canal irmão da FX), cujos dez episódios da primeira temporada estão disponíveis na HBO Portugal, começa como uma versão lavada de “Atlanta”, a maravilhosa série de Donald Glover, da FX. O nome de Jeff Schaffer (“Curb Your Enthusiasm”  ou “The League”) aparece juntamente com o do rapper e comediante Lil Dicky, que surge nos créditos como Dave Burd. Jeff é a segurança – para quem desconhece o humor de Lil Dicky ou não vai imediatamente à bola com ele — de que “Dave” poderá ser mais do que um sucedâneo sem muita graça. E é.

Eis o que se passa: é preciso ter paciência. Nos primeiros episódios de “Dave” há muita autocomiseração e ego (o ego não irá deixar de existir nos episódios seguintes), tempo gasto para Dave/Lil Dicky construir a sua personagem de rapper sensação no YouTube, com muitas canções sobre o seu pénis, e que quer triunfar junto dos grandes. Há uma sensação de permanente aborrecimento, de logro e história mastigada. Tudo tem um propósito. A espiral em que Lil Dicky coloca o espectador – e a sua própria personagem – é o motor para a obra de génio que se seguirá.

Isso acontece a partir do episódio cinco. Os restantes seis deveriam estar todos no hall of fame das séries de 2020. Brilhantes, viagens intensas, desesperadas e, por vezes, luminosas a personagens que Shaffer e Lil Dicky meteram numa encruzilhada nos primeiros episódios. E é verdade que mesmo aí, pela característica de tudo se parecer como pequenos filmes, incursões em géneros e cenas, “Dave” tem várias semelhanças com “Atlanta”. Mas bolas, aí já é tão bom que nem se pensa mais nisso.

“Devs”

Noutro registo, também na HBO Portugal e uma produção da FX para a Hulu, “Devs” é uma mini-série de oito episódios de ficção científica criada por Alex Garland, aquele que escreveu “A Praia”, que teve mão em argumentos como “28 Dias Depois”, “Missão Solar”, na reinvenção de Judge Dredd em “Dredd”, escreveu e realizou “Ex-Machina” e “Annihilation” (um dos melhores filmes de ficção científica da década passada, que os grandes estúdios tiveram medo em pegar) e ainda teve tempo para se aventurar no universo dos videojogos, com mãos na história do respeitadíssimo “Enslaved”. “Devs” é o seu primeiro trabalho para televisão, uma exploração de temas que lhe são conhecidos noutras produções, como a exploração de realidades alternativas, do livre arbítrio e o determinismo.

A opção de fechar a sua ideia em oito episódios é corajosa. Garland poderia ter escolhido a via “Westworld”, espremer sumo para várias temporadas e entrar num vórtice de perguntas parvas sem resposta. Poderia meter-se no cubículo de “Perdidos” e ensaiar o próximo grande acontecimento de muitas temporadas. Mas resolveu ficar quieto, trabalhar e desenvolver uma questão que não terá respostas nem soluções na ficção.

É crime entrar em detalhes sobre “Devs”, não pelo risco de spoilers, mas porque numa viagem sobre questões filosóficas que andam a cheirar o ar nas últimas décadas – como a tecnologia pode simular a realidade, sendo ela própria uma realidade -, é melhor o espectador partir sozinho para esta aventura sem respostas. Leu bem: sem respostas.

Alex Garland já tinha ensaiado este plano em “Ex-Machina”, contudo em “Devs” leva-o ao limite. Por não existir um vínculo a temporadas futuras, Garland não constrói a narrativa à volta de perguntas que não irão encontrar respostas. É uma série sem respostas, porque não há perguntas. “Devs” cheira a ficção científica embrulhada num thriller com a frescura de um “Blade Runner” em 1982.

Atitude fantástica quando se brinca com conceitos de “verdade”, “realidades alternativas” e “simulações”. É preciso ter tomates para testar uma história com esses temas que ousa não construir questões diretas e as que se constroem na cabeça do espectador não têm resposta. Ou melhor, até têm. Mas são dadas num episódio longe do final, no quinto, e meio da temporada, quando Alex Garland mete as suas personagens em diferentes cenários, construções, realidades, verdades e diz ao espectador – sem o explicar, algo que muitos criadores cairiam na tentação de o fazer – que não há solução. A solução está ali, nas imensas possibilidades, na aceitação de que a ficção é uma possibilidade e de que aquelas ficções dentro da ficção são só isso, possibilidades.

Num momento em que muita gente viveu confinada em casa, a paz com que “Devs” colabora com o espectador a pensar foi tranquilizadora. Oito episódios de fuga para uma realidade, obsessões e sonhos de outros sobre o desejo e vontade de mudar as coisas, o passado, o presente e o futuro. Há algo de reconfortante em como Alex Garland expressa na série de que esse não é um caminho que traga felicidade, de que a busca pelo controlo, pela eternidade, também podem ser fobias. Ah, e a banda-sonora, nas mãos dos habituais colaboradores de Garland, Ben Salisbury e Geoff Barrow (Portishead e Beak), é, também ela, um vórtice.