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Tudo recomeça com um passo antigo. Não se pode simplesmente aparecer à porta do cinema e escolher o que apetece ver na próxima sessão; é preciso reservar previamente, e com lugares marcados, como dantes, como sempre se pôde e há gente que ainda faz, mas de que a maioria se desabituou porque ganhou horror ao compromisso e prefere deixar todas as decisões para “o momento”, “a vontade”, “o que apetece”. E nós, que sempre cultivámos o distanciamento social na sala e sempre optámos pelas filas da frente para não ter gente nem ruído nem cheiro de pipocas nem luz de telemóvel entre nós e o filme, pedimos o lugar do meio da última fila da plateia – porque hoje, especialmente, precisamos de ver o filme e quem o está a ver.

O lugar já está ocupado, respondem-nos por email, minutos depois. Temos uma vaga sessão de grandeza: os dias de ouro do cinema estariam de volta? Uma sala cheia, 10 horas antes da sessão, numa segunda-feira? Seriam os junkies do cinema, como nós, os agarradinhos do grande ecrã, a ressacar há quase três meses e a não aguentar mais, a correr todos para o cinema Ideal, no Chiado, para ver o que quer que lá estivesse? Apetecia-lhes o “Carnificina Total 3”, mas o que há é o “Retrato de uma Rapariga em Chamas”? Seja! O que vier, morre! Precisamos é daquela grandeza do telão outra vez, da textura dos rostos esmagadores no grande plano, de desaparecer no interior do filme, qualquer filme…

E daí talvez não. Talvez seja apenas aquele lugar especificamente que já esteja ocupado, a pedido de alguém legitimamente preocupado em não ter ninguém atrás que lhe tussa em cima. Ou ainda mais desinteressante: outro jornalista qualquer que teve a mesma ideia – primeiro.

Oferecem-nos em alternativa o lugar do meio da última fila do balcão – e nós aceitamos, triunfantes. Toma lá, ó hipocondríaco espertalhão. Vai buscar, coleguinha apressadote. Vencemos! Temos um lugar ainda mais atrás! Vamos ver ainda melhor toda a gente! Em cima de nós é que ninguém tosse!

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