Desde que reabriu parcialmente a atividade comercial há uma semana, o que mais se vende na Pastelaria Princesa são pastéis de nata que este ano serão a companhia do confinamento dos portugueses no Dia de Portugal, na África do Sul.

“Na abertura [1 de junho], ainda consegui vender 800 pastéis de nata”, contou à Lusa o proprietário José Ferreira, mas que em condições de normais antes do confinamento [contra a covid-19], vendiam-se cerça de cinco mil bolos deste tipo em cada 10 de Junho.

O imigrante português, 70 anos, natural de Canelas, Vila Nova de Gaia, radicou-se na África do Sul em 1966 e desde 2010 abastece Joanesburgo e Pretória de pastéis de nata com uma receita tradicional “importada de Portugal, mas aperfeiçoada aqui”, sendo até já popularmente conhecidos na Cidade do Cabo e na capital moçambicana, Maputo.

“Vamos estar abertos, mas só para take-away, isto é, comida para fora e vendemos bolos e pastéis de nata aqui ao balcão”, disse José Ferreira, sublinhando que no dia 10 de junho “vende-se sempre mais, mas lá está, isto é, quando é celebrado”, refere.

Antes do início da pandemia da covid-19, em março, o fabrico de natas na pastelaria deste imigrante português, batizada de ‘Princesa’ pela filha por se situar na ‘Queen Street’, no sul de Joanesburgo, rondava os 35 mil pastéis por mês, sublinhou o empresário.

Este ano, devido às medidas excecionais de contenção do novo coronavírus decretadas pelas autoridades sul-africanas, que mantêm o país em confinamento de nível 3 desde segunda-feira última, José Ferreira também não poderá juntar o seu rancho regional para cantar, por serem quarenta pessoas.

“Vai fazer trinta anos [desde 1990] que estou [na presidência] na Federação de Folclore da África do Sul, em que nunca se perdeu um 10 de junho, nunca estivemos ausentes de um 10 de junho sequer”, sublinha o imigrante português, com a tristeza na voz de quem sente falta da celebração.

“Há aqui qualquer coisa que falta, mas o que é que a gente vai fazer, é o mundo inteiro infelizmente, não somos só nós, não temos como assinalar neste momento, não há ajuntamentos, não há celebrações em lado nenhum, não há nada, portanto o 10 de junho vai ser em casa”, afirma.

“Vai ser almoço ou um jantar para comemorar com umas iguarias portuguesas e umas bandeirinhas com os miúdos lá em casa e celebrar o dia dos antepassados, é o que vai ser o 10 de junho”, adiantou José Ferreira, desejando que o próximo seja “um bom 10 de junho e que vamos celebrar unidos”.

“A malta vai fazer isso, mas será a nossa geração a puxar pelos netos”, salientou.

O Presidente da República portuguesa havia escolhido a África do Sul como um dos palcos das celebrações oficiais do 10 de Junho, mas a decisão foi suspensa devido à pandemia da covid-19.

Já no Núcleo de Arte e Cultura (NAC), o pastel de nata da Princesa promete ajudar alguns sócios e amigos desta coletividade a assinalar a data à porta fechada.

“Oficialmente não são permitidos ajuntamentos, mas creio que estarei no Núcleo ao meio dia com os meus pastéis de nata para cantar o hino”, disse à Lusa o presidente da coletividade, Joaquim Coimbra, acrescentando: “Pelo menos hastear as bandeiras no mínimo dos mínimos”.

Joaquim Coimbra, 55 anos, também natural de Vila Nova de Gaia e radicado na África do Sul desde os dois anos, referiu que devido ao confinamento obrigatório a coletividade portuguesa está também apenas a servir refeições ‘take-away’.

“É uma tristeza não poder celebrar abertamente, mas o importante é recordar o Dia de Camões e celebrá-lo de alguma forma ainda que seja mais singela, mas vamos celebrar a data, não deixaremos de ser portugueses por causa disso”, salientou.

Em Pretória, a construção da nova churrasqueira está quase pronta na Associação da Colónia Portuguesa (ACPP), que se preparava para receber este ano o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa com o habitual jantar de gala no Dia de Portugal, mas agora prevê reunir “somente meia dúzia de amigos” devido ao confinamento e ao “receio que as pessoas têm em saírem de casa”, avançou à Lusa o seu dirigente.

“Estávamos preparados para fazer o melhor para a comunidade no Dia de Portugal e talvez vamos juntar alguns sócios que somos amigos aqui da associação e fazer alguma coisa especial, talvez um cozido à portuguesa para o almoço e mais nada infelizmente”, disse Tony Oliveira.

“Estamos tristes, porque já são 34 anos que ando aqui envolvido na associação e todos os anos tínhamos este mês de junho na comunidade que era um prazer para todos nós”, salientou.