Tem 26 anos, 1,88 metros, bom pé esquerdo, remate forte. Daria um bom jogador de campo? “Quando jogo com os meus amigos atuo sempre como meia [médio]. Posso jogar assim mas não aqui, temos muitos meias de qualidade no time. É brincadeira mas se um dia surgir a oportunidades, quem sabe?”. Se na presente temporada o lateral Kyle Walker já foi parar à baliza do Manchester City num jogo da Champions frente à Atalanta em Milão, a Sky Sports decidiu avançar com mais uma inovação no conjunto orientado por Pep Guardiola. Ederson, indiscutível número 1 que até podia dar um bom ‘6’ ou ‘8’, fintou a possibilidade mas percebeu o seu fundamento.

O primeiro golo da Premier League foi um pontapé de Sterling no racismo (com “assistência” de David Luiz)

“Acho que o futsal me ajudou muito quando tinha 11 ou 12 anos, ajudou-me a pensar mais rápido e a tentar fazer passes entre as linhas. Acho que consegui depois transportar essas lições para o futebol de campo”, contou o internacional brasileiro que, nas camadas jovens do Benfica, chegou a marcar um golo de uma baliza à outra, numa entrevista onde abordou também a diferença entre Guardiola e os restantes técnicos: “A posição de guarda-redes para ele é como um 11.º jogador em termos de criação de jogadas e pressão. E acho que é mais difícil para mim, há uma responsabilidade maior porque dá menos margem para errar. Um erro provavelmente dá golo”.

O Pep é um grande treinador, que vê o futebol de uma forma diferente. Ele vive e respira futebol. A forma como ele pensa o desporto é totalmente diferente de outros treinadores. Ajudou-me muito, não só a mim mas também ao resto dos meus companheiros”, destacou o brasileiro.

Apesar da possibilidade de o Manchester City poder falhar durante uma temporada a Liga dos Campeões por castigo da UEFA, Ederson sente-se bem em Inglaterra. “Sou um apaixonado pela Premier League, é uma competição com muitas emoções. Para quem acompanha de fora já é incrível, para mim, que vivo essa experiência, é surreal. Tenho contrato por cinco anos. Espero cumprir e, se possível, ficar por mais tempo”, disse ainda à ESPN Brasil. Os (ainda) campeões podem ter apenas a quarta melhor defesa da prova, atrás de Liverpool, Leicester e Sheffield United, mas também é pelo brasileiro que têm o melhor ataque pela qualidade na distribuição de jogo a sair de trás ou em passes longos que já valeram alguns golos. Às vezes, por fazer parecer fácil o que é complicado, passa ao lado de mais elogios. E esse acaba por ser um ponto transversal e mais jogadores do plantel.

Kevin De Bruyne é exemplo paradigmático disso mesmo e são os próprios companheiros de equipa que fazer referência a isso. “Devia ter ganho o prémio de Melhor Jogador da Premier League há dois anos, foi de forma clara o melhor da liga nessa temporada. É um processo justo mas nunca percebi porque é que os jogadores do City nunca têm o reconhecimento que merecem”, destacou Bernardo Silva esta segunda-feira, numa entrevista ao The Telegraph, onde abordou também o castigo da UEFA e a edição desta época da Champions: “Ninguém sabe o que se vai passar mas devemos pensar apenas naquilo que conseguimos controlar. Vamos colocar todas as nossas energias nesta edição sem pensar no resto. Para mim, é uma motivação extra a fase final realizar-se no meu país e na minha cidade porque em 2016 falhei o Europeu que ganhámos e esperava este verão estar presente antes da pandemia. Assim, e sabendo que lutar pelo Campeonato é impossível, queremos revalidar a vitória na Taça e lutar pela Liga dos Campeões, que todos sabem o que representa para nós”.

E quando falou no plural, Bernardo Silva sabia o que dizia porque o Manchester City é muito mais do que um onze, como se percebeu nas oito alterações de Pep Guardiola em relação ao jogo com o Arsenal, mesmo tendo pela frente uma das formações que mais têm surpreendido nesta edição da Premier League com uma posição estável a meio da tabela e que concede ainda a possibilidade de se poder intrometer com uma boa conjugação na luta pelos lugares europeus: sobraram Ederson na baliza, David Silva no meio e Mahrez na direita do ataque, entraram João Cancelo, Fernandinho, Otamendi, Zinchenko, Rodri, Bernardo Silva, Foden e Kun Agüero. Mudaram os nomes, manteve-se a mesma dinâmica. O City está bem e recomenda-se. E ter duas equipas num plantel também ajuda.

Sem dar a mínima hipótese de saída em transição ao Burnley, uma equipa bem trabalhada por Sean Dyche mas que não teve margem para surpreender e ficou quase sempre em posição defensiva sem bola, o Manchester City surgiu solto, a pressionar alto, com futebol apoiado em toques curtos que de quando em vez arriscava variações rápidas que provocavam desequilíbrios nos visitantes. João Cancelo, numa das muitas subidas ao meio-campo contrário, arriscou um dos primeiros remates do jogo ao lado (15′), Bernardo Silva teve a oportunidade inicial na área após um grande passe de David Silva mas a tentativa de pé direito saiu ao lado (17′). Só dava City e o golo seria mesmo uma questão de tempo, com Bernardo Silva a assistir Phil Foden à entrada da área no seguimento de um canto curto e o remate rasteiro de pé esquerdo do médio inglês a não dar hipóteses ao gigante Nick Pope (22′).

Seguia-se a habitual paragem para refrescar, beber água e receber instruções, uma altura em que nem mesmo a vantagem acalmou o frenético Guardiola que, de papel e caneta na mão, explicava aos jogadores o que podia ser ainda melhorado num encontro que estava a correr bem. A pressão manteve-se, com muita posse e a circular entre corredores até encontrar uma nesga para fazer o movimento de rutura, até a um segundo golo que surgiu num lance menos utilizado mas igualmente eficaz: passe longo de Fernandinho para o corredor direito, receção orientada de Mahrez, uma finta que deixou Charlie Taylor desenquadrado e o remate de pé direito para o 2-0 (43′). O intervalo estava perto mas havia ainda mais duas notícias, uma boa e uma má, para o City: Agüero sofreu um penálti que adensou os problemas que já acusava, teve de sair mas Mahrez bisou e fez o 3-0 (45+3′).

O argelino de 29 anos, que foi notícia durante a pandemia pelo assalto a sua casa no final de maio onde ficou com vários relógios de coleção, é mais um desses exemplos que às vezes passa ao lado no meio de tanta qualidade mas, depois de uma natural fase de adaptação ao novo clube, sistema e cidade, tem brilhado como poucos no Etihad Stadium – e também ele foi uma espécie de Kevin De Bruyne nos últimos anos no Leicester campeão, à sombra de Vardy, e em África, vencendo o prémio de Melhor do Ano em 2016 mas ficando sempre atrás a partir daí de Sadió Mané, Salah e Aubameyang. Contas feitas, e desde que chegou ao Manchester City, esteve envolvido em 50 golos em 83 jogos (23 marcados pelo próprio, 27 assistências). Ou seja, em cada 100 minutos está num golo.

No segundo tempo, e quando se pensava que o Burnley entraria apostado em dar uma outra imagem em relação aos 45 minutos iniciais, uma jogada de Silvas com Bernardo a assistir David aumentou a vantagem para 4-0 logo aos 51′, quebrando de vez a resistência de um conjunto visitante que fez dos jogos menos conseguidos da época e sofreria ainda mais um golo por Phil Foden, após assistência de Gabriel Jesus (63′). E com outra curiosidade: dos nove golos marcados pelo Manchester City ao Burnley (4-0 na primeira volta), quatro tiveram assistência de Bernardo Silva, também ele outro dos elementos que merecem mais reconhecimento. Afinal, para o médio ofensivo que tem a árvore montada na sala há ano e meio, Natal é quando um homem quer e há sempre uma prenda a mais para dar a qualquer um dos companheiros de equipa quando os citizens entram em campo.