Milhares de argentinos protestaram, em mais de 80 cidades, com buzinas, panelas e bandeiras, contra a decisão do Governo de expropriar uma das principais agroexportadoras, num primeiro passo contra a propriedade privada em geral.

As manifestações aproveitaram o “Dia da Bandeira”, no sábado, para levantar a união do país em torno da defesa dos direitos constitucionais, num momento em que o Governo decidiu expropriar a empresa Vicentín, uma das principais agroexportadoras do país, e procura uma intervenção em outros setores, afugentando o investimento.

Nos principais centros urbanos, caravanas com centenas de automóveis desfilaram ao som de buzinas, com bandeiras argentinas erguidas. Pelas janelas, milhares de pessoas batiam em panelas em protesto contra o governo.

Os ‘buzinaços’ e os ‘panelaços’ cercaram a residência presidencial de Olivos, em Buenos Aires, a partir da qual o Presidente argentino, Alberto Fernández, acompanhava as manifestações em todo o país.

Por todo o país, milhares de manifestantes empunharam faixas e cartazes com várias palavras de ordem: “Hoje é Vincentín, amanhã é você”, “Não queremos ser Venezuela”, “Pela liberdade e pela República”, “Não à destruição da democracia”.

No interior, o protesto incluiu tratores e marchas com forte concentração em Rosário, onde fica o monumento à bandeira argentina e por onde se escoa a produção agrícola do país, e em Avellaneda, onde se situa a sede da empresa Vicentín.

“A Argentina está muito frágil socialmente e muito fraca institucionalmente. Mais do que nunca, precisamos defender a divisão de poderes”, disse o presidente da Câmara de Avellaneda, Dionisio Scarpin, num discurso sobre a medida de expropriação, considerada inconstitucional por diversos constitucionalistas.

“Esta manifestação não é por Vicentín, mas porque as pessoas sentem que lhes roubam a liberdade”, afirmou Héctor Vicentín, um dos donos da empresa, fundada há 91 anos.

A data do protesto coincidiu com os três meses de uma das quarentenas mais prolongadas do mundo e que tem destruído uma economia já em profunda recessão antes da pandemia.

Setores mais radicais dentro do Governo têm aproveitado a fragilidade financeira das empresas para proporem uma intervenção em mercados e a participação do Estado nas empresas que tenham pedido ajuda financeira, de acordo com observadores.

Estas propostas esbarravam na moderação do presidente Alberto Fernández, que anunciou a intervenção e a posterior expropriação da Vicentín em 08 de junho.

“Muita gente vê neste caso a situação da Venezuela porque afeta a propriedade privada e desfaz a imagem de moderação que Alberto Fernández procurou transmitir para ganhar credibilidade e atrair investimentos”, afirmou o analista político Sergio Berensztein.

“Muitas empresas na Argentina estão numa situação crítica e vulnerável aos embates do Governo que dá sinais de radicalização. O clima de negócios não era bom. Agora, piorou”, avaliou Berensztein.

Este radicalismo está ligado ao chamado ‘kirchnerismo’, setor do ‘peronismo’ liderado pela antiga chefe de Estado (2007-2015) e atual vice-Presidente Cristina Kirchner, aliada histórica do ‘chavismo’ na Venezuela e que tem na classe média, na classe empresarial e no setor agropecuário os grandes inimigos internos.

Sobre os protestos, o Presidente Alberto Fernández disse não estar preocupado porque os manifestantes “estão errados”.

Nas últimas horas, Fernández passou a incentivar uma proposta que significa a participação do Estado na empresa através de uma sociedade mista com privados. A proposta foi classificada como uma “estatização suave” porque o Estado seria o sócio maioritário e a controlar a companhia.

“Se o juiz não aceitar essa proposta, só nos resta a expropriação”, disse, no sábado, Fernández ao juiz Fabián Lorenzini, que está a liderar o processo de recuperação judicial da empresa, iniciado em fevereiro por não poder pagar aos credores.

“O objetivo do Governo continua a ser controlar a companhia”, reiterou o Presidente argentino.

Em fevereiro, a empresa Vicentín entrou em recuperação judicial devido à dívida de 1,2 mil milhões de euros a 2.600 produtores agropecuários, bancos públicos e uma comissão de credores estrangeiros.