O Instituto da Comunicação Social da África Austral (Misa-Moçambique) disse esta quarta-feira que os dois jornalistas detidos na segunda-feira em Sofala, indiciados no crime de corrupção passiva, podem estar a ser alvo de “manipulação e encenação.

“Existem fortes indícios de manipulação, encenação, mau uso do poder do Estado”, lê-se numa nota de imprensa do Misa-Moçambique distribuída hoje pela organização.

Em causa está a detenção de Arsénio Sebastião, correspondente da Deutsche Welle (DW), e de Jorge Malangaze, um ‘freelancer’, acusados pelo Gabinete de Combate à Corrupção de terem recebido subornos para não publicarem uma matéria relacionada à violação das regras do estado de emergência num estabelecimento hoteleiro em Sofala, centro de Moçambique.

Os dois repórteres teriam fotografado e filmado o estabelecimento “abarrotado e com pessoas a consumir álcool durante a noite”, violando as regras do estado de emergência, e, segundo o Gabinete de Combate à Corrupção em Sofala, chantageado o proprietário, Manuel Ramissane, deputado do partido no poder (Frelimo), que foi alegadamente orientado pelas autoridades a fingir que aceitava subornar os dois para evitar a divulgação do material.

Os jornalistas terão recebido cinco mil meticais (63 euros) e foram detidos em flagrante, indiciados de corrupção passiva, segundo as autoridades.

Para o Misa-Moçambique, tratando-se de um ato de corrupção passiva sob o qual os jornalistas são acusados, deve haver o “corruptor ativo”, sustentando que o proprietário do estabelecimento devia ter sido detido.

“Em lógica e em processos normais, não pode haver um corrupto passivo, sem o ativo. Neste sentido, os jornalistas deveriam ter sido recolhidos juntamente com o senhor Manuel Ramissone, enquanto participantes do mesmo crime de corrupção”, lê-se na nota, que acrescenta que não foram apresentadas provas claras de que os jornalistas terão pedido suborno antes do dia da detenção.

“O MISA acredita que a detenção dos jornalistas tem outras motivações que devem ser investigadas. Por isso, para o bem da verdade e da transparência do processo, a Procuradoria deve abrir um inquérito interno para averiguar a genuinidade deste caso”, acrescenta a organização, que pede “ações rápidas para o seu esclarecimento e a apresentação de elementos de provas materiais contra os jornalistas”.

Falando à comunicação social a partir do posto policial onde está detido, o correspondente da DW afirmou que foi o proprietário do estabelecimento quem tomou a iniciativa, considerando ter sido alvo de uma “emboscada”.

“Ele meteu a mão no bolso e entregou-nos o valor para que não publicássemos a informação. Aceitamos pensando que era o ‘Nelinho’ de antes e de repente, à saída, apareceram 12 agentes”, declarou o jornalista, alegando conhecer o proprietário do estabelecimento.

Moçambique vive em estado de emergência desde 01 de abril, tendo sido prorrogado por duas vezes, até 29 de junho.

Durante esse período, o país vive com várias restrições: todas as escolas estão encerradas, espaços de diversão e lazer também estão fechados, estão proibidos todo o tipo de eventos e de aglomerações, recomendando-se à população que fique em casa, se não tiver motivos de trabalho ou outros essenciais para tratar.

O país conta com 472 casos de covid-19, dois óbitos e 138 recuperados, segundo as últimas atualizações.

EYAC // PJA

Lusa/Fim