Não foi uma crítica mas sim um recado que a ministra da Saúde preferiu deixar aos organizadores das manifestações contra o racismo que juntaram milhares pessoas em Lisboa e noutros pontos do país, assim como sobre os eventos culturais que levou uma multidão ao Campo Pequeno: “Sempre que não temos em atenção a necessidade de proteção é como se não estivéssemos a valorizar os profissionais de saúde e os trabalhadores de essenciais, assim como de todos os que passam dificuldades“.

Marta Temido notou que “não estamos em estado de emergência e que o direito à manifestação existe”, mas que “cabe aos organizadores dessas manifestações que as regras das autoridades de saúde são cumpridas”: “Nós estamos numa fase em que a responsabilidade individual e dos grupos é muito significativa”.

Essas regras devem ser cumpridas por todos, “independentemente dos motivos que as determinam e em que todos nos revemos”. “Isso não está minimamente em causa”, ressalvou Marta Temido. Mas acrescentou: “Deixo um apelo a que quem organize estas iniciativas tenha uma atenção muito particular à forma como decorrem”.

À luz destes ajuntamento, questionada sobre a normalidade no regresso às aulas dos alunos em fases críticas do ensino ou que pretendiam despedir-se das escolas por mudarem de ciclo, Marta Temido respondeu que “o calendário em que nos encontramos levará a que as decisões sejam tomadas sobre o início de um novo ano escolar”, recordando o exemplo de França, que associou a abertura das escolas nos ciclos em que haveria um maior prejuízo por coincidirem com fins de ciclo ou momentos de avaliações. Mas a ministra espera “normalidade” em setembro.

Atraso na curva epidémica, testes e assintomáticos explicam surtos em Lisboa

Os surtos de Covid-19 que tornaram a região de Lisboa e Vale do Tejo a mais preocupante no país foram têm três motivos: um atraso na curva epidémica na região, a estratégia de testagem intensiva e as especificidades associadas aos novos casos, já que muitos dos infetados são jovens com doença assintomática.

Em conferência de imprensa este domingo, Marta Temido, ministra da Saúde, “a região de Lisboa e Vale do Tejo tem representado de forma consistente 70% do total de casos notificados no país nas últimas duas semanas” e que 80% deles estão em cinco concelhos: Amadora (171), Lisboa (187), Odivelas (88), Loures (135) e Sintra (273).

A maior parte desses casos estarão relacionados com cadeias de transmissão associadas a áreas económicas com grande rotatividade de trabalhadores, descreve a ministra, sugerindo que, tal como havia dito na conferência de imprensa de sábado, os surtos em Lisboa e Vale do Tejo não têm uma relação com o desconfinamento.

A região foi palco de uma operação de maior testagem por SARS-CoV-2 nestes concelhos, em que se recolheram 14 mil colheitas de amostras biológicas só de rastreio, isto é, entre pessoas assintomáticas. Segundo Marta Temido, 396 das 8.907 amostras processadas até agora testaram positivo — ou seja, 4,4%. Os restantes resultados deverão ser conhecidos na segunda-feira.

Anunciadas mais medidas para fazer frente aos surtos de Lisboa

Para fazer frente aos surtos em Lisboa e Vale do Tejo, a ministra da Saúde anunciou que os centros de saúde e hospitais nestes cinco concelhos poderão fazer uma manutenção da suspensão da atividade programada não urgente. No entanto, Marta Temido diz que a suspensão “pode terminar em poucos dias”.

Para acompanhar Marta Temido na conferência de imprensa, que se centrou na situação nesta região, esteve Duarte Cordeiro, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e coordenador regional de Lisboa e Vale do Tejo no combate à Covid-19.

Duarte Cordeiro afirmou que o governo decidiu “reforçar a fiscalização e prevenção no setor da construção civil” depois de ter recebido os resultados preliminares da operação de testagem que decorreu em Lisboa e Vale do Tejo. A Autoridade para as Condições no Trabalho vai ser responsável por esta inspeção, que vai ser reforçada na próxima semana neste setor na região de Lisboa.

Duarte Cordeiro afirma que “o resultado dos casos positivos sobre o total de casos não é assim tão distinto do que é a norma na região de Lisboa”. O secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares diz que os rastreios na região de Lisboa “têm propósitos específicos” e permitem “reforçar medidas de prevenção de riscos” em setores específicos.

Além disso, a Polícia de Segurança Pública (PSP) também “vai reforçar a intervenção deste território para verificar o cumprimento de medidas de restrição nos estabelecimentos comerciais e, se necessário, serão encerrados os que não cumpram regras”, avisou.

Nas últimas semanas, a PSP da área metropolitana de Lisboa levou a cabo “8 mil ações de verificação do cumprimento do confinamento obrigatório e detetou cinco desobediências“, disse o secretário de Estado. “Fez cerca de 840 ações de sensibilização e de fiscalização de estabelecimentos comerciais, tendo encerrado 12”, acrescentou na conferência de imprensa diária sobre a atualização do boletim da Covid-19.

Mais tarde, a diretora-geral da saúde, Graça Freitas, acrescentou um apelo aos responsáveis por empresas, obras e escolas:

Deve fazer-se formação aos trabalhadores. Por vezes não têm uma perceção do risco tão boa quanto deviam, nem conhecem o plano de contingência. Compete também em empregador ter esta atitude pedagógica”, pediu Graça Freitas. “Devia haver alguma supervisão da parte da entidade patronal para ver se estão a cumprir as regras”, sugeriu.

Autoridades preparam reserva de materiais de proteção e ventiladores

Questionada sobre se a estratégia de rastreio em Lisboa e Vale do Tejo não deveria ter começado mais cedo, Marta Temido recorda que um rastreio “é uma pesquisa por infetados entre indivíduos assintomáticos”, por isso “aquilo que optado por fazer, tal como outros países, é, ao encontrar focos de doença, aplicar uma metodologia mais intensiva”: “Não poderíamos aplicá-la antes dos inquéritos epidemiológicos, não era possível saber isso antes”.

A ministra da Saúde afirma ainda que o foco das autoridades de saúde vai começar a ser encaminhado para outra área: “Temos um conjunto de casos identificados. O que temos de fazer é o acompanhamento destes casos, não apenas a dispersão de esforços, mas sim a concentração de esforços nestes casos. Esta será a nossa estratégia”.

Marta Temido aproveitou para atualizar os números relativos aos materiais de proteção individual e aos ventiladores. Segundo a ministra da saúde, as autoridades de saúde receberam até agora 56 milhões de máscaras cirúrgicas, 11 milhões de máscaras FFP2 e FFP3 e continuam a estar previstas entregas nas próximas semanas.

“Estamos a preparar uma nova reserva estratégica porque não podemos desguarnecer a nossa atenção a este aspeto”, afirmou a ministra da Saúde. Quanto aos ventiladores, “está previsto um voo amanhã de manhã com mais equipamentos”. “Dos 1.151 equipamentos que Portugal adquiriu foram entregues 717. Temos 434 ventiladores em entrega”, indicou Marta Temido.

Questionada sobre as indicações de que o Hospital dos Covões se prepara agora para sair da rede de hospitais de referências para o tratamento da Covid-19, a ministra da saúde diz nunca ter recebido informações formais sobre o tema. As alterações às redes de referenciação são processos complexos que envolve decisões técnicas. As carteiras de serviços não são alteráveis apenas pelas próprias instituições”.

Sobre as enfermarias criadas para a Covid-19 em Coimbra passarem a receber outros pacientes, Marta Temido diz que é “desejável”:

“Tomara nós podermos fazer isso em todos os hospitais do país. Em Lisboa, temos perguntas sobre porque é que tivemos de suspender a atividade de rotina. Em Coimbra, perguntam-nos porque fechamos unidades de atendimento em Covid-19. Isto tem a ver com a evolução epidemiológica local. É importante que se perceba que as várias estruturas do CHUC deram um apoio decisivo para os resultados que alcançámos”.

Ministra admite que Covid-19 revelou problemas nos cuidados continuados

Marta Temido admitiu que há fragilidades na prestação de cuidados de saúde familiar em lares:

“Temos de distinguir duas realidades quando falamos de idosos que se encontram internados: aqueles que estão internados na rede de cuidados continuados por causa de uma doença aguda e aqueles que estão em estruturas residenciais. Não tivemos até muito recentemente equipas de saúde familiar no interior destas instituições para além do que é a intervenção da saúde pública em visitas de rotina”.

“Esta foi uma fragilidade que identificámos neste processo e que pretendemos garantir que não sofre um retrocesso. Há necessidade de manter este apoio de saúde familiar para idosos em estruturas residenciais. Cada um dos idosos institucionalizados num lar terá provavelmente na origem o médico de família, mas não estava na rotina a visita desse médico. O que pretendemos é que a estrutura de saúde familiar dê esse apoio”, terminou.

Ainda assim, há boas notícias sobre este campo: das 300 instituições prestadoras de cuidados continuados a idosos, apenas 13 ainda registam casos positivos de infeção pelo novo coronavírus, indica Marta Temido. São apenas 26 os utentes positivos que continuam internados na rede dos cuidados continuados, apenas dois estão internados nos hospitais de referência. Desde 22 de abril que não há nenhum óbito.

Sobre o Lar do Comércio, que chegou a vivenciar uma situação crítica, Graça Freitas diz que as autoridades de saúde estão a acompanhar a situação, que, neste momento, “é considerada estável”: “O número de funcionários e de utentes doentes está a recuperar bem. Quatro utentes estão internados, os restantes estão isolados em dois tipos de instalações. A situação está controlada pelas autoridades de saúde e já não tem a dimensão do passado”.