Francisco Rodrigues dos Santos está no Porto desde esta quinta-feira e há um mês que não cortava o cabelo. Por indicação de um conhecido, escolheu a barbearia de Daniel Reis, em Vila Nova de Gaia, de portas abertas desde 2013. À primeira vista, o espaço parece ser a antítese da imagem do líder do CDS, com  uma caveira grafitada na parede, capas da revista “Playboy” emolduradas e uma camisola do Futebol Clube do Porto exposta fazem parte da decoração.

O barbeiro reabriu o negócio no dia 4 de maio e são visíveis as mudanças impostas pelos novos tempos de pandemia. As três cadeiras estão cobertas com película aderente, as luvas descartáveis passaram a estar sempre à mão e ninguém pode entrar sem máscara. Regras cumpridas por Francisco Rodrigues dos Santos quando chegou à pequena barbearia acompanhado pela sua comitiva e pela deputada Cecília Meireles que o esperava numa esplanada.

“Como está o movimento por aqui?”; Já recebeu o dinheiro do layoff ?”; “E o reembolso do IRS?”. Foram algumas perguntas que o líder do CDS tinha debaixo da língua para dirigir ao barbeiro “nascido e criado em Vila Nova de Gaia”, que viu a sua faturação cair 80% nas últimas semanas.

“Queremos afirmar o CDS como o partido do contribuinte”, justifica o líder, que deseja também que o Governo “seja tão bom pagador como cobrador”. “O CDS entende que é preferível ao Governo injetar liquidez nas empresas e na economia, fazendo um choque de tesouraria, para que no futuro possa evitar gastar muito mais dinheiro em contribuições sociais, como subsídio de desemprego.”

O partido defende medidas como a redução de impostos ou o alargamento do layoff simplificado até ao final do ano, uma vez que o Estado “previu gastar mil milhões de euros por mês e está a apenas gastar 300 milhões, portanto, justifica-se que haja folga para fazer este alargamento”, mas também a eliminação dos pagamentos por conta de rendimentos de anos anteriores, “que não encontra paralelismo com o ano em que se abateu esta crise pandémica”; a duplicação de linhas de crédito com uma percentagem garantida pelo Estado a fundo perdido garantido e um mecanismo de acerto de contas, fazendo com que as dívidas do Estado, em matéria de IRS, layoff ou linhas de crédito a empresas, sejam descontadas no pagamento de impostos.

Numa altura em que se aproximam as férias escolares, Francisco Rodrigues dos Santos entende que “os jovens estudantes não devem ser prejudicados por trabalhar durante as férias”, argumentando que os rendimentos desse trabalho “não devem ser aglomerados nos rendimentos do agregado familiar, para que o dinheiro seja do estudante e não do Estado”.

Quanto ao fundo de recuperação proposto pela Comissão Europeia, Rodrigues dos Santos diz que pode ser um bom sinal para o país, mas exige que o Governo aproveite esses fundos para injetar dinheiro diretamente na economia. “Queremos perceber onde é que o Governo vai investir dinheiro para relançar a economia e para iniciar um programa de emergência social. Temos luzes sobre a tranche que chegará de Bruxelas, mas precisamos de saber onde o Governo vai investir.” Para o presidente do partido, “está na altura do Governo ter a noção real da dimensão desta crise”, porque “em matéria de saúde somo todos portugueses, mas em estratégias económicas não somos todos socialistas”.

Líder do CDS não descarta coligações com o Chega nem apoiar Marcelo nas Presidenciais

Nos últimos dias, Rodrigues dos Santos afirmou, numa entrevista à TSF, existir marxismo cultural em Portugal, convenceu os concorrentes do ‘Big Brother’ a votar no CDS através das redes sociais e admitiu uma possível coligação com o Chega. Ao Jornal Económico, André Ventura reagiu dizendo que “todas as sondagens demonstram que a força eleitoral maioritária à direita está, neste momento, no Chega e não no CDS” e encarou as palavras de Rodrigues dos Santos como “um momento de humor”.

“Essas afirmações são baseadas em quê? Em resultados eleitorais?”, respondeu, ironicamente, “Chicão” a Ventura. “Achamos que à direita os partidos devem ter as mesmas plataformas de entendimento que os partidos à esquerda têm com o PS. Salvo erro, acho que o CDS tem cinco deputados e o Chega tem um, ou não?”.

Política despachada, é hora de cortar o cabelo. Rodrigues dos Santos despe o blazer, coloca a máscara e senta-se na cadeira, pronto para o seu habitual corte mensal. “Faça-me um corte clássico, à CDS”, pede, provando que longe vão os tempos do Colégio Militar em que a única opção era rapar.

Na página do Facebook daquela barbearia, são muitas as fotografias com desenhos nos cortes de cabelo e a publicidade de serviços como sobrancelhas ou manicure, ofertas que o presidente do CDS vai dispensar. Daniel Reis já está de pente e tesoura na mão a borrifar o cabelo de Francisco Rodrigues dos Santos com água para facilitar o corte e a conversa entre dois perfeitos desconhecidos surge naturalmente.

– “É natural aqui de Gaia?”
– “Sim, sou de Coimbrões”
– “A minha família é de Oliveira do Hospital, eu sou de Coimbra. Os nomes até são parecidos”

O barbeiro, com um homem aranha tatuado na perna, aprendeu o oficio com a mãe, cabeleireira. Preferiu “não aturar mulheres” e tirar o curso de barbeiro. Garante que abriu o seu espaço homónimo quando o segmento “ainda não era uma moda”.

– “Quando é que faz anos?”
– “A 29 de dezembro”
– “Ah, eu faço a 29 de setembro”

Uma quase coincidência, outro motivo para sorrir, numa altura em que Francisco Rodrigues dos Santos coloca a orelha para baixo com a mão para facilitar o trabalho de Daniel Reis. Diz-lhe que também já trabalhou a recibos verdes, que a sua geração está a viver a segunda crise e que o partido que lidera está pronto “para ajudar na luta” de profissionais como Daniel.

– “É casado? Tem filhos?”
– “Sim, tenho um filho”
– “E o que faz a sua mulher?”
– “Trabalha numa sala de estudos”

Com o avançar do corte e da conversa de circunstância, e já com clientes a entrar que tinham feito reserva, o barbeiro confessa que votou apenas meia dúzia de vezes, pois desacreditou-se da política. “É normal”, responde o líder do CDS, mestre em criar empatia, que saiu dali com um novo corte de cabelo, mas provavelmente, sem mais um voto no bolso.