A “Festa da Música”, em Nantes, tem desde 2019 um peso emocional maior. Há um ano, centenas de jovens festejavam a data num cais junto ao rio Loire, em Nantes, quando na sequência de uma intervenção policial — na qual terão sido usados gás lacrimogéneo e balas de borracha para dispersar os jovens — vários caíram ao rio, relatando ter ficado cegas pelo uso do gás lacrimogéneo. Steve Maia Caniço desapareceu nessa noite e foi encontrado cinco semanas depois, afogado no rio. Não sabia nadar e terá caído à água durante a operação policial.

Com o avançar dos dias no calendário e a chegada novamente ao dia da “Festa da Música”, milhares de pessoas decidiram assinalar a data com uma marcha branca para marcar um ano do desaparecimento do lusodescendente.  A caminhada, que tem como destino o local onde Steve caiu ao rio, começou por volta das 15h30.

Os participantes da marcha levam cartazes a pedir justiça para Steve Maia Caniço e o fim da violência policial. “Justiça para Steve, sem justiça, sem paz”, “Parem com toda violência”, são alguns dos cartazes que transportam esta tarde. Entre os presentes na marcha desta tarde está também Jérémy Bécue, de 25 anos, que também caiu no Loire durante a carga policial. Ao Le Monde , Jérémy diz que “não esquece”, que não irão “abandonar o caso” e que estão “prontos para lutar pela justiça”.

A investigação ao que terá realmente acontecido naquela noite ainda continua, com os dados relativos ao telemóvel de Steve Caniço a serem essenciais para o processo. Johanna Maia Caniço, irmã de Steve, explicou ao Le Monde que o objetivo é conseguir a geolocalização do sítio exato onde Steve estaria no momento em que começou a carga policial sobre os jovens que comemoravam a “Festa da Música”.

Caso de lusodescendente que morreu afogado continua a agitar França. Há novos dados sobre o telemóvel de Steve Maia Caniço

Várias pessoas caíram ao rio, mas Steve não sabia nadar

Steve Maia Caniço desapareceu na noite de 21 para 22 junho após uma intervenção policial numa festa num cais, em Nantes, durante a Festa da Música, uma data celebrada a nível nacional com diferentes eventos em toda a França. Cinco semanas depois, o corpo do jovem de 24 anos foi encontrado no rio Loire. Steve Maia Caniço não sabia nadar e morreu afogado.

Nessa noite, várias pessoas caíram ao rio e algumas contaram ter ficado cegas pelo uso do gás lacrimogéneo. O caso suscitou fortes emoções e reações em França, tendo surgido vários apelos a manifestações, alguns para denunciar a violência policial, tendo esses apelos específicos origem em grupos ligados ao movimento social dos coletes amarelos.

Na altura, o ministro do Interior francês, Christophe Castaner, admitiu que subsistiam dúvidas sobre a legitimidade do uso de gás lacrimogéneo durante a intervenção policial e o próprio primeiro-ministro de França, Edouard Philippe, divulgou as conclusões do relatório da Inspeção Geral da Polícia, adiantando que o documento não estabelecia qualquer ligação entre a intervenção policial e o desaparecimento de Steve Maia Caniço. Mas logo após a carga policial em Nantes, o ministro do Interior Castaner não descartava a possibilidade de o desaparecimento de Steve Maia Caniço estar ligado à operação e ordenou a abertura de uma investigação à atuação das forças policiais.

Corpo encontrado no rio em Nantes é de lusodescendente

Com a descoberta do corpo, as autoridades anunciaram a abertura de uma investigação por suspeitas de “homicídio involuntário”, enquanto decorrem várias outras diligências para tentar esclarecer as circunstâncias da ação das forças de segurança.

Cécile de Oliveira, advogada da família do lusodescendente, considera que o caso ganhou contornos de “assunto de Estado”, adiantando que, neste momento, não é “possível descartar responsabilidades de quem quer que seja” na morte do jovem.

O assunto ressurge numa altura em que a violência policial se tornou tema internacional.