Já o tinha dito antes e agora, num contexto em que as tensões raciais nos EUA são cada vez mais latentes e os protestos alastram-se pelo país, voltou a repeti-lo. Para Donald Trump, nenhum presidente dos Estados Unidos da América, pelo menos desde a luta contra a abolição da escravatura, fez tanto quanto ele pelo progresso e bem-estar da comunidade negra e pelo combate ao racismo. Foi isso que Trump sugeriu, em entrevista à pivô de informação da estação Fox News, a norte-americana e afro-americana Harris Faulkner: “Acho que fiz mais pela comunidade negra do que qualquer outro presidente”, apontou, excluindo – tal como tinha feito no Twitter, em 2 de junho – o presidente Abraham Lincoln da equação.

A entrevista serviu para falar do movimento Black Lives Matter e dos protestos — pacíficos e violentos — que aconteceram em vários pontos dos Estados Unidos da América, desde o homicídio de George Floyd, que morreu asfixiado e pressionado com o joelho por um polícia de Minneapolis.

Para Trump, é importante que não se generalizem as forças policiais norte-americanas pela atuação de Derek Chauvin ou de outros polícias envolvidos em mortes de afro-americanos nos últimos anos — visto que o presidente dos EUA reconheceu que este não é um problema novo. “Temos de manter a nossa polícia e as nossas forças de segurança fortes, têm de trabalhar da forma certa, têm de ser treinados devidamente”, apontou, acrescentando:

O que é triste é: são [globalmente] muito profissionais. Quando se vê um acontecimento como aquele, aqueles mais de oito minutos de terror… é uma desgraça. E as pessoas começam a dizer: todos os polícias são assim. Os polícias não são assim!”, defendeu Trump.

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Questionado especificamente sobre as motivações e desejos dos manifestantes pacíficos, retirando-se da equação os causadores de distúrbios envolvidos nos protestos, Trump respondeu o seguinte: “Havia manifestantes por muitas razões diferentes e também existia quem se manifestasse simplesmente sem saber porquê. Eu vi isso a acontecer, [perguntarem-lhes] ‘porque estás aqui’ e não eram capazes de dizer. Mas estavam ali por uma razão, talvez”.

Vincando que muitos protestaram simplesmente “por estarem a seguir a multidão”, o que outros faziam, Trump reconheceu, no entanto, que houve muitos que se manifestaram “por causa daquilo a que assistimos [morte de George Floyd]. E aquilo a que assistimos foi uma coisa terrível. Vimos isto acontecer ao longo de anos: isto foi um exemplo horrível mas já se viram outros exemplos terríveis. Eu sei disso, assisti a isso antes de ser presidente e agora novamente. Acho que é uma vergonha, uma desgraça e isto tem de parar”. Mas há um “mas” nesta lógica:

Ao mesmo tempo também toda a gente sabe que existem pessoas incríveis nas forças de segurança e que temos de as estimar e tratar bem delas”, apontou, pedindo que “uma maçã má”, um mau exemplo, não destrua “a imagem de milhões de pessoas que tratam muito bem de nós. Há pessoas que dizem: não devemos ter um departamento de polícia. De onde é que estas pessoas vêm?!”

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Relativamente à “reforma policial”, Trump prometeu que serão feitas “muitas coisas boas” e falou sobre as possíveis proibições de técnicas de estrangulamento e asfixiamento por parte das forças de segurança. Primeiro, lembrou que há exceções que as podem justificar: “Às vezes se estás sozinho e se estás a lutar com alguém que é forte, que é realmente uma má pessoa — e bom, elas existem —, o que se deve fazer, deixá-la e dizer: vamos começar de novo porque não estou autorizado a fazer isto?”

A legitimidade da aplicação destas técnicas pode depender, no entender de Trump, de vários fatores: “Se é um contra um, se estão dois [polícias] contra um já é uma história ligeiramente diferente, dependendo na dureza e força [dos envolvidos]…” Em geral, admitiu o presidente dos EUA, “acho que seria uma coisa muito boa que, falando genericamente, deixassem de existir [estas técnicas]”. Mas pode haver lugar a exceções. A viabilização destas técnicas poderá “em alguns casos” ser decidida “localmente”, mas o poder central deverá emitir “recomendações fortes”, diz Trump.

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Os protestos originaram focos de crime em zonas como Minneapolis e Seattle — “nunca deveria ter acontecido, os motins eram desnecessários na extensão que tiveram” — e a segunda área é uma das que mais preocupa Donald Trump. Criticando os governadores e responsáveis políticos locais (especialmente os democratas) por “não terem sido suficientemente duros” na resposta, Trump apontou ainda: “Em Seattle, se não resolverem a situação vamos resolvê-la nós. Não vamos deixar Seattle ser ocupada por anarquistas. Se tivermos de avançar, avançaremos. Estas pessoas não vão ocupar uma porção grande de uma grande cidade”, prometeu.

Outro tema inevitável foi o tweet publicado por Donald Trump, “quando começam os saques, começam os tiroteios”, inclusivamente sinalizado pela rede social Twitter como sendo uma mensagem que “glorificava a violência” e por isso infringia as regras da plataforma. No entanto, o Twitter optou por não o remover, considerando ser de “interesse público” que o tweet continuasse visível — ficou apenas um aviso alertando para o teor da mensagem.

Questionado sobre a origem da expressão, Trump respondeu: “Acho que foi o mayor de Philadelphia [o autor]”. Foi corrigido: “Remonta a 1967”, replicou a pivô da Fox News, lembrando que Walter Headley, antigo chefe da polícia de Miami, a utilizou quando declarou guerra aos assaltos armados e motins em bairros da cidade predominantemente negros. Headley, na altura, referiu que os polícias poderiam usar shotguns e cães e acrescentou: “Não nos importamos de sermos acusados de brutalidade policial”.

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Donald Trump foi ainda inquirido sobre David Dorn, um antigo polícia negro de St Louis, já reformado, que foi morto a tiro durante um roubo de uma loja. O roubo terá acontecido no meio dos protestos da última semana na cidade. “Falei com a mulher dele, estava devastada. Mas viu quantas pessoas foram ao funeral? Foi incrível. Mas não teve cobertura dos media. Isto era uma grande figura afro-americana. Por que razão não teve cobertura mediática?”

Nota – Artigo editado às 22h34 com correção relativa ao “tweet” publicado por Donald Trump, que ao contrário do inicialmente referido não foi eliminado da rede social Twitter