A última obra premiada de Hélia Correia, “Um Bailarino na Batalha”, é o ponto de partida para a peça “Antes do Mar”, que a companhia O Bando vai estrear em Palmela, em 25 de junho.

A peça fala de um êxodo, do sair de um lugar e ir para outro, ou seja, de migrantes e refugiados, disse à agência Lusa o encenador da obra, Miguel Jesus. “A peça fala sobre a situação atual dos migrantes, mas este tema também parece ser uma situação congénita” à própria humanidade, frisou.

Esta circulação de pessoas, que faz parte da natureza humana, muitas vezes pelas piores razões, leva-nos a pensar que não conseguimos criar mecanismos para ultrapassar isto”, acrescentou Miguel Jesus.

“Antes do mar” acaba assim por ser também “uma provocação e uma reinvenção da nossa forma de lidar com os paradigmas religiosos, sociais, da tribo, entre outros”, acrescentou.

Quase todo o processo criativo da peça, que começou a ser ensaiada no primeiro dia do estado de emergência, 19 de março, foi realizado ‘online’, disse Miguel Jesus à Lusa. “Tivemos sorte de o início dos ensaios coincidir com o início do estado de emergência, e assim fomos conseguindo pensar em soluções que fomos aproveitando para esclarecer melhor aquilo que temos feito”.

Questionado sobre como vão levar o espetáculo à cena, Miguel Jesus, que também é responsável pela dramaturgia, disse que vai tratar-se de um espetáculo o ar livre e que, em princípio, os espetadores vão começar a vê-lo a uma distância de 100 metros. Esta distância acaba por fazer com que o espetador veja muito ao longe o que está a passar-se, fazendo com que também possa pensar que não é uma situação que se passa connosco.

O que acaba por não ser verdade, porque num mundo global tudo diz respeito a todos”, sublinhou.

A peça não estará em cena na sede de O Bando, em Palmela, mas num terreno vizinho, para que não exista espaço de proximidade entre os espetadores, disse Miguel Jesus. A aquisição de bilhetes para o espetáculo também vai processar-se apenas pela internet, acrescentou o encenador.

Para uma companhia de teatro que privilegia a proximidade com o seu público, a partilha do processo de montagem acaba por se tornar num “lugar estranho” para o trabalho habitual da companhia, disse.

Os lugares dos espetadores vão estar montados como se se tratasse de “um parque de estacionamento com cadeiras”, observou.

Só nesta fase final de ensaios os atores se encontram perto, mas no exterior, e a dois metros uns dos outros, uma distância que, segundo Miguel Jesus, pode ser usada “a favor de uma representação que é mais simbólica, que entra mais num registo cinematográfico”, mas em que o som está muito perto e tem uma presença forte.

Esta distância, em termos narrativos do drama, acaba também por levantar a questão se “nós, Europa, somos uma fronteira”, disse. “Se calhar, nós, Europa, somos mesmo um portão fechado”, sustentou.

A peça conta com nove atores, dois figurantes e passagens ‘técnicas’ que não são meramente ‘técnicas’, acrescentou o encenador que também faz parte da direção da cooperativa de O Bando.

Com corporalidade de Juliana Pinho e música de Jorge Salgueiro, “Antes do Mar” tem interpretações de Dora Sales, João Neca, Laurinda Chiungue, Maria do Ó, Nicolas Brites, Nylon Princeso, Paula Só, Raul Atalaia e Rita Brito, e conta com a participação especial de André Mexia e Fabian Bravo.

A visualidade é de Rui Francisco e Clara Bento, o desenho de som, de Miguel Lima, e, o desenho de luz, de Nicolas Manfredini.

“Um Bailarino na Batalha”, de Hélia Correia, venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), em 2018.