Cuidado. Assim se resumem os apelos deixados aos portugueses, em especial aos adeptos de futebol, por Graça Freitas e Jamila Madeira no briefing de balanço da pandemia desta segunda-feira. Numa altura em que Portugal avança para uma nova fase de desconfinamento, a diretora-geral de Saúde falou diretamente aos apoiantes dos clubes de futebol: “Assistam, comemorem, mas com regras.”

“A lotação dos estádios não tem só a ver com o número de pessoas”, lembrou Graça Freitas, frisando que está também relacionada com “a comemoração dos golos”. E lembrou que o parecer da Direção Geral de Saúde refere que não deve haver ajuntamentos junto dos estádios.

Embora os clubes possam retomar os jogos de futebol, os adeptos ainda estão proibidos de assistir. Esta quarta-feira é retomada a I Liga com os jogos do Portimonense — Gil Vicente e do Famalicão — FC Porto. A propósito do regresso, os Super Dragões, claque da equipa portista, anunciaram a intenção de apoiar a equipa no exterior do estádio da Famalicão. “O vírus está a circular, não desapareceu”, lembrou Graça Freitas, quando questionada sobre este assunto.

“É um apelo à responsabilidade individual”, frisou Graça Freitas, reforçando as palavras de Jamila Madeira, secretária de Estado adjunta da Saúde, na abertura do briefing. “Se dermos oportunidade ao vírus, ele vai continuar a passar de uma pessoa para a outra.” A diretora-geral de Saúde disse ainda que “foi uma luta e uma conquista recomeçar o campeonato nacional”, que foi feito “um esforço enorme para que possam existir jogos”, considerando que todos devem “garantir que a temporada acaba em segurança”.

Lembrando que a maioria dos portugueses passou pelo menos 45 dias em confinamento, Graça Freitas insistiu na contenção e responsabilidade: “Não vamos deitar a perder aquilo que conquistamos com tanto esforço”, sublinhando que o futebol é importante para o tecido social, para a economia e para o lazer dos portugueses.

Sobre um eventual regresso dos adeptos aos estádios ainda esta temporada, diz apenas que será preciso continuar a avaliar a epidemia. “O vírus não desapareceu da circulação. O risco continuará a ser o risco e adaptam-se as medidas.”

Missão coletiva: vencer o vírus

O tom que marcou o início da conferência de imprensa foi lançado pela secretária de Estado adjunta da Saúde. “É imperativo desconfinar com segurança”, disse Jamila Madeira. “Só conseguimos conter o vírus se coletivamente assumirmos atitudes cívicas”, sublinhou a governante, lembrando que “a batalha não está ganha”, e que é preciso “o empenho de todos os portugueses”.

“Para esta doença não há invencíveis, não há intocáveis, não há super heróis”, acrescentou. “Quando sair para trabalhar, quando escolher a sua esplanada, quando escolher a sua praia, quando estiver na fila de compras, cumpra as regras de higiene, distanciamento social e proteção. Só assim conseguiremos ultrapassar este problema”, insistiu Jamila Madeira.

Vencer o vírus é “uma missão coletiva” que só pode ser ganha com “solidariedade entre todas as idades e gerações”, finalizou a secretária de Estado.

Cinco crianças internadas no Hospital Dona Estefânia

“Estiveram internadas 14 crianças, agora estão cinco, e apenas uma delas está em cuidados intensivos”, disse Graça Freitas quando questionada sobre a situação dos menores que se encontram no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. A diretora-geral de Saúde considerou ter havido “uma evolução favorável” já que no último balanço sobre esta situação, duas das crianças estavam nos cuidados intensivos.

Os menores que tiveram alta hospitalar estão a ser seguidos em casa.

Por ser Dia da Criança, Graça Freitas lembrou os seus direitos, como o de terem “um desenvolvimento harmonioso e saudável” e fez um apelo, habitual nestas conferências de imprensa, o da vacinação. “Não há nenhum motivo para que as crianças não tenham a sua vacinação atualizada.”

Segundo a DGS, só em abril a vacinação caiu um terço no norte e 40% no resto do país.

“Queremos também dizer que as crianças têm direito a brincar, a aprender, a divertir-se, e tudo isto pode ser feito em segurança. As crianças podem ser levadas a fazer jogos ao ar livre, a ir à praia, a conviver com os mais velhos desde que mantenham a etiqueta respiratória, que aprendam a demonstrar afetos de outra forma, evitando o contacto físico”, acrescentou.

Já sobre o regresso das crianças às creches e a testagem das educadoras — este segunda-feira também o pré-escolar começou a receber os seus alunos —, Graça Freitas lembra que os testes são “uma foto tirada num determinado momento” e que “alguns negativos podem estar na fase de incubação”.

Por isso, mesmo que testem negativo, defende que as educadoras têm uma “responsabilidade acrescida” de se protegerem, cumprindo as regras para não se infetarem e não infetarem os mais novos, que têm maior dificuldade em cumprir regras de distanciamento e de etiqueta respiratória.

“Ainda temos muito para aprender” sobre o vírus

Sobre eventuais reincidências do vírus em pessoas que se julgavam curadas, mas que voltaram a testar positivo, Graça Freitas lembrou que a Covid-19 tem poucos meses, que há pessoas que têm anticorpos “e esses anticorpos são de qualidade”. No entanto, ainda não é possível dizer qual é o nível de anticorpos protetor.

Assim, defendeu que algumas das pessoas que testam positivo já depois de recuperadas não estão necessariamente doentes, nem serão fontes de contágio. “Sobre este vírus ainda temos de aprender muita coisa, como a quantidade de anticorpos que é precisa”, referiu.

A diretora-geral de Saúde voltou ainda a repetir o que já disse noutras conferências de imprensa: “Algumas pessoas têm alta, recuperam, têm um teste negativo e voltam à sua vida. Depois, mais tarde, noutros contextos, são novamente testadas e têm resultado positivo — isso não quer dizer que tenham no trato respiratório vírus capaz de causar doença ou de contagiar outras pessoas. Não significa uma recaída da doença ou que transmita a outras pessoas, são dois fenómenos diferentes.”