A agência oficial da Coreia do Norte, a KCNA, confirmou esta terça-feira a destruição do escritório de ligação com a Coreia do Sul, em Kaesong, como parte da sua decisão de “interromper todas as linhas de comunicação” entre os dois países. A explosão tinha já sido avançada na manhã desta terça-feira pela Yonhap, a agência de notícias sul-coreana. Segundo o ministro encarregado das relações entre as duas Coreias, o ataque aconteceu pelas 14h49 (7h49 em Lisboa) desta terça-feira. Horas antes, fontes militares tinham anunciado que fora visto fumo e ouvida uma explosão na cidade fronteiriça.

O escritório conjunto entre o Norte e o Sul foi completamente destruído hoje”, referiu o texto da KCNA. “Já interrompemos todas as linhas de comunicação entre as duas partes coreanas”, disse a agência de notícias norte-coreana

Segundo a KCNA, a decisão do regime de Pyongyang está em conformidade com as atitudes de “pessoas enfurecidas” e com a intenção de fazê-las “pagar um preço alto pelos seus crimes”, uma aparente alusão à Coreia do Sul.

O texto não cita expressamente o motivo, mas a destruição desse escritório, crucial no processo de negociações entre as duas Coreias, ocorre num momento de crescente tensão entre Seul e Pyongyang pelo envio de balões com propaganda de ativistas sul-coreanos contra o líder norte-coreano, Kim Jong Un.

O escritório, supostamente construído com dinheiro sul-coreano, funcionava há dois anos. Foi o primeiro criado para fazer uma ligação entre as duas Coreias desde a sua divisão em 1945 e era considerado um símbolo da política de pacificação do Presidente Moon Jae-in, refere a Associated Press. O espaço estava encerrado desde janeiro por causa do novo coronavírus.

Segundo a Yonhap, a Coreia do Norte tem feito várias ameaças contra a Coreia do Sul nos últimos dias, incluindo a possível destruição do escritório aberto em 2018. Em breve, será vista uma cena trágica e o inútil escritório de ligação norte-sul será visto a colapsar”, garantiu Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano Kim Jong-un, na noite de sábado.

A ameaça terá ocorrido devido ao envio de folhetos de propaganda contra o regime de Kim Jong-un por ativistas, muitos deles desertores norte-coreanos. Os folhetos, que são frequentemente pendurados em balões que sobrevoam o território norte-coreano ou inseridos em garrafas atiradas para o rio fronteiriço, contêm geralmente críticas ao historial de Kim Jong-un em matéria de direitos humanos ou às ambições nucleares.

A Coreia do Norte declarou também ter cortado todas as comunicações governamentais e militares com a Coreia do Sul, ameaçando ainda abandonar todos os acordos bilaterais de paz negociados em 2018.

Segundo a Associated Press, o conselheiro presidencial para a segurança nacional da Coreia do Sul, Chung Eui-yong, convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança Nacional para discutir a destruição do escritório.

A agência de notícias norte-americana classifica o ataque como “maioritariamente simbólico”, mas aponta que se trata do ato “mais provocativo” da Coreia do Norte contra Coreia do Sul desde que foram iniciadas as conversações sobre o desarmamento nuclear, em 2018.

Exército norte-coreano ameaça ocupar zona desmilitarizada

Ainda esta terça-feira, a Coreia do Norte ameaçou enviar tropas para zonas limítrofes com o vizinho do Sul que tinham sido desmilitarizadas, após um acordo entre os dois países, assinado em 2018. Numa declaração emitida pela agência estatal KCNA, o Estado-Maior da Coreia do Norte afirmou que está a considerar um plano “para reconduzir o exército às áreas que foram desmilitarizadas ao abrigo do acordo Norte-Sul, fortificar a frente e aumentar a vigilância militar”.

O texto não especifica quais as áreas ao longo da zona desmilitarizada – uma faixa de quatro quilómetros de largura que separa as duas Coreias – a serem incluídas no plano. Uma das possíveis áreas é aquela em torno da cidade de Kaesong (sudoeste) e do monte Kumgang (sudeste), de onde a Coreia do Norte retirou as tropas após o acordo.

O pacto para aliviar as tensões militares nas fronteiras foi assinado durante a cimeira de Pyonyang, realizada em setembro de 2018 pelos dirigentes das duas Coreias, o que constituiu um grande avanço para os dois países, que ainda se encontram tecnicamente em guerra.

A declaração do Estado-Maior da Coreia do Norte indicou também que “as relações Norte-Sul estão cada vez piores” e que Pyongyang também vai começar a enviar “em grande escala” folhetos de propaganda.

A Coreia do Norte tem vindo a endurecer a sua posição com os EUA e a Coreia do Sul ao longo do último ano, na sequência do fracasso da cimeira de Hanói, em que Washington considerou insuficiente a proposta de desarmamento do regime. As duas Coreias continuam tecnicamente em guerra desde o conflito que as opôs entre 1950 e 1953, que terminou com um cessar-fogo e não com um tratado de paz.