Esperava-se um João Leão menos nervoso do que aquele que falou aos jornalistas na terça-feira passada, quando tinha acabado de sair a notícia de que ia ser promovido ao cargo de ministro das Finanças. Nesta segunda-feira João Leão fez o juramento numa sala com pouca gente – já tinha sido anunciado que a cerimónia seria “restrita”, sem convidados – mas o nervosismo regressou já cá fora, quando teve de enfrentar os jornalistas.

O novo ministro deixou falar o primeiro-ministro, pegou num papelinho e leu um curta declaração, deixando meia-dúzia de ideias genéricas que já tinha avançado na terça-feira. E que passam por um mantra bem conhecido: “contas certas” como instrumento para “garantir a reposição dos rendimentos” às famílias. Servia para 2015 e serve agora em contexto de crise económica causada pela pandemia.

“Constitui para mim um motivo da maior honra ter sido nomeado hoje ministro de Estado e das Finanças e poder continuar a servir o meu país, agora com responsabilidades acrescidas”. E voltou ao mantra: todos os orçamentos aprovados por este e pelo anterior governo visaram as “contas certas” e a “restituição dos rendimentos às famílias”.

Aliás, nas várias respostas às perguntas estas duas ideias acabariam por surgir sempre, como se Leão não pudesse falar em rigor nas contas sem que tivesse de dizer, logo a seguir, que esta mesma política visa repor dinheiro no bolso dos contribuintes.

“Espero continuar agora, com a nova equipa que me acompanha, com o mesmo espírito de compromisso e de responsabilidade que sempre tivemos desde 2015”, disse João Leão, acrescentando que está convicto de que “uma vez ultrapassada esta crise da pandemia, vamos conseguir voltar a colocar Portugal no caminho do crescimento da economia, do emprego e da confiança”.

Chegam as perguntas dos jornalistas. Já não papel para o salvar de uma palavra fora do sítio. João Leão sabe que vem aí a pergunta sobre o seu antecessor, a situação económica e a provável ida de Centeno para o Banco de Portugal, que terá de ser ele a nomear.

A primeira é “Porque aceitou a batata quente” de ser ministro das Finanças em tempos de crise. Leão volta-se para o “espírito de missão”.

“É para mim um prazer e uma honra poder servir o meu país, ainda para mais num momento de grande dificuldade que todos conhecemos e de grande exigência. É um sentido de dever”, assinala.

E o legado das contas certas de Mário Centeno? É para manter ou é uma dura batalha pela frente? Por outras palavras, Leão diz que Centeno não o fez sem si e os outros secretários de Estado.

“O legado das contas certas construímos em conjunto, com Mário Centeno. Agora colocam-se novos desafios e o primeiro deles é o de conseguir estabilizar o país, no apoio às empresas, à sua liquidez e ao investimento quer em termos sociais, na proteção do rendimento das famílias”, diz o novo ministro, repetindo as mesmas duas ideias “apoio às empresas” e cunho social.

E era ou não o homem que guardava a chave do cofre? João Leão ri-se da expressão usada. “Já não sou eu o Secretário de estado do Orçamento. É sempre importante, e todos os países entendem isso, gerir o país com rigor e responsabilidade. Só assim conseguimos ter recursos para garantir a recuperação de rendimento para todos, estabilidade e num quadro de sustentabilidade e responsabilidade perante os portugueses. Não podemos dar um passo maior do que a perna, temos de gerir as contas com rigor para garantir estabilidade para todos”.

Claro que João Leão também não se livrou da pergunta sobre a sua alcunha: “o artífice das cativações” – que lhe foi posta pelo anterior ministro. João Leão pareceu desvalorizar os méritos que Centeno lhe atribuía. Primeiro diz que “essa política não foi nova, sempre existiu”. Mas de seguida volta logo ao mantra: “faz parte de uma gestão rigorosa, controlada em nome dos portugueses, para assegurar os recursos para assegurar a estabilidade e a proteção dos seus rendimentos”.

Terá sido esta posição um conselho de Mário Centeno? Aliás, Centeno deixou-lhe agora algum conselho para gerir as contas públicas. João Leão, sem guião, deixa escapar: “Ao longo de quatro anos foi dando vários conselhos, não foi preciso chegar ao último dia…”

O novo ministro também não se comprometeu com o objetivo de deixar um excedente nas contas públicas – como Centeno fez no Orçamento para este ano, agora ratificado. “Em primeiro lugar o nossa ênfase tem de ser estabilizar o país, a economia e proteger os rendimentos. Vai ser a ênfase deste ano.

Sem estabilizar e salvar as empresas e os postos de trabalho não teremos uma economia em condições de crescer a partir do final do ano e do próximo ano. So com crescimento económico podemos estabilizar as contas publicas e é isso que se espera de nós a médio prazo, num quadro de responsabilidade”.

A última pergunta foi para Mário Centeno no Banco de Portugal. João Leão chuta para canto: “este não é o momento oportuno para debater essa questão”. Mas depois não dá para aguentar e diz que Centeno “é uma boa hipóteses”. Aliás, salienta que “é uma excelente hipótese” e que não vê “qualquer inconveniente” que Centeno assuma o lugar de Carlos Costa. E saiu rapidamente.