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Uma equipa com muito para remendar e só com um canivete suíço (a crónica do Rio Ave-Benfica) /premium

O Benfica venceu pela primeira vez desde a retoma e igualou o FC Porto (1-2). Mas teve de sofrer primeiro, teve de ver o Rio Ave ficar com 9 e teve de voltar a ver tudo aquilo que há para remendar.

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Seferovic entrou na segunda parte e conseguiu fazer o golo do empate

EPA

Seferovic entrou na segunda parte e conseguiu fazer o golo do empate

EPA

Na série norte-americana “Modern Family”, que em Portugal é “Uma Família Muito Moderna” e cujo último episódio foi transmitido no passado mês de abril, existe uma piada recorrente e repetida em diversos episódios. Num misto de humor físico com humor verbal e ao longo das dez temporadas, a personagem Phil Dunphy tropeça num dos degraus de casa frequentemente, salvando-se sempre por pouco de uma queda aparatosa. A frase, logo depois do valente tropeção, é sempre a mesma: Gotta fix that step, “tenho de arranjar este degrau”. E a atualidade da luta pelo título na Primeira Liga portuguesa não deixa de fazer lembrar as aventuras do desengonçado Phil Dunphy.

FC Porto e Benfica estão embrenhados numa corrida aparatosa e vertiginosa até ao final da temporada, atropelada por uma pandemia, por problemas físicos e por um mau momento mútuo. Dragões e encarnados têm perdido pontos recorrentemente desde que o futebol regressou — numa espécie de “agora perco eu aqui, agora empatas tu ali” que é a única certeza que temos no que toca ao futuro da competição. Na semana passada, o FC Porto conseguiu aproveitar o empate do Benfica em Portimão para saltar para a liderança; esta terça-feira, empatou a zeros em casa do Desp. Aves e estava à mercê de ser igualado pela equipa de Bruno Lage. O problema, porém, era que os encarnados precisavam precisamente de ganhar em Vila do Conde ao Rio Ave.

Ficha de jogo

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Rio Ave-Benfica, 1-2

27.ª jornada da Primeira Liga

Estádio dos Arcos, em Vila do Conde

Árbitro: Luís Godinho (AF Évora)

Rio Ave: Kieszek, Diogo Figueiras (Nélson Monte, 83′), Aderllan Santos, Borevkovic, Matheus Reis, Filipe Augusto, Al Musrati, Diego Lopes (Tarantini, 66′), Nuno Santos, Lucas Piazon (Carlos Mané, 90′), Taremi (Bruno Moreira, 90′)

Suplentes não utilizados: Paulo Vítor, Júnio Rocha, Pedro Amaral, Messias, Gelson Dala

Treinador: Carlos Carvalhal

Benfica: Vlachodimos, Tomás Tavares, Rúben Dias, Ferro, Nuno Tavares, Gabriel (Chiquinho, 81′), Weigl, Taarabt (Carlos Vinícius, 62′), Pizzi (Jota, 90+2′), Rafa (Samaris, 90+2′), Dyego Sousa (Seferovic, 45′)

Suplentes não utilizados: Zlobin, Cervi, Zivkovic, Florentino

Treinador: Bruno Lage

Golos: Taremi (27′), Seferovic (64′), Weigl (87′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Al Musrati (14′ e 62′), a Pizzi (45+2′), a Diogo Figueiras (80′); cartão vermelho por acumulação a Al Musrati (62′), cartão vermelho direto a Nuno Santos (73′), a Diogo Figueiras (90+3′)

E é aqui que chegamos ao paralelismo com “Modern Family”. FC Porto e Benfica repetem tropeções, atropelos e escorregadelas: mas como, frequentemente, o principal rival não consegue aproveitar e acaba também por deslizar, a queda nunca é muito grande nem muito violenta. Tropeçam, fazem um esgar de preocupação, sobrevivem à queda para continuar de pé e olham apenas ligeiramente para trás, relativizando os problemas e garantindo que o que interessa são os jogos que ainda falta disputar. Gotta fix that step, vão dizendo Sérgio Conceição e Bruno Lage, sem nunca arranjarem efetivamente o que está mal nas respetivas equipas. O que interessa é não cair redondo no chão.

Esta quarta-feira, então, o Benfica visitava o Rio Ave com essa possibilidade de igualar o FC Porto na liderança da classificação em caso de vitória — uma vitória que seria também a primeira desde o reinício da competição, depois de dois empates seguidos. Bruno Lage não tinha Grimaldo, que vai falhar o resto da temporada depois de se ter lesionado em Portimão, nem Jardel, que também saiu tocado do último jogo. André Almeida viu o quinto amarelo nessa mesma partida e também estava de fora, obrigando a uma remodelação quase total do setor defensivo encarnado, sobrevivendo apenas Rúben Dias. Os substitutos foram os expectáveis: Tomás Tavares para a direita da defesa, Nuno Tavares para o lado contrário e Ferro para o eixo defensivo. Mas Lage foi mais longe.

O treinador decidiu trocar a referência ofensiva, tirando Carlos Vinícius para colocar Dyego Sousa, e ainda fez Cervi sair do onze para fazer entrar Gabriel. Taarabt iria atuar nas costas do avançado, deixando Rafa mais solto na ala, a posição onde o internacional português se sente mais confortável, e Weigl ficava responsável pelas tarefas mais defensivas, com Gabriel na zona intermédia. Contra um Rio Ave novamente sem o capitão Tarantini no onze inicial e depois de uma vitória sofrida com o Moreirense, o Benfica começou melhor, com um ritmo intenso que contrastava com a apatia das últimas partidas. Dyego Sousa atirou ao lado ao passar do quarto de hora inicial (16′), numa primeira amostra daquilo que pode oferecer ao ataque encarnado, mas o avançar do relógio e a inexistência do primeiro golo, tal como tem acontecido frequentemente, acabou por provocar alguma ansiedade na equipa de Bruno Lage.

Com uma dinâmica enérgica mas sem grandes ideias palpáveis, o Benfica acabou por permitir que o Rio Ave conquistasse a posse de bola durante longos períodos de tempo: a equipa de Carlos Carvalhal, muito paciente e sem grandes pressas, rendilhou o jogo principalmente no próprio meio-campo e só avançava quando encontrava linhas de passe seguras. Os vilacondenses foram adormecendo o Benfica e acabaram por inaugurar o marcador no primeiro remate enquadrado de todo o jogo — numa altura em que os encarnados já levavam seis tentativas mas todas para fora da baliza de Kieszek. Livre batido na direita do ataque, Dyego Sousa aparece ao segundo poste a desviar e Taremi, quase sozinho e sem oposição, só precisou de cabecear (27′).

Em desvantagem, e ao contrário do que seria de esperar, o Benfica caiu ainda mais em rendimento. Totalmente tombada para o lado esquerdo, com Pizzi longe da bola e longe das principais movimentações, a equipa tinha muitas dificuldades em sair do próprio meio-campo e em ligar os setores. Weigl já recuava para junto dos centrais, numa tentativa pouco prática de começar aí a construção que só obrigava Taarabt a cair metros no terreno, retirando o apoio a Dyego Sousa. Rafa, tal como tinha acontecido contra o Tondela e contra o Portimonense, demonstrava poucas ideias e criatividade, Pizzi não se oferecia ao jogo e acabava por ser Gabriel, que cumpria todos os metros da largura do relvado, o elemento mais combativo dos encarnados. No meio de tudo isto, e face à total desconexão do Benfica da partida, foi Taremi quem ficou perto do segundo golo, com um remate que só não foi à baliza porque Nuno Tavares desviou pela linha de fundo (35′).

Antes do intervalo, e numa altura em que Bruno Lage já pensava no que poderia dizer e fazer no balneário para agitar as águas, Rafa ainda colocou a bola no interior da baliza de Kieszek. Taarabt, numa iniciativa rara no lado direito, tirou dois jogadores da frente e cruzou rasteiro; Dyego Sousa desviou numa primeira fase e Rafa apareceu depois a disparar sem hipótese para o guarda-redes vilacondense (42′). Depois de recorrer às imagens do VAR, porém, Luís Godinho considerou que Dyego Sousa teve intervenção no lance a anulou o empate por fora de jogo de Rafa, repondo a vantagem do Rio Ave no marcador.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Rio Ave-Benfica:]

No início da segunda parte, Bruno Lage fez uma alteração direta na frente de ataque e tirou Dyego Sousa, que tinha estado envolvido de forma infeliz tanto no golo do Rio Ave como na irregularidade do golo de Rafa, para lançar Seferovic. O avançado suíço respondeu bem à chamada, com um cabeceamento à trave logo nos instantes iniciais do segundo tempo (48′), mas a entrada mais acutilante dos encarnados durou pouco para lá dos primeiros 10 minutos. As duas equipas voltaram a equilibrar-se, para gáudio do Rio Ave, que procurava a profundidade e a verticalidade assim que conseguia recuperar uma bola. Profundidade e verticalidade: duas coisas que o Benfica não tinha e raramente procurava, preferindo sempre lateralizar o jogo e jogar mais na largura do que no comprimento, algo que deixava a equipa presa na primeira fase de construção.

Mas em menos de cinco minutos e pouco depois da hora de jogo, tudo mudou. Bruno Lage decidiu tirar a peça que parecia estar a prender o meio-campo encarnado, Taarabt, para colocar Carlos Vinícius, que foi para o lado esquerdo e empurrou Rafa para a faixa central. O jogador marroquino, apesar da qualidade evidente e de ter sido o autor do desbloqueio que deu o golo que acabou anulado, prefere sempre ter o pé na bola e tentar furar sozinho, contra tudo e contra todos — algo que é ótimo quando corre bem mas que desgastante quando corre mal. E nas últimas partidas, tem corrido mal. O setor intermédio do Benfica precisava de jogar depressa, a um ou dois toques, e estava a demorar muito tempo e chegar a Seferovic. E se a dinâmica mudou assim que o avançado entrou, mais se alterou logo depois, quando Al Musrati foi expulso por acumulação de amarelos. E como não há duas sem três, faltava o golo: e o homem certo estava no sítio certo à hora certa.

Nuno Tavares criou um bom desequilíbrio na ala esquerda, cruzou rasteiro para o interior da grande área e Seferovic, na zona central, atirou um remate fortíssimo e praticamente indefensável para dentro da baliza do Rio Ave (64′). Carlos Carvalhal reagiu ao empate e à inferioridade numérica com uma alteração, colocando o veterano Tarantini para blindar o meio-campo, mas foi imediatamente traído. Com uma entrada muito violenta e inexplicável sobre Pizzi, Nuno Santos viu vermelho direto — depois de Luís Godinho rever o lance com as imagens do VAR — e deixou o Rio Ave reduzido a nove elementos nos últimos 20 minutos.

Bruno Lage tirou Gabriel para lançar Chiquinho e oferecer velocidade à dinâmica da equipa, o Benfica passou os derradeiros minutos a atacar de forma insistente a baliza do Rio Ave — que compactou por completo o grupo nos últimos 30 metros para defender o empate como podia — e chegou ao golo da vitória por intermédio do herói mais improvável. Weigl escolheu o momento mais oportuno para se estrear a marcar pelos encarnados e respondeu com um cabeceamento certeiro a um canto batido por Pizzi na direita (87′), garantindo os primeiros três pontos do Benfica nesta retoma.

O Benfica conseguiu ganhar pela primeira vez em cinco jogos para a Liga, conquistou os três pontos necessários para igualar o FC Porto na liderança e pode ter alcançado um resultado importante naquilo que é a disposição psicológica e a motivação da equipa para as jornadas que restam. Ainda assim, é impossível não ter em conta que o resultado foi influenciado pela atuação desastrosa do Rio Ave no início do segundo tempo, com duas expulsões evitáveis que deixaram a equipa de Carlos Carvalhal a mercê da derrota. Tal como Phil Dunphy, o mais provável é que o Benfica vá agora olhar apenas ligeiramente para os tropeções anteriores e apontar baterias ao futuro, deixando apenas atrás da orelha a ideia de que há muito para remendar — e apenas um canivete suíço, Seferovic, que não é opção inicial mas mexe mais com o jogo do que qualquer outro e foi o galvanizador da vitória em Vila do Conde.

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