Preocupadas com o aumento de casos de violência baseado no género, que associam ao confinamento provocado pela pandemia do novo coronavírus, jovens mulheres da Guiné-Bissau decidiram lançar a campanha “Mulher não é Tambor”.

A campanha consiste em fotografias postadas nas redes sociais, sem legendas, em que aparecem raparigas com sinais de agressões físicas, ‘fabricadas’ através de uma maquilhagem cuidada pelas mãos de Umo Djaló.

Advogada estagiária, Djenabu Baldé disse à Lusa que se juntou à campanha, publicando uma fotografia na sua página na rede social Facebook, em que aparecia com sinais de agressão física, justamente para “picar quem vê”, disse.

Durante a semana em que Djenabu teve a fotografia no Facebook, perdeu a conta às chamadas telefónicas de amigos e familiares a questionarem-na sobre o que lhe tinha acontecido.

Pensavam que tinha sido agredida pelo meu companheiro. A minha irmã, que vive em Inglaterra, telefonou a chorar (…) disse-lhe que é só uma campanha”, contou Djenabu Baldé.

Entre sorrisos, no meio de uma sessão de maquilhagem para retratar a estratégia, na Casa dos Direitos, em Bissau, Djenabu disse à Lusa acreditar que a campanha atingiu “pelo menos 50% dos objetivos”.

Vice-presidente da Rede Nacional das Associações Juvenis (Renaj), Adama Baldé, estudante de Relações Internacionais, associou-se à iniciativa por acreditar que “uma imagem tem mais força para criar empatia” e fazer com que a sociedade “abandone o conformismo” perante a violência contra a mulher, disse.

Adama Baldé considera que o confinamento social, motivado pela Covid-19, fez aumentar agressões conjugais entre os guineenses e a exposição nas redes sociais de imagens íntimas de mulheres por parte dos parceiros enciumados, observou.

Durante sete dias da campanha, várias jovens mulheres postaram nas redes sociais fotografias a simular agressões físicas, com “marcas” na cara, nos olhos, nos braços ou roupa rasgada, sem qualquer legenda.

O propósito é trazer o espírito de empatia nas pessoas, porque muita vezes, quando acontecem casos do género, só nos posicionamos se for com a nossa irmã, ou pessoas próximas. Mas se for com outra pessoa que não nos é próxima, não tomamos posição”, observou Baldé.

Licenciada e mestranda em sociologia no Brasil, Yolanda Garrafão, também participa na campanha “Mulher não é tambor”, dando o seu próprio exemplo de violência, de que foi alvo ainda adolescente, sem denunciar o agressor.

“Pensava que uma agressão física do namorado é demonstração de amor, forçada pelo ciúme”, disse Garrafão, que aproveitou para denunciar “a visão enraizada na cultura guineense” em que a menina é educada “dentro do princípio de submissão para apanhar, sofrer e calar”.

Yolanda é totalmente contra a máxima guineense que diz que “uma mulher que sofre acaba por parir um filho fidalgo”. Ou seja, a crença de que por mais difícil que seja um relacionamento ou casamento, a mulher deve sofrer para daí ter “bons filhos”.

Uma das autoras da iniciativa e maquilhadora das raparigas que apareceram nas fotografias, Umo Djaló, defendeu que a violência baseada no género sempre existiu na sociedade guineense, mas que agora “parece estar a aumentar”, daí que decidiu juntar jovens e “usar imagens fabricadas para dizer basta”.

A própria Umo deu cara à iniciativa com uma fotografia sua, que disse ter suscitado preocupação dos familiares que queriam saber se tinha sido agredida.

Funcionária num hotel de Bissau, Umo Djaló não tem dúvida de que “a iniciativa teve um grande impacto”.

As participantes da iniciativa “Mulher não é Tambor” querem agora promover debates e outras iniciativas no interior do país e nas redes sociais, junto das comunidades guineenses na diáspora, visando despertar para as diferentes formas de violência contra o sexo feminino, e que dizem ser “um grave problema social”.