A parceria entre o maior construtor europeu de automóveis, a Volkswagen, e um dos maiores dos EUA, a Ford, parece ser um daqueles casamentos em que todos saem a ganhar, pois o facto de uma das marcas ser forte de um lado do Atlântico, e a outra do outro, abre caminho à partilha de várias plataformas ou projectos, sem beliscar excessivamente as vendas do “cônjuge”.

O namoro, que viria depois conduzir ao casamento, começou porque a Ford é muito boa a conceber pick-up, o tipo de veículo mais vendido nos EUA, ao passo que para a Volkswagen era muito difícil fazer aprovar pela administração o investimento numa segunda geração da Amarok, dado o volume de vendas. Sobretudo agora que os veículos mais poluentes são mais penalizados, pelo maior peso e pior aerodinâmica. Mas a VW também tinha cartas na manga, nomeadamente nos pequenos comerciais, como a Caddy, que poderia ceder à Ford em troca com a base para a pick-up.

Daqui resulta que a nova Ford Ranger, que os americanos estão a desenvolver, modelo que a marca também comercializa na Europa com muito sucesso, vai servir de base para a próxima Volkswagen Amarok, prevista para 2022. De caminho, a Ford tem uma excelente reputação a produzir furgões comerciais de maiores dimensões, no caso a Transit, pelo que os próximos Transporter e Crafter vão herdar a base americana.

Ford e Volkswagen estimam que entre pick-up e furgões comerciais, estes de vários tamanhos e feitios, serão transaccionados mais de 8 milhões de veículos durante o ciclo de vida útil. De recordar que a Mercedes, que também decidiu fazer uma incursão pelo universo das pick-up com a Classe X, acabou por desistir – o que prova que este tipo de modelos só é viável, no mercado europeu, se o volume de produção for muito elevado.

O produto partilhado que pode vir a revelar-se mais problemático, porque exige um investimento muito superior e mexe com uma tecnologia recente, que nem todos controlam, é o eléctrico que a Ford vai conceber com base na plataforma MEB da Volkswagen. É mais fácil conceber uma plataforma para veículos eléctricos versátil, que permita fabricar os mais diferentes tipos de veículos, de SUV a berlinas, do que partindo de bases concebidas para modelos com motores de combustão. Daí que a Volkswagen tenha desenvolvido a MEB, sobre a qual a marca alemã vai fabricar a berlina ID.3, o SUV ID.4 e o furgão ID. Buzz. A que é forçoso somar os Audi, Seat, Cupra e Skoda que recorrem à mesma base.

O que a VW fez foi ceder a plataforma MEB à Ford, para já para lhe permitir conceber um veículo eléctrico, sem ter de investir vários anos e muitos milhões de dólares para a desenvolver. E este eléctrico da Ford destina-se, em primeira instância, a comercializar na Europa.