A ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou esta quarta-feira a morte da atriz Maria José, cuja carreia, que se estendeu por mais de 80 anos, considera ser “testemunho único da história recente da representação em Portugal”.

Num comunicado divulgado pelo Ministério da Cultura, Graça Fonseca “lamenta a morte da atriz Maria José (1927-2020), cuja longo percurso no teatro, no cinema e na televisão é testemunho único da história recente da representação em Portugal”.

Maria José de Basto, com uma carreira que se estende por mais de 80 anos, dos palcos de revista, na infância, à televisão da atualidade, morreu hoje, em Lisboa, aos 92 anos, disse à Lusa fonte próxima da família.

Para a ministra da Cultura, ver a atriz, “tanto nos palcos como nos ecrãs, era ver um imenso talento, mas também uma capacidade de aprendizagem constante com os seus pares”.

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“Ver Maria José é ver o teatro português, é ver, através das personagens a que deu corpo e voz, as inquietações, as paixões e os dramas que todos reconhecemos como nossos. O teatro português perde hoje uma parte da sua história, porque Maria José a testemunhou, a viveu e, claro, também a fez. Hoje, o som de todos os aplausos da sua carreira ouve-se”, refere Graça Fonseca, que termina o comunicado enviando “sentidas condolências” aos amigos e família da atriz.

Maria José, mãe da também atriz Rita Ribeiro, era um rosto conhecido pela participação em produções televisivas como “Um Amor Feliz”, “Giras e Pirosas”, “Roseira Brava” e “Na Paz dos Anjos”, da RTP, a comédia “Chiquititas”, da SIC, ou as mais recentes telenovelas “Meu Amor” e “Doida por Ti”, da TVI.

A carreira da atriz, porém, é dominada pelo trabalho no teatro, ao longo de quase 82 anos, desde a estreia ‘oficial’, ainda criança, em 1933, na revista “Pernas ao Léu”, da companhia de Luísa Satanela, à derradeira atuação no Teatro Nacional D. Maria II, em 2015, em “74 Eunices”, uma homenagem a Eunice Muñoz.

Nascida em Lisboa, em setembro de 1927, Maria José soma um percurso ininterrupto por mais de 20 companhias de teatro, que incluem estruturas como o Teatro Estúdio de Lisboa, de Luzia Maria Martins, o Teatro Experimental de Cascais, de Carlos Avilez, o Teatro da Cornucópia, de Luis Miguel Cintra, ou A Comuna – Teatro de Pesquisa, dirigida por João Mota.

A sua carreira afirmou-se antes, porém, na década de 1940, quando frequentava o Conservatório Nacional e entrou para Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro, do Teatro Nacional D. Maria II, a que pertenceu durante nove anos, seguindo-se o Teatro do Povo, dirigido por Francisco Ribeiro (Ribeirinho), e o trabalho com encenadores como Pedro Bom e Couto Viana.

Interpretou autores como Shakespeare, Dostoievsky, Turgeniev, Tchekhov, Eugene O’Neill, Paula Vogel, Casona, fez quase todo o teatro de Gil Vicente, deu corpo a personagens de Agustina Bessa-Luís, Henrique Galvão, João Gaspar Simões, André Brun, Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Norberto Barroca, Manuel de Figueiredo.

Numa carreira que atravessou diferentes expressões, do drama e da comédia, ao teatro de revista e ao teatro infantil, dos palcos ao cinema e à televisão, Maria José somou ainda um percurso na rádio, iniciado na adolescência, a dizer poesia e a fazer teatro.

Nas mais de duas dezenas de companhias com que trabalhou somam-se ainda estruturas como as produções Vasco Morgado, a Adoque – Cooperativa de Trabalhadores de Teatro, o Centro Dramático Intermunicipal Almeida Garrett, do Teatro da Malaposta, e as antigas companhias Alves da Cunha, Nacional de Teatro, Teatral Portuguesa, de Teatro Popular de Lisboa, do Teatro Nacional Popular e do Teatro Português de Paris, com o Teatro do Povo, em que esteve no início da década de 1970.

No cinema, entrou em “Chá Forte com Limão”, de António de Macedo. Na produção televisiva, de teatro e ficção, trabalhou com Luís Filipe Costa, Norberto Ávila, Pedro Martins, Fernando Frazão, Ruy Ferrão e Fernando Curado Ribeiro, com quem foi casada.

Era mãe também do ator António Semedo (1950-2005), nascido do seu casamento com o ator, encenador e cineasta Artur Semedo.