Herberto Helder morreu há cinco anos, em março de 2015. Aos poucos não há arca que não se abra e, se nem a de Pandora ficou fechada, porque ficaria a de um poeta que rodeou a sua obra e a sua vida de tantos mistérios e interditos? Sobretudo se esses segredos têm aquilo que hoje se chama “valor de mercado” e que este se sobrepõe sempre ao “valor poético”, seja ele grande ou pequeno. Assim, querendo marcar a passagem de mais um aniversário da morte do poeta, Olga Lima, a viúva e herdeira, e a Porto Editora dispuseram-se a revelar ao mundo um dos muitos segredos de Herberto: o livro de ficção Apresentação do Rosto, publicado em 1968, na Ulisseia e apreendido pela Pide, devido ao uso de linguagem considerada “ofensiva”.

A obra escrita em prosa poética é considerada de ficção, apesar de o seu título prometer uma espécie de auto-biografia, e nunca foi reposta no mercado porque Herberto Helder não quis voltar a publicá-lo, desinteressou-se dele como livro, recortou algumas partes que incorporou noutros livros, outras deixou que se matemorfoseassem noutras engrenagens poéticas e o que sobrou dissolveu-se no tempo. Parecia um assunto arrumado, não obstante o exemplar de trabalho de Apresentação do Rosto tenha muitas correções e cortes e remissões, feitos e refeitos por uma mão que lá voltou muitas vezes ao longo dos anos.

O rosto que prometia apresentar-se recuou para a zona escura do palco e as estátuas que assistiam na plateia mantiveram-se lá, em silêncio ao longo de mais de quarenta anos por uma simples razão: enquanto foi vivo, Herberto nunca se interessou por reeditar a obra, por falar sobre ela, ou das razões que o levaram a rejeitá-la. Sabendo nós como ele era inamovível nestas decisões, podemos procurar nesta publicação, de 2020, um gesto de traição ao poeta e ao homem que toda a vida lutou para manter a (sua) poesia à margem das leis de oferta e procura, tráficos vários, mercantilização da palavra e do ego. Porém, quando lemos esta obra é-nos impossível não agradecer a Olga Lima, à Porto Editora e a um deus qualquer, o mesmo que guiou a mão de Max Brod, quando ele guardou e publicou os livros que Kafka mandara abater.

Apresentação do Rosto, Herberto Helder, Porto Editora, PVP: 17.90 euros

Efetivamente, Heberto Helder nunca tencionou fazer desta uma obra de natureza auto-biográfica e assim o título indicia o fulcro de uma impossibilidade que será apreendida ao longo dele: a de nos podermos dar a conhecer aos outros. À semelhança de Rimbaud, Mallarmé, Eliot, Pound ou Pessoa, Herberto quis afastar da obra da noção de autor e de identidade (hoje tão em voga). Como escreve Silvina Rodrigues Lopes no ensaio Literatura, Defesa do Atrito (Língua Morta), estes poetas acreditavam que a obra de arte se situava numa região neutra, “um espaço em que a identidade de quem escreve desaparece sob o testemunho de uma experiência intestemunhável (…) enquanto experiência, que nada tem de pessoal, nem de impessoal, a literatura ignora os limites estreitos da unicidade do sujeito e dá à experiência a natureza de uma multiplicidade incontrolável, em devir”.

“De repente, eu procurara a inocência. Pensei: o saber doloroso dos anos, as mortes dia a dia, a profundeza das noites onde se acumularam todos os silêncios desembocam aqui, quase inexplicavelmente, nesta inocência que me faz tremer.

[Apresentação do Rosto]

Assim, tudo o que Herberto Helder mostra é um rosto-espelho onde cada um se pode reencontrar, rever, revolver a si mesmo a partir de um punhado de memórias reais ou inventadas, factos ou sonhos que um narrador sem nome e sem identidade vai deixando pelo caminho, para que nos percamos mais e mais na floresta de existir, porque a origem e o fim são afinal a mesma coisa.

“Apresentação do rosto” de Herberto Helder vai ter nova edição

Em cerca de 200 páginas, divididas em seis andamentos, podemos reconhecer muitos dos lugares e formas que vieram a formar aquela galáxia em forma de Poema Contínuo. As portas, o sangue, os fluxos do corpo, da natureza e das cidades, a circulação de palavras que “vindas dos confins ordenam e desordenam o mundo através de uma aptidão para o interpretar, isto é, para propor formas fiéis aos acontecimentos no seu irredutível vazio. Por ela passam, por elas se dizem labirinticamente e se intercetam, certos fluxos primordiais”, escreve de novo Silvina Rodrigues Lopes, a mais instigante investigadora da obra de Herberto Helder, no livro A Inocência do Devir (Língua Morta).

Nascido para o inferno

É certo que nesta história há um palco, um homem que segura os longos cabelos de uma cabeça decapitada, que tem as mãos cobertas de sangue, que é ao mesmo tempo criança e criminoso.

“E se é uma doce criança, ou um homem tão fraco, ou se é um velho — para que subi eu das águas e atravessei a cidade, uma cabeça sem pernas, até chegar a este estúdio e erguer-me apenas pela força do meu delírio, da minha astúcia e dor, e amarrar-me ao tecto pelos cabelos? Teatral eu, sim — mas com uma cabeça cheia de terrível amor”

[Apresentação do Rosto]

Que há uma ilha, uma casa, os corpos das mães e das irmãs, o apelo da terra com a sua obscuridade e medo, que depois há as cidades, outros corpos, outras mulheres, sempre atravessados pela memória primordial do corpo materno, o nascimento, o sangue como elemento fundamental e símbolo primordial da Terra, do que pertence à Terra. Ao contrário de Sartre, para quem o inferno eram os outros, para o poeta ele nasce no inferno e tudo o que lhe resta é percorrê-lo, sem ganhar asas como Ícaro, nem encontrar o fio de Ariadne. E é nesse inferno que ele, como o sábio Zaratrustra, subirá a montanha; para destruir as aparências dessas formas de existência que lutam, que chocam, que se criam e destroem na fecundidade do universo.

Herberto Helder: morreu o poeta que nunca se deixou capturar

O sábio nietzschiano, as vozes alucinadas do teatro de Artaud, o horror cantado por Rimbaud e Lautréamont, são ecos que deviam ouvir-se na cabeça de Herberto Helder e que ele foi calando em livros posteriores mas aqui ainda são notórios. Neste rosto que Herberto nos apresenta, há um terror e uma beleza que são afinal uma coisa só, e há a descoberta de que a vontade livre não é suficiente para um homem fazer o seu destino. Há o rosto e o rastro de um menino de 8 anos que procurava no corpo das raparigas uma explicação para a existência e há a descoberta de que não pode regressar jamais a essa casa, a esse corpo primordial. Há por fim o inferno, e que tudo o que ele pode é tentar transformar este inferno inescapável em qualquer coisa que sobreviva às contingências temporais: o terror e a beleza.

Apresentação do Rosto mostra-nos já a sua fixação por aberturas, portas, janelas, sexos, bocas, olhos, interior/exterior, a consciência da morte como fonte primeira do terror. Também já encontramos aqui a ideia que atravessa toda a obra deste poeta que é a sacralização da natureza. Mas perante a qual ele será sempre um ser sem território, água, fluidez, um ser fragmentado, dionisíaco “criança, loucura, êxtase”, como defende Silvina Rodrigues Lopes.

“O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.

Aí é que se vive. Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.

Onde é bom para morrer, não há perigo.

Está limpo, é definitivo.”

[Apresentação do Rosto]

É certo que a luta de Herberto Helder para permanecer leal àquilo que acreditava ser a Poesia e que acreditava dever ser um Homem, levaram-no a procurar um quase anonimato, a recusar qualquer mediatização da sua imagem e do seu trabalho, a recusar três prémios literários (Pen Club, em 1983, Europalia e Pessoa, em 1994) e a viver de forma bastante modesta a sua vida material. Mas de uma forma faustosa a sua vida criativa, o seu talento, o seu “inteligir” das pessoas e das coisas. Podemos perguntar-nos se todo esse esforço pode estar a ser lentamente carcomido pela voragem de publicar tudo o que ele não quis publicar em vida, exibir a sua imagem, fazendo esquecer a sua singularidade, o ser único que ele foi, a sua luta para não se deixar diluir na cultura de massas que o horrizava. Mas esta preocupação partilhada por todos os leitores de Herberto Helder, todos os que o veem como um exemplo, desfaz-se mal se começa a ler este livro ou qualquer outro: o seu espírito, feito linguagem, feito poesia, é incapturável.