O grupo armado que desde quinta-feira ataca a vila de Macomia, em Cabo Delgado, saqueou vários estabelecimentos comerciais até a manhã desde sábado, indiciando a sua retirada, disseram à Lusa várias testemunhas.

“Eles despojaram vários estabelecimentos comerciais e tudo indica que eles querem carregar aquilo para as suas bases. Parece-nos que estão a preparar-se para uma retirada”, disse uma fonte local, com base no testemunho deste sábado de residentes escondidos no mato.

Parte considerável das populações da vila, principal ponto de encontro a meio da estrada asfaltada que liga o norte ao sul da província, estão no mato, mas há quem arrisque um regresso ao centro da vila para procurar mantimentos.

Segundo a fonte, as Forças de Defesa e Segurança foram avistadas no terreno, mas a situação esta a “complicar porque os insurgentes estão a usar as pessoas como escudos”.

Em contacto este sábado com a Lusa, Luiz Lisboa, bispo de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, disse ter acolhido, desde sexta-feira, algumas pessoas que fugiram das confrontações na vila de Macomia em direção à capital provincial, uma distância de cerca de 179 quilómetros.

“Eles conseguiram sair da vila pela mata e chegaram a estrada principal. De lá apanhar boleia e conseguiram chegar até aqui. Tivemos um jovem que chegou aqui na noite de sexta-feira com a sobrinha e perdeu o restante da família. Recebemos também uma senhora funcionaria pública que trabalha em Macomia. Ela estava com os pés todos feridos por andar pelo mato”, disse Luiz Lisboa.

A funcionária foi levada para casa da sua família em Pemba e o jovem foi abrigado na igreja, afirmou o bispo de Pemba, acrescentando que há dificuldades em manter contactos com membros da igreja em Macomia.

A vila de Macomia é o principal ponto de encontro a meio da estrada asfaltada que liga o norte ao sul da província, tem uma agência bancária, vários serviços, estabelecimentos comerciais e é sede de um distrito com cerca de 100 mil habitantes.

Uma fonte do Ministério da Defesa Nacional moçambicano disse à Lusa que a situação em Macomia estava a ser analisada pelo comando conjunto das FDS, que é dirigido pelo Ministério do Interior, mas até agora ainda não foi prestada nenhuma informação pelas autoridades.

Macomia foi há um ano a zona urbana mais atingida pelo ciclone Kenneth, um dos mais graves de sempre a atingir Moçambique, em abril de 2019, matando 45 pessoas no Norte do país.

Cabo Delgado, província onde avança o maior investimento privado de África para exploração de gás natural, está sob ataques de grupos armados rebeldes desde outubro de 2017, classificados desde o início do ano pelas autoridades moçambicanas e internacionais como uma ameaça terrorista.

Desde há um ano o grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico passou a reivindicar alguns dos ataques.

Em dois anos e meio de conflito estima-se que já tenham morrido, no mínimo, 550 pessoas e que cerca de 200 mil já tenham sido afetadas, sendo obrigadas a refugiar-se em lugares mais seguros, perdendo casa, hortas e outros bens.

O Governo moçambicano tem relatado algumas respostas pelas FDS contra os grupos armados, reiterando que está a reprimir a violência, mas a invasão e ocupação de povoações têm-se intensificado desde o início do ano.