Durante os três meses em que a vida de quase todos parou, foi necessário encontrar novas formas de entretenimento, de ocupação do tempo e até de validação das contínuas horas passadas em casa sem objetivo prático. E aqui, com as devidas exceções, quase todos nos apoiámos na cultura e nas artes: na música, nos livros, no cinema, nas séries. E neste último capítulo específico, o das séries, existe um exemplo que vai estar nas memórias de isolamento de muitos milhões.

“Last Dance”, o documentário da Netflix sobre a última temporada de Michael Jordan nos Chicago Bulls, estreou na altura certa, teve o desenvolvimento certo e o impacto certo. A história do norte-americano, não só naquele último ano nos Bulls como em toda a carreira, é um exemplo de competitividade e de motivação — ainda que muitos dos episódios contados por Jordan tenham acabado por causar ondas de choque entre alguns dos visados. E entre todos os milhões que assistiram à última dança de Michael Jordan em Chicago, encontrava-se Brendan Rodgers, o treinador do Leicester, que decidiu recomendar a todo o plantel que visse o documentário.

“Disse-lhes que não sabia o que estava a ver mas para, se tivessem oportunidade, começarem a ver o ‘Last Dance’. Se querem saber o que é pertencer à elite e o que é estar no topo em termos de preparação e foco e desenvolvimento e ser melhor e ganhar, é isso que devem estar a ver. O Jordan foi abençoado com talento mas maximizou o talento dele. Todos os jogadores deviam seguir a mentalidade dele sobre ser o melhor e estar na elite. Era tudo sobre o quanto ele trabalhava e o quanto estava preparado para sofrer”, contou Brendan Rodgers numa entrevista recente ao Daily Mail, onde acrescentou que é muito influenciado pelos métodos de Phil Jackson, o histórico treinador da NBA que orientou os Chicago Bulls durante o período dourado de Michael Jordan e depois os Lakers, com Kobe Bryant.

“Muita gente tinha um problema com a forma como o Jordan tratava os colegas mas julgamos o que as pessoas fizeram há mais de 20 anos com base nos valores de hoje, o mundo era diferente. Ele queria ganhar e queria que os outros ganhassem. No futebol também era assim. Os tempos mudaram mas, ao nível mais alto, às vezes temos de ser duros para sermos claros”, explicou o técnico norte-irlandês, que esteve infetado com a Covid-19.

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Doucouré teve nos pés a melhor oportunidade da primeira parte

Flashforward para este sábado e o Leicester voltava à competição mais de três meses depois da paragem com uma visita ao Watford — onde Rodgers se estreou aos comandos da equipa na temporada passada. No terceiro lugar da Premier League, com mais cinco pontos do que o Chelsea, o Leicester tem até ao fim da temporada para alcançar o maior número de resultados positivos e blindar o último degrau do pódio — para confirmar, mais uma vez, que Inglaterra está agora mais perto de ter uns big seven do que apenas uns big six. Sem Ricardo Pereira, que se lesionou gravemente em março e não vai regressar esta temporada, o Leicester assumiu grande parte das despesas do jogo durante o primeiro tempo, com mais bola e maior superioridade, mas não conseguiu chegar com perigo à baliza de Ben Foster.

Do outro lado, o Watford estava confortável com o papel mais subjugado da partida e tentava adiantar-se no terreno principalmente através dos (muitos) erros defensivos e de transição do Leicester, que falhava muitos passes e não tinha grande ligação entre os setores. Doucouré, médio do Watford, acabou mesmo por protagonizar a única oportunidade da primeira parte, ao rematar para uma boa defesa de Kasper Schmeichel depois de um erro de Ndidi.

Na segunda parte, a dinâmica de superioridade do Leicester manteve-se, ainda que de forma menos intensa. O Watford, principalmente por intermédio de Sarr, o óbvio elemento ‘mais’ da equipa de Nigel Pearson, procurava a profundidade na ala direita e um futebol mais direto que permitisse chegar depressa à baliza contrária sem transição. O Leicester, com maior qualidade individual e global, tentava chegar à vitória com os habituais lances rendilhados e batuta de maestro de James Maddison mas estava a esbarrar na organização defensiva dos hornets que com o passar do tempo começaram a acreditar que poderiam resgatar um importante ponto numa partida de nível elevado, já que estão apenas um lugar acima da zona de despromoção.

A cerca de 20 minutos do apito final e ainda sem um único remate enquadrado à baliza do Watford, Brendan Rodgers fez a primeira alteração e trocou Harvey Barnes por Demarai Gray, não tendo depois chegado a utilizar todas as permitidas cinco substituições. O ritmo caiu a pique na segunda parte e os três meses de paragem começaram a fazer-se sentir: a quebra de rendimento dos jogadores do Leicester, não só ao nível de intensidade mas também de precisão técnica, é uma das maiores desta retoma da Premier League. Albrighton rematou ao poste (75′), num lance onde Maddison ainda obrigou Ben Foster a uma grande defesa, e os foxes pouco mais conseguiram criar. O golo da vitória pareceu aparecer no último minuto, com um enorme remate de Ben Chilwell de pé esquerdo (90′), mas o Watford ainda foi a tempo de repor o empate por intermédio de um pontapé de bicicleta de Craig Dawson já nos descontos (90+3′). No fim, e depois de sair de casa de uma das equipas que ainda luta para não descer com apenas um ponto, nem Michael Jordan nem os Chicago Bulls chegaram para inspirar os jogadores de Brendan Rodgers.