Mais de metade (53%) dos municípios portugueses dizem sentir falta de apoio do Governo central na resposta à pandemia de covid-19, de acordo com um estudo da agência YoungNetwork Group ao qual a Lusa teve acesso este sábado.

O inquérito ‘online’ realizado pela agência de comunicação internacional junto das 308 câmaras municipais do país, ao qual 90 deram “respostas válidas”, mostra ainda que são as autarquias das regiões autónomas (60%) e da região Centro (59%) do país que mais dizem sentir falta de apoio do executivo central, enquanto no Norte as opiniões se dividem (50%) e apenas o Sul não nota tanto a falta de apoio (43%).

“Penso que este resultado tem a ver com a impreparação geral para uma situação como estas. Quer as autarquias, quer o Governo, ninguém estava preparado para lidar com a pandemia e tiveram de criar novos mecanismos de comunicação”, analisou João Santos, diretor de operações da YoungNetwork e especialista em comunicação política, em conversa telefónica com a Lusa.

O estudo “Covid-19: The Day After Survey — Autarquias” (“Covid-19: O Dia Seguinte — Autarquias”, em português) teve como objetivo, de acordo com uma nota de imprensa da YoungNetwork, avaliar “o impacto da covid-19 nas autarquias portuguesas, analisando a forma como comunicaram, como se adaptaram à nova realidade do dia-a-dia e como perspetivam o futuro pós pandemia”.

Nesse sentido, verificou-se que a esmagadora maioria dos municípios (95%) já estão a ponderar novas medidas para serem implementadas após a pandemia de covid-19, mas a maior parte (66%) admitem que estas estão ainda longe de estar concluídas.

A mudança de paradigma na forma de comunicar com os munícipes foi outra consequência da covid-19, com mais de 92% das câmaras a indicarem que, durante o período da pandemia, recorreram preferencialmente aos canais digitais para o fazer.

Neste domínio, o e-mail (84%) e o telefone (76%) foram os canais privilegiados pelas autarquias para comunicar com a população, relegando as redes sociais para “segundo plano”, o que a autora do estudo diz que “poderá ter a ver com características sociodemográficas de cada um dos concelhos ou outras razões que não foram exploradas por este inquérito”.

No entanto, dentro das redes sociais, o Facebook foi o preferido dos cidadãos para entrarem em contacto com as suas autarquias para obter respostas, recolhendo 64% das preferências.

“Para o cidadão comum, estes dados surpreendem porque temos tendência para achar que o sistema da função pública é datado e este estudo prova o contrário, mostrando a digitalização da relação com os munícipes, porque a grande parte dos contactos foram feitos por e-mail e Facebook. Há ainda o telefone, que na minha opinião é resultado da população envelhecida do país”, comentou João Santos.

Ainda no plano digital, o inquérito revela que mais de dois terços (74%) das câmaras municipais aderiram ao regime de teletrabalho e que 78,9% asseguram mesmo estar preparadas para esta mudança, das quais 62,2% acreditam que os resultados do trabalho não foram afetados e 15,6% consideraram mesmo que foram ainda melhores do que no período antes do surto.

A realização de reuniões em plataformas ‘online’ foi também bem aceite pela generalidade dos municípios (79%), com apenas 3% a considerarem que a medida não foi bem aceite, mas 18% a admitir, por outro lado, que não utiliza esta ferramenta para as reuniões.

“Apesar de já virem a ser utilizados um pouco por todo o país, sentíamos que poderia haver alguma resistência à utilização dos meios digitais para a realização das reuniões municipais, com um índice de adoção mais reduzido, mas a verdade é que foi bastante elevado”, concluiu o especialista.

Os orçamentos do poder local foram também afetados pela pandemia, de acordo com 88% das autarquias, que na sua maioria (75%) admitem existir uma transferência direta das rubricas de ações canceladas, como festas e concertos, entre outras, para campanhas ou apoios no âmbito da pandemia.

A recolha dos dados foi feita através de um inquérito ‘online’ anónimo, com respostas fechadas, entre os dias 29 de abril e 29 de maio.

O inquérito foi enviado para os responsáveis de comunicação dos municípios, tendo a maioria sido respondido por técnicos ou consultores de comunicação (54%), mas também por assessores políticos (22%) ou até mesmo pelos autarcas (11%).