O Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, designou esta quinta-feira um novo primeiro-ministro, o chefe da indústria militar Roman Golovchenko, a dois meses das eleições presidenciais.

Lukashenko, 65 anos, que procura garantir um sexto mandato no escrutínio agendado para 9 de agosto, lidera há mais de 25 anos este país de 9,5 milhões de habitantes em estilo autoritário, e deverá garantir mais uma reeleição apesar dos protestos da oposição.

Um dia após ter dissolvido o governo e afastado o primeiro-ministro Sergei Rumas, um tecnocrata moderado, Lukashenko substituiu-o por Golovchenko, 46 anos, descrito pelo Presidente como “um homem em quem se pode confiar” e assinalado “ser muito importante que patriotas e profissionais entrem agora no executivo”.

O chefe de Estado, citado pela agência noticiosa oficial Belta, precisou que o ex-primeiro-ministro abandona a política para se dedicar aos negócios.

Não tenho grandes queixas dele [Rumas], mas o homem quer dedicar-se aos negócios. Disse-me diretamente: ‘quero dedicar-me aos negócios, quero ganhar dinheiro, muito dinheiro, e posso fazê-lo”, prosseguiu o líder bielorrusso.

Após manifestar compreensão pela opção do ex-chefe de governo, acrescentou: “Não creio que Rumas saia do país e leve esse dinheiro, vai investi-lo aqui, na economia. Mas tudo deve ser feito com honestidade e dentro da lei”.

Em 25 de maio, após apresentar a sua candidatura para as presidenciais de agosto, Lukashenko anunciou os planos para a renovação do governo, que agora concretizou.

Na ocasião, explicou que o objetivo da medida consiste em aumentar a confiança dos eleitores, que saberão qual será o seu governo quando votarem, e com a oposição a denunciar uma medida populista.

Em 10 de maio a oposição unificada bielorrussa anunciou que não participará nas eleições presidenciais, com o argumento de que é impossível promover uma campanha eleitoral normal em plena pandemia de Covid-19.

Dezenas de pessoas foram detidas nos últimos dias por terem participado em ações de protesto, e um líder da oposição, Mikola Statkevitch, foi condenado a 15 dias de prisão por envolvimento numa iniciativa antirregime.

Statkevitch, candidato às eleições presidenciais de 2010, passou de seguida cinco anos na prisão por ter organizado manifestações que denunciavam uma fraude no escrutínio. A sua candidatura foi recusada para as eleições de agosto próximo. Um outro potencial candidato, o blogger Serguei Tikhanovski, também não foi autorizado a participar.

Os resultados das últimas quatro eleições presidenciais não foram reconhecidos pelos observadores da Organização para a segurança e cooperação na Europa (OSCE), que denunciaram fraudes e pressões sobre a oposição.

Observadores citados pela agência noticiosa Associated Press (AP) consideram a designação de Golovchenko esta quinta-feira anunciada como uma forma de Lukashenko reforçar o seu controlo nas vésperas da votação.

Lukashenko está a tentar garantir o controlo total sobre uma economia em crise e impedir os protestos, e necessita de um primeiro-ministro que seja previsível e pronto para cumprir qualquer ordem”, indicou Valery Karbalevich, um analista político de Minsk.

“Precisamos de cerrar os dentes” e demonstrar mais disciplina para reparar os danos económicos infligidos pela pandemia e “preservar” o que se alcançou, disse Lukashenko ao justificar a sua decisão.

“Precisamos de nos mobilizar para enfrentar os numerosos e novos desafios num curto espaço de tempo”, acrescentou.

A Bielorrússia foi um dos poucos países que não encerrou as suas fronteiras nem impôs restrições para conter a propagação da Covid-19.

Foi ainda o único país na Europa onde foi mantido o campeonato de futebol com adeptos nas bancadas. Lukashenko definiu de “psicose” as estritas medidas de confinamento adotadas na generalidade dos países.

Apesar das advertências da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Bielorrússia promoveu em maio uma grande parada militar para assinalar o 75.º aniversário da derrota da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial.

O país regista oficialmente 45.000 infeções, incluindo 248 mortos, indicam os dados esta quinta-feira divulgados.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de Covid-19 já provocou mais de 385 mil mortos e infetou mais de 6,5 milhões de pessoas em 196 países e territórios. Mais de 2,8 milhões de doentes foram considerados curados.