É um mal-entendido que a vida trata de desfazer: ao contrário do que Hollywood nos ensina, as histórias de amor não acabam com o primeiro beijo. Esse é apenas o início. O mais difícil vem depois.

A ideia deste pequeno prelúdio – cheio de sabedoria, já agora – é introduzir o novo especial da humorista australiana Hannah Gadsby, que acaba de se estrear na Netflix. Não que o género seja romance; é comédia. Embora até esse termo seja polémico – já veremos porquê. “Douglas” é, nas palavras da própria, o seu “difícil segundo álbum”.

Depois da valente sova que foi “Nanette”, dentro da categoria “de onde é que isto veio?”, a questão que surgiu de imediato foi “para onde é que isto vai?” Pelo impacto emocional e também porque a própria anunciava, perante as mais de duas mil pessoas presentes no Concert Hall da Ópera de Sidney (e o resto do mundo em geral), que, naquele momento, não via outra saída que não deixar a comédia. As notícias da sua morte artística foram largamente exageradas. No caso, pela própria, num combinado de génio e retórica, estrondoso K.O. final.

Gadsby tem 42 anos e uma carreira no humor desde os 26, mas para a maior parte de nós é como se tivesse nascido há dois anos. Em 2018, sem conhecermos a autora de lado nenhum, “Nanette” tornou-se a grande sensação do ano. Em quê? Polémico. Numa época em que catalogar é uma das principais formas de poder, os críticos disseram que ela não podia reivindicar a categoria de comédia – porque a dada altura do espectáculo passava a falar a sério. Sobre quê? Polémico. Autobiografia seria uma resposta honesta, mas houve quem se sentisse ofendido, o que obriga a uma lista *correta* de temas: direitos LGBT, abuso sexual e arte. Porquê? Polémico. Num mundo em que a diferença traz dor, Gadsby apelou à união (“temos muito mais em comum do que achamos”) e acabou ameaçada por quem só viu no monólogo mais uma investida da guerra de culturas.

[o trailer de “Douglas”:]

“Nanette” é um portento. De facto, não é apenas por causa do humor. Nem por ser duramente autobiográfico. Nem mesmo pelas boas intenções. “Nanette” é extraordinário por tudo isso, mas, sobretudo, pela forma como vira tudo o resto do avesso. Põe em causa as convenções do humor, revela-nos enquanto público cruel, aponta para o patriarcado – sustentado muitas vezes por mulheres. Pelo caminho, destaca factos incómodos, facetas que se calhar preferíamos não ver – e de que ela é um espelho fiel. Até podemos tentar fugir, mas não vamos conseguir escapar. Nem que seja porque no final, e sem querer spoilar, Gadsby se põe nas nossas mãos. Do #metoo para o #youtoo. Já agora, a minha vulnerabilidade é a minha maior força, o meu poder.

E agora, Hannah?

“Douglas” arranca com um índice. Uma nota de intenções. Na verdade, não arranca. Se “Nanette” já jogava no campo do “meta”, aqui tudo é discurso sobre discurso. “Camadas”, chama-lhes. E a primeira é “Nanette”. “Se foi isso que vos trouxe cá, que raio esperam disto? Porque se é trauma, já esgotei tudo o que tinha”, começa. Para acrescentar que se soubesse que o ingrediente “trauma” seria tão popular em contexto de comédia teria racionado melhor as coisas. Quanto à parte do público que ali está sem ter visto “Nanette”, faz ainda menos ideia do que os leva ali. Sendo que “ali” é o The Theatre, em Los Angeles, EUA. Já agora, e dando um último passo atrás, àquela que é mesmo uma das primeiras falas, “não estava nos planos fazer sucesso nos Estados Unidos.” Nem, provavelmente, fazer uma digressão de 369 dias, com 147 espectáculos em 40 cidades de 12 países, e acabar “ali”: 1 de Março de 2020, 1600 lugares sentados, magnífica sala em gótico estilo Hollywood, quase cem anos de história, dos estúdios United Artists a igreja de um televangelista, hoje parte de um hotel.

É uma pergunta legítima: será possível ver “Douglas” sem ter visto “Nanette”? Sim, e tem vantagens e desvantagens. Se, conhecendo o segundo, o entendimento do primeiro é muito mais completo; quando partimos à descoberta do primeiro, sem a expectativa criada pelo segundo, a desilusão será muito menor. Se teríamos interesse em ver “Douglas” sem que “Nanette” tivesse existido é outra questão – e a resposta seria, com alguma probabilidade, “não”. Gadsby sabe disso. Segundos álbuns à altura do primeiro são difíceis; melhores, serão raros. O prognóstico agrava-se quando a obra em questão suscitou meses de debate, muita admiração, mas também quantidades difíceis de imaginar de ódio destilado à velocidade da fibra. Haverá alguma coisa mais para dizer? Para onde se vai quando se elevou a fasquia assim? Gadsby acusa a pressão e começa por um ajuste de expectativas.

Hannah Gadsby: stand up ou cilada? O espectáculo que está a mudar o humor

Dúvidas houvesse, o novo stand-up da australiana é pura comédia. Apenas comédia. Tudo aquilo que Gadsby promete, cumpre. Ao seu estilo. E aqui são quinze minutos de introdução, só a preparar o público para o que aí vem, ponto por ponto. É notável o domínio formal do texto. Há quase um lado de exibicionismo: vou dizer isto e vocês vão rir-se, e como acabei de dizer que vão rir-se, quando isso acontecer vão lembrar-se deste momento e vão rir-se ainda mais. Vai para a frente, vai para trás. Sai por uns instantes, volta a entrar. “A confiança faz-nos estúpidos”, explica, em relação aos americanos e depois de avisar que não tem muito jeito para humor de observação. “Estou muito confiante nisso.” Gadsby está a jogar em casa, a entrelaçar os variadíssimos fios narrativos que ao longo de uma hora irão ser retomados à vez e ganhar cada vez mais força até ao punch final – que por sua vez foi descrito com minúcia logo no início.

[uma TED Talk com Hannah Gadsby:]

A hesitação prende-se com o conteúdo. E talvez com a única promessa que Gadsby faz que não consegue cumprir, embora tenhamos de dar o braço a torcer: é totalmente subjetivo. Ela anuncia que no fim do espectáculo vamos gostar mais dela do que no início. E, muito por termos visto “Nanette”, isso não acontece – antes pelo contrário.

Ela controla

Dissecados, parte dos temas dos dois especiais não são muito diferentes. Gadsby fala das questões do género e do corpo, de assédio e patriarcado, recorre à história da arte – que estudou na universidade e que aqui, tal como em “Nanette”, resulta em alguns dos melhores momentos. Até as pequenas embirrações se repetem, das Tartarugas Ninja à cantora Taylor Swift. Fala-se de Harry Potter, Donald Trump, Louis C.K.. A grande novidade está no diagnóstico de autismo, que, apesar da gravidade absoluta e do significado pessoal – permitiu-lhe finalmente entender-se melhor – em termos narrativos resulta frouxo. Todo o exercício é muito mais intelectual que confessional, mais técnico que emocional.

Mas, depois, é impossível não apontar as contradições. À crítica ao humor auto-depreciativo com que nos surpreendeu em “Nanette”, Gadsby sobrepõe humor auto-depreciativo. À mulher que, depois de quebrada, reencontrou a sua força na empatia, substitui-se a humorista que reivindica o direito a estar sempre zangada. Do apelo ao entendimento profundo do outro, Gadsby passa ao discurso a espaços superficial sustentado por uma mímica cabotina. “Douglas” é também uma resposta a quem criticou “Nanette”. E Gadsby não se preocupa em conter a raiva, muito menos em transformá-la noutra coisa que não seja, tal como criticara antes, mais tensão. Nem sequer a adoça especialmente com o humor. “Não estou aqui para receber a vossa pena”, diz “Estou aqui para perturbar a vossa confiança.”

A arte não tem de ser coerente e Gadsby vem aos poucos definindo um espaço que é só seu. Ela não pensa fora da caixa, mas pode comer a caixa. Quanto a “Douglas”, é o nome de um dos seus cães. É também, nas suas palavras, um “espaço potencial” no aparelho reprodutor feminino, entre o ânus e o útero, batizado em honra do escocês que o descobriu no século XVIII, James Douglas. “Ele encontrou um ‘nada’ e reclamou-o para si”, indigna-se. Talvez pudéssemos pensar nisto.