A Assembleia Geral da ONU escolhe quarta-feira o seu presidente, bem como cinco membros não-permanentes do Conselho de Segurança e 18 membros do Conselho Económico, em ambiente de críticas de inoperância.

A Assembleia Geral das Nações Unidas escolhe quarta-feira cinco dos 10 membros não-permanentes do Conselho de Segurança, bem como os elementos do Conselho Económico e Social e o próximo presidente da Assembleia, que substituirá o nigeriano Tijjani Muhammad-Bande.

Num momento de turbulência, com acusações de imobilismo, ineficácia e incapacidade de resposta perante a crise sanitária global, as Nações Unidas renovam alguns dos seus órgãos perante a desconfiança de observadores e críticas de vários dos seus membros.

Há um sentimento de que as organizações que foram desenhadas no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial estão obsoletas e são incapazes de lidar com os desafios do novo século”, disse à Lusa Júlio Bastos, um investigador português que está a preparar uma tese de Mestrado sobre a estratégia de comunicação das Nações Unidas na era digital, na Universidade de Salamanca.

Para este especialista, estes momentos de renovação, com a escolha de novos membros para lugares estratégicos, acabam por nada contribuir para a renovação da organização, na medida em que respondem, na maioria das vezes, a procuras de equilíbrio de poder geográfico, sujeitas a fortes constrangimentos.

Representando quatro grupos geográficos, cinco novos membros não-permanentes entram para o Conselho de Segurança, para um mandato de dois anos, escolhidos por um corpo de 193 estados membros que apresentarão o seu voto secreto, na quarta-feira, numa eleição que foi adiada por causa da pandemia de Covid-19.

Os candidatos para cada grupo geográfico são: Índia, pelo grupo da Ásia Pacífico; Quénia e Djibuti, pelo grupo africano (onde apenas um pode ser escolhido); Canadá, Irlanda e Noruega, pelo grupo da Europa Ocidental e outros (onde apenas dois podem ser escolhidos); México, pelo grupo da América Latina e Caraíbas.

Estes países substituem a Bélgica, República Dominicana, África do Sul, Alemanha e Indonésia, passando a acompanhar o Níger, Tunísia, São Vicente e Granadinas, Vietname e Estónia. Depois da retirada da candidatura do Afeganistão, a Índia fica com a sua vitória assegurada, sendo a única candidata do seu grupo geográfico, tal como acontece com o México, no grupo da América Latina.

Para o lugar de presidente da Assembleia Geral, que fica em aberto com a saída do nigeriano Tijjani Muhammad-Bande, a Turquia apresenta a candidatura de Volkan Bozkir, um diplomata de 70 anos e com uma carreira de 39 anos.

A Turquia apresentou o seu nome na esperança de uma aprovação inicial unânime, mas vários países pediram para que houvesse uma votação, que decorrerá também na quarta-feira.

Bozikr foi ministro para os Assuntos da União Europeia, no Governo turco (2014-16) e deputado no parlamento, mas foi na carreira diplomática que passou grande parte da sua vida, tendo passado por vários cargos, incluindo o de vice-cônsul em Estugarda, na Alemanha, primeiro secretário da embaixada da Turquia em Bagdade e cônsul em Nova Iorque.

Fluente em inglês e francês, Volkan Bozkir apresenta ainda a Ordem da Estrela da Roménia e a Ordem de Mérito da República Italiana como “medalhas” para esta candidatura, que já discutiu com o atual presidente da Assembleia Geral, em entrevistas preparatórias.

Bozkir apresenta-se com um programa que dá prioridade à “consolidação de confiança e coesão entre os países membros da ONU”, prometendo apoiar a linha de estratégia do secretário-geral, António Guterres, sobretudo na componente de “dar voz aos povos mais vulneráveis”.

Em recentes entrevistas, Bozikr admitiu que a ONU tem pela frente muitos e difíceis desafios, reconhecendo a necessidade de profundas reformas, para dar mais respostas mais eficazes, alinhando com as críticas que recentemente Guterres fez ao atual momento das Nações Unidas.

António Guterres reconheceu este mês que o Conselho de Segurança está perante desafios de conflitos mundiais que tolhem a sua capacidade para responder a outros problemas e disse mesmo que a Organização Mundial de Saúde sentiu fortes problemas na gestão da pandemia de covid-19, nomeadamente pela sua falta de autoridade junto dos governos dos estados membros.

Esse reconhecimento por parte de António Guterres entende-se melhor se nos recordarmos do plano com que o político português chegou ao lugar cimeiro da organização, prometendo uma profunda reforma” explica Júlio Bastos, realçando o facto de o secretário-geral da ONU ser provavelmente a pessoa que mais se sente com a perceção de falta de eficácia das Nações Unidas.

A Assembleia Geral de quarta-feira vai escolher ainda 18 novos membros para os 54 lugares do Conselho Económico e Social, para um mandato de três anos, cumprindo a sua missão de perseguir os objetivos de desenvolvimento global e preservação do meio ambiente.