Até ganhar o Campeonato de 2000, que revalidou o título da temporada anterior, o Bayern tinha 15 vitórias. Era o clube com mais triunfos na principal prova germânica mas ainda assim com uma diferença não muito acentuada em comparação com Nuremberga, Schalke 04, Hamburgo ou B. Mönchengladbach – e com o “empurrão” de uma década de 80 de ouro que deu continuidade à geração dos anos 70 que se sagrou tricampeã europeia entre 1974 e 1976. Esta terça-feira, os bávaros celebraram o 30.º Campeonato. Mais do triplo do que o Nuremberga, seis vezes mais do que o B. Mönchengladbach. Mais do que a conquista do título, foi o sucesso de uma ideia e projeto.

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Depois de uma época ao lado em 2010/11, com a conquista da Supertaça a não apagar os falhanços na Bundesliga (terceiro lugar) e na Champions (16 avos) que levaram à saída de Louis Van Gaal em abril por troca com Andries Jonker, o Bayern apostou em Juup Heynckes mas teve uma temporada do “quase”: final perdida da Champions, final perdida da Taça, segundo lugar no Campeonato. Pela primeira vez esta século, os bávaros estavam dois anos sem ganharem o principal título e viam o B. Dortmund de Jürgen Klopp assumir um protagonismo como o que tinha conseguido nos anos 90. Uli Höeness e seus pares mantiveram a confiança no técnico e foi aí que começaram a atual série de campeonatos, numa época de 2012/13 em que conquistaram todos os troféus.

Seguiram-se outros técnicos, com mais sucesso (Pep Guardiola, o regressado Heynckes ou Hansi Flick) ou menor empatia (Carlo Ancelotti e Niko Kovac). Ponto comum? Foram todos campeões. E porquê? Porque o Bayern teve o condão de construir aquele que é em termos europeus o melhor modelo para um clube: uma estrutura acionista maioritária com três grande empresas com participações iguais e representação nas decisões de fundo tomadas; uma sustentabilidade financeira que permite não só estar alheio a necessidades de alienação de ativos mas também investir um pouco mais quando necessário em inícios de novos ciclos; uma constante aposta em termos humanos e de infraestruturas nas equipas de formação para fazer subir os principais talentos à equipa A.

Perante este contexto, e apesar das dificuldades quando agarrou na equipa (que estava no quarto lugar, com vários jogadores sem tanta influência e apresentando um futebol sofrível), Flick voltou à casa onde fez carreira durante cinco anos como jogador e foi batendo recordes, recuperando o estatuto de uma equipa que por defeito já parecia entrar em vantagem e que se voltou a tornar num verdadeiro “rolo compressor” nos últimos meses.

Depois das goleadas frente a B. Dortmund (4-0) e Fortuna Düsseldorf (4-0) e das derrotas com Bayer Leverkusen (2-1) e B. Mönchengladbach (2-1), o Bayern chegava ao encontro com o Werder Bremen com 49 pontos somados em 51 possíveis, marcando mais de três golos por jogo em média (56 em 17 encontros, tendo sofrido apenas 11). A jogar de forma muito mais subida para encurtar metros ao adversário logo na fase de construção, a dar outra largura com os laterais Pavard e Alphonso Davies que permitem que Coman, Gnabry ou Müller – o jogador mais beneficiado com a troca técnica a par de Boateng – façam diagonais e procurem espaços entre linhas por dentro e com a dupla Kimmich-Goretzka a tomar conta do meio-campo, o título tornou-se uma inevitabilidade e chegou na antepenúltima jornada, com os bávaros a ganharem por 1-0 e a conseguirem a oitava “saladeira” seguida.

Como seria de esperar, a primeira parte voltou a ter sentido único como quase todos os encontros do Bayern desde a retoma da Bundesliga (o último triunfo com o B. Mönchengladbach foi das poucas exceções) e à chuva que caía dos céus de Bremen juntava-se a habitual chuva de futebol ofensivo. Kimmich, num lance que acabaria por ser depois invalidado por posição irregular no início da jogada, ainda teve um remate à trave antes de uma jogada com alguma polémica (mas sem protestos, ao contrário do que se passa em Portugal) em que Gebre Selassie deu uma cotovelada a Lewandowski na área sem que o árbitro ou o VAR tenham assinalado penálti.

O intervalo estava a chegar mas ainda havia tempo para o polaco, que ficara a morder o lábio depois de um lance que lhe deixou marcas, poder fazer a sua justiça com o que melhor sabe: após uma grande passe de Boateng, central que estava bem à frente do meio-campo nas tais linhas subidas do Bayern que fazem toda a diferença, Lewandowski recebeu de forma orientada e desviou de Pavlenka para o 1-0 aos 42′. Em 29 jogos apenas a contar para a Bundesliga, o avançado leva 31 golos e só não marcou em seis jornadas. Na temporada, e em 40 encontros oficiais, são já 46 golos, na época mais concretizadora de sempre. Segredo? A dieta da mulher.

“Ele tem sempre muita vontade de melhorar como jogador e para isso segue uma dieta especial. O Robert contou-me que a grande mudança na carreira dele, quando chegou ao topo no clube e na seleção, aconteceu muito por ter mudado radicalmente o que comia. Nas concentrações ele tenta transmitir esses benefícios aos outros jogadores. No dia dos jogos há muita proteína. Come atum ao pequeno-almoço e umas coisas meio doidas. Além disso, evita tudo que tenha glúten e lactose. Na véspera do jogo, depois do jantar, come um prato de arroz doce, para encher com hidrato de carbono e glicose. Na recuperação, muita verdura e abacate”, tinha explicado à ESPN Thiago Cionek, central da SPAL e companheiro de seleção, acrescentando. “Todos os exames mostram que resulta até porque ele disputa mais de 50 partidas por ano e sempre ao mais alto nível físico”.

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No segundo tempo, entre mais um golo anulado (a Lewandowski, de calcanhar, após assistência de Müller) e outras aproximações com perigo à baliza do Werder Bremen antes da notória quebra de ritmo, o Bayern confirmou a vantagem apesar da expulsão de Alphonso Davies no último quarto de hora – e com uma defesa fabulosa de Manuel Neuer no penúltimo minuto antes das compensações que segurou o triunfo – e conquistou o oitavo título consecutivo numa hegemonia iniciada por Heynckes em 2013 e que parece não ter fim para uma equipa que está também na final da Taça da Alemanha e mostra ambições para voltar a ser campeão europeu.