Depois de um final de 2019 com três empates consecutivos, o Real Madrid entrou num mundo tridimensional onde encaixam todas as virtudes e pecados entre a perceção de que poderá sagrar-se campeão espanhol lutando ainda por um lugar na Final Eight da Champions, a ilusão de que os elementos mais jovens que têm sido lançados podem marcar uma era nos merengues e uma realidade onde, estando em clara desvantagem nos oitavos da Liga dos Campeões frente ao Manchester City (derrota por 2-1 em casa), necessita de ganhar outra regularidade para não concluir a temporada apenas com o triunfo na Supertaça. Foram também essas três ideias, de perceção, ilusão e realidade, que marcaram a retoma do futebol, com um triunfo a dois ritmos diante do Eibar.

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Na primeira parte, o conjunto de Zidane foi avassalador. A jogar rápido, a pressionar bem, a marcar. No segundo tempo, desligou a ficha e andou alheado do jogo. Tudo num contexto em que muitos adeptos discutiam outra coisa nas redes sociais: as medidas do campo. Ou melhor, quão mais pequeno era este novo relvado.

Mera ilusão, acrescente-se. O Estádio Di Stéfano, o principal campo do centro de treinos em Valdebebas onde por norma jogam a equipa B e a equipa feminina, tem exatamente os mesmos 105×68 metros que o Estádio Santiago Bernabéu, que por causa das obras de fundo que estão a ser realizadas e que custarão mais de 400 milhões de euros (sendo que o Real fixou o financiamento da remodelação em 575 milhões, com um prazo de 30 anos e interesse fixo de 2,5%, sem garantias hipotecárias) está indisponível para receber a equipa. Depois, o que faz diferença é se o próprio jogo da equipa da capital espanhola consegue aumentar ou diminuir o relvado.

Essa terá sido a grande mensagem de Zidane à equipa depois do triunfo com o Eibar, que atenuou uma série em que o Real Madrid somou apenas sete dos 15 pontos possíveis nos últimos cinco encontros: não há margem para haver 45 minutos como aqueles que a equipa realizou na segunda parte, com falta de concentração, de entrega e de atitude dos jogadores. Não foi por isso que os merengues passaram a treinar às 21h30 de Espanha, uma hora pouco comum mas que será aquela onde serão realizadas as próximas quatro partidas na Liga (22h), mas é aí que entronca o principal ponto a melhorar. “Tivemos vários jogos onde entrámos fortes mas por vezes torna-se complicado manter a linha durante todo o jogo. Conhecemos as nossas forças, sabemos que podemos resolver cedo os encontros. Falta de motivação? Não creio que seja a questão porque quem está mais abaixo na classificação luta muito. Um treinador tem emoções e quando as coisas não funcionam bem claro que fica incomodado. Faz parte do futebol. Mas há coisas positivas como marcar três golos em meia hora”, destacou o técnico francês.

Desta vez, frente ao Valencia, o filme foi ao contrário. Depois de uma primeira parte onde foram os visitantes que tiveram as principais ocasiões, com Rodrigo a acertar no poste de Courtois antes de marcar mas ver o golo anulado pelo VAR num lance que não passou ao lado da ironia de Arturo Vidal, médio chileno do Barcelona que se mostrou irónico com a decisão nas redes sociais, tudo mudou no segundo tempo e o Real venceu por 3-0.

Já depois de algumas intervenções importantes de Cillessen, que fazia o seu primeiro jogo contra os merengues, o inevitável Benzema inaugurou o marcador a meia hora do final após assistência de Eden Hazard, companheiro de ataque do francês num modelo novo onde Zidane abdicou de Rodrygo na frente para reforçar o meio-campo e juntar Fede Valverde ao trio Casemiro-Kroos-Modric. Pouco depois, o primeiro momento de magia do jogo: após 330 dias de fora por lesão grave no joelho, Asensio entrou em campo e demorou apenas 30 segundos para marcar após assistência de Ferland Mendy (73′). Para acabar a festa, Benzema bisou com um golo fantástico sem deixar cair a bola que deixou Zidane pasmado de mãos na cabeça (86′). O jogo estava resolvido mas Kang-In Lee, sul-coreano do Valencia, seria ainda expulso com vermelho direto após dar três pontapés em Sergio Ramos (89′).

“Todos os jogos são complicados, ainda para mais com um adversário como o Valencia, que entrou forte, esteve muito bem na primeira parte e correu muito. A nossa segunda parte foi melhor em tudo e estou contente pela forma como controlámos o jogo. Desta vez pode dizer-se que fomos superiores. Contra o Eibar fomos melhores na primeira parte e piores na segunda. Sabemos que temos de ter atenção aos pormenores porque quando estamos concentrados e com comprometidos, é muito difícil alguém bater-nos”, destacou no final do encontro Zidane, entre elogios a Benzema e Asensio e a promessa de luta até ao final pelo título com o Barcelona, que está a dois pontos: “É importante que façamos o que nos compete. Os jogadores podem estar satisfeitos pelo que jogaram e lutaram. Só dependemos daquilo que podemos fazer, não coloco a cabeça no que os outros fazem. Vou ver o próximo jogo do Barcelona em Sevilha mas não tenho na cabeça que é ali que podem falhar…”.