Os empresários da noite lisboeta criticaram o silêncio do Governo por falta de resposta aos sucessivos pedidos para a reabertura da atividade, lembrando que também têm família.

O lamento veio dos cerca de 200 responsáveis de bares e de discotecas, maioritariamente dos lisboetas Bairro Alto, Cais do Sodré, Estrela e Campo de Ourique, que protestaram diante da Assembleia da República, em Lisboa, para exigir a reabertura das suas atividades.

Empunhando cartazes em que se podia ler “Fomos os primeiros a fechar, há melhor exemplo?”, “Igualdade para todos, a noite também é cultura” ou ainda “Mesmo sem receber o ‘lay-off’ queremos abrir o gostoso”, a manifestação, que se tornou em marcha em redor do quarteirão defronte ao parlamento, passou de silenciosa a um conjunto de bater palmas, único momento em que se quebrou o silêncio.

Os manifestantes foram interpelados pela polícia, tendo identificados alguns dos organizadores, sem que, no entanto, houvesse qualquer perturbação do protesto, tendo respeitado o distanciamento social, bem como as medidas de segurança sanitária.

“O objetivo [da concentração] é termos respostas, estas respostas não chegam. Temos ouvido de todo o lado que o assunto está em cima da mesa, mas está em cima da mesa há muito tempo. O que nós precisamos é de uma resposta. Não podemos continuar a viver assim, a viver do ar. E é assim que estamos a viver há muito tempo”, disse à agência Lusa Andreia Meireles.

Segundo a representante do Grupo de Bares e Comerciantes da Misericórdia, que já vai na segunda iniciativa – a primeira ocorreu a 21 de maio -, há três meses que estão sem trabalho, lembrando a necessidade de uma maior justiça uma vez que muitos dos estabelecimentos encerraram ainda antes de ser decretado o estado de emergência.

“Há cerca de três meses que não recebemos rigorosamente nada. Tem sido complicado, mas teria de perguntar a cada um de nós. Mas ao que sei com ajudas de familiares, amigos e acumular dívida. É o que nos está a acontecer, a acumular dívida”, frisou, lamentando o silêncio de todas as entidades oficiais.

Andreia Meireles realçou que já enviou pedidos para muitos organismos e que ninguém os recebeu, mas que ainda se esperou quem alguém tomasse a iniciativa, o que não aconteceu e nem sequer se obteve qualquer resposta.

“[Do Governo] Absolutamente nada. O que sabemos são informações paralelas, de alguém que conhece alguém e que diz que vai haver… E vão-se passando semanas e semanas e a resposta não surge. A perspetiva é zero e o futuro não é nada risonho. Estão aqui centenas de pessoas à beira da falência, empregados que não recebem, pessoas que têm filhos, famílias, contas por pagar”, frisou.

Questionada pela Lusa sobre qual o passo seguinte, Andreia Meireles disse considerar essa uma “boa pergunta”, uma vez que os mais de 500 empresários da noite na freguesia da Misericórdia estão a sentir-se desmotivados e sem saber o que fazer no dia seguinte., sobretudo «nos pequenos negócios “os mais afetados”.

“Vamos continuar [a enviar cartas, ‘e-mails’ e comunicados], embora o que sentimos é que isto está a ser uma luta inglória, não há sequer uma resposta, nem um não, do outro lado. É a completa ausência de resposta. Não podemos continuar a viver assim. Vamos fazer a nossa parte, só queríamos que nos dessem resposta”, lamentou.

“Discriminação” é a palavra utilizada por Fernando Santos, ator e diretor artístico do bar Finalmente, com 44 anos de existência, pois não entende por que razão o Governo está calado.

“Estou aqui a tentar perceber o porquê da discriminação deste meio noturno, destas salas de espetáculo que têm servido Lisboa, Portugal, os portugueses, os estrangeiros e o turismo. Porque não há uma previsão para nós. Há para os ginásios, há para uma série de outros setores e o dos bares e discotecas da noite não há uma previsão. Precisamos de trabalhar, todos precisam de trabalhar”, salientou.

Sem trabalhar desde meados de março, Fernando Santos apelou ao executivo de António Costa para que “perceba” que “há muita gente da noite” que precisa de regressar ao trabalho.

“É discriminatório. O silêncio é discriminatório. É preciso perceber que há bairros que estavam cheios de vida noturna. Temos de nos tornar visíveis, para que o governo perceba que há muita gente da noite que precisa de apoio, de um consenso. É preciso uma solução, um apoio, de algo que nos possa dar uma perspetiva. É impossível continuarmos assim sem pelo menos termos uma ideia do que pode acontecer”, concluiu.