Aos 27 anos, Rayshard Brooks é o mais recente protagonista do movimento Black Lives Matter que, desde a morte de George Floyd, a 25 de maio, tem levado milhares de pessoas para as ruas, nos Estados Unidos e não só, em manifestações antirracistas. Baleado durante a intervenção de dois polícias, na noite da última sexta-feira, acabou por morrer horas depois no hospital, depois de ter sido atingido a tiro nas costas.

A morte de mais um afro-americano às mãos da polícia está a reacender a vaga de protestos e, na noite seguinte, motivou um grupo de pessoas a incendiar o restaurante junto ao qual tudo se passou. Para esse mesmo sábado, Brooks tinha outros planos — comemorar o aniversário de uma das filhas.

Uma das imagens de Rayshard Brooks partilhada nas redes sociais © Twitter.com/KristenClarkeJD

“Havia uma festa de anos para… com bolinhos, enquanto estávamos ali sentados a explicar à mãe dela porque é que o pai não tinha vindo para casa”, revelou um dos advogados da família, citado pela CNN. A criança em questão fazia oito anos e era a mais velha das três filhas de Rayshard Brooks — as mais novas têm um e dois anos –, que tinha ainda um enteado de 13 anos, segundo os mesmos advogados. Na sexta-feira, pai e filha teriam estado juntos. De acordo com os representantes legais da família, Brooks levou-a a um salão de beleza para arranjar as unhas, a comer fora e a um salão de jogos.

Querido pela família, trabalhava numa “sítio de tortilhas”, segundo a mesma fonte, que partilhou ainda que a casa se encheu após a morte de Rayshard, com “um monte de irmãos e irmãs que o amavam mais do que tudo na vida”.

“Nunca pensei ter de passar por isto. Há tantos anos que vemos isto acontecer, com jovens negros a morrer em vão por todo o país. Só não quero que as coisas continuem assim”, admitiu no sábado um dos primos da vítima, Decatur Redd, entrevistado por repórteres. “Não achei que nos fosse atingir aqui. Achei que esta cidade era melhor do que isto. É preciso responder. Alguém tem de fazer alguma coisa. Pelo menos, temos de saber se a cidade está connosco”, afirmou ainda.

O que aconteceu na noite de sexta-feira, em Atlanta?

Na noite de sexta-feira, Rayshard Brooks dormia dentro do carro, junto a um restaurante em Atlanta, no estado norte-americano da Georgia. A polícia foi chamada ao local, ao que tudo indica por pessoas do próprio estabelecimento, uma vez que o carro de Brooks estaria a obrigar outras viaturas a desviarem-se para acederem ao serviço de drive-thru do Wendy’s.

US: Anger in Atlanta over fatal shooting of black man

Protestos junto ao restaurante Wendy’s, onde Brooks foi morto, na noite de sábado © Ben Hendren/Anadolu Agency via Getty Images

À chegada dos dois agentes, os três intervenientes envolveram-se num confronto, durante o qual Brooks terá retirado um taser a um dos polícias, tentando ainda atacá-lo com esta arma de imobilização. Existem dois vídeos do confronto, um deles gravado por uma testemunha ocular, onde se vê um momento de luta entre os três no chão. Após libertar-se e fugir, ouvem-se três disparos.

No segundo vídeo, captado pelo sistema se vigilância do local e divulgado pelo Gabinete de Investigação da Georgia, vê-se Rayshard a correr — ao que tudo indica para escapar do local — e cai no chão após os disparos.

“Esses novos vídeos indicam que, durante uma luta física com os polícias, Brooks obteve um dos tasers dos agentes e começou a fugir do local. Os polícias perseguiram Brooks a pé e, durante a perseguição, Brooks virou-se e apontou o taser para o polícia. O agente disparou a sua arma, atingindo Brooks”, confirmou entretanto o mesmo gabinete de investigação.

Manifestantes incendeiam restaurante em Atlanta depois da morte de afro-americano pela polícia. Agente foi despedido

Citados pela CNN, os advogados da família da vítima falam numa reação desproporcional. “Na Georgia, um taser não é uma arma mortal”, afirmou L. Chris Stewart, em antecipação à tese da defesa dos agentes envolvidos no caso. “Se o agente tivesse um pouco mais de empatia e um pouco menos de medo, provavelmente o meu cliente não estaria morto”, indicou outro dos representantes legais.

Quem são os polícias envolvidos?

Durante a última madrugada (manhã de domingo em Portugal), a polícia de Atlanta, cuja chefe se demitiu na sequência da morte de Brooks, divulgou a identidade dos dois agentes envolvidos no caso. Garrett Rolfe, contratado em outubro de 2013, e o presumível autor dos disparos foi despedido. Devin Bronsan, parte das forças de segurança da cidade há menos de dois anos, foi alocado a tarefas administrativas, de acordo com o comunicado emitido pela polícia local.

Garrett Rolfe, à esquerda, e Devin Bronsan © Atlanta Police Department

Paul Howard, procurador do condado de Fulton, veio anunciar o início de uma investigação “intensa e independente”. Garantia reforçada pelo governador do estado da Georgia Brian Kemp, que se pronunciou sobre o caso através do Twitter.

Além da identidade dos dois agentes chamados ao local, a polícia de Atlanta divulgou ainda imagens das câmaras corporais usadas por Garrett e Devin.

[Os 40 minutos até à morte de Rayshard Brooks]