Durante a pandemia de Covid-19 Rui Rio não teria autorizado a manifestação contra o racismo. A questão não se prende com o motivo do protesto, mas antes com a falta de cumprimento das regras de segurança durante o surto e porque qualquer ajuntamento de pessoas ser um potencial foco de novos ncontágios. As declarações do líder do PSD foram feitas segunda-feira à noite durante uma entrevista à TVI24.

Questionado sobre a atuação das autoridades, Rui Rio foi claro: “Eu acho que não atuaram bem, mas também devemos perceber, se fosse MAI [ministro da Administração Interna] mandava atuar em cima daquela manifestação? Era um problema”, disse. Quanto à pergunta direta, teria (ou não) autorizado o protesto, o líder do PSD não hesitou. “Isso não, não é coerente.”

O social-democrata já tinha questionado na rede social Twitter os critérios do Governo para “permitir ajuntamentos” de “manifestações de esquerda”. O tema voltou a ser abordado e Rio manteve a sua posição sobre a concentração de sábado. “Foi promovido por forças de esquerda, apesar de todos sermos contra o racismo. Ainda entendo na América onde aquilo aconteceu, agora aqui em Portugal, mas a que propósito? Ainda ficamos é racistas com tanta manifestação antirracista, não noto isso na sociedade portuguesa, não há racismo na sociedade portuguesa.”

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Um outro ajuntamento sobre o qual foi questionado foi sobre os dois espetáculos de Bruno Nogueira que reuniram duas mil pessoas numa sala. “Vi fotografias do Campo Pequeno e da Casa da Música e havia uma grande diferença”, sublinhou.

Dizendo nada ter contra o humorista, o líder do PSD considerou que um espetáculo assim “não faz sentido” porque “não há coerência”. No entanto, disse que talvez admitisse ir a um com as condições de distanciamento que viu na Casa da Música, no Porto.

Nem todas as medidas são más. Algumas são iguais às do PSD, diz Rio

A entrevista abriu com as impressões de Rio sobre o plano de recuperação económica do Governo, ao qual o líder do PSD considerou faltar estratégia. Pelo contrário, disse, no plano do PSD há um tronco comum.

“O plano do Governo são uma série de medidas, não digo que são boas ou más, mas não tem estratégia”, argumentou Rui Rio, sugerindo que o Executivo de António Costa pediu medidas avulsas aos diferentes ministérios, juntando-as todas num documento. “O nosso plano tem uma estratégia explícita e o do Governo não tem”, criticou.

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Apesar disso, nem todas as medidas do Governo serão más: “Algumas até são iguais às nossa, ou até tiradas das nossas, que foram apresentadas primeiro”, disse Rio, acrescentando que foi também para isso que o plano de recuperação do principal partido da oposição foi feito.

Quanto a prioridades, o líder do PSD aponta que a economia, “que são as empresas”, tem de estar em primeiro lugar no plano de recuperação do país. “Não conseguimos fazer nada na área social se não produzirmos riqueza”, argumentou, uma vez que, na sua opinião, “as empresas vão lá com exportações e não com consumo”.

O líder do PSD admitiu ainda que suspeita que “dificilmente” estará de acordo com a solução para a TAP — que ainda não é conhecida — já que prevê que passe por um empréstimo obrigacionista em que o Estado só “passa a mandar” se a empresa não pagar. “O que prevejo é que vai haver um empréstimo de cariz obrigacionista em que, se a TAP não pagar, o empréstimo transforma-se em ações e o Estado fica com 60, 70 ou 80%, aí o Estado só passa a mandar se a empresa estiver tão mal que nem aquilo paga.”

Na sua opinião, a solução deveria passar por um “aumento do capital social”, em que, se os privados não conseguissem acompanhar o investimento do Estado, este passaria a ser maioritário.

Pandemia: “Claro que houve erros, se lá estivesse eu também havia erros”

A terminar a entrevista na TVI24, Rui Rio fez uma “análise positiva” da atuação do Governo de António Costa durante a pandemia. “Claro que houve erros, se lá estivesse eu também havia erros, não sou um super-homem”, sublinhou. “O balanço do trajeto é positivo.”

Falando para o interior do partido, Rio disse saber que há muitas pessoas da base associativa do partido que não gostam de o ouvir dizer certas coisas. Apesar disso, continuou.“É muito fácil dizer que falharam nisto e naquilo. Falharam em muita coisa. Se fosse outro não tinha falhado?”, questionou o líder do PSD. “Estamos todos treinados para combater pandemias? Temos de ser sérios.”

Por último, assumiu estar preocupado com a situação em Lisboa, dizendo que não espera ver um cerco sanitário à volta da capital. “Em termos económicos, era o pior sítio para fechar no país”, concluiu