A realizadora brasileira Eliza Capai disse à Lusa não entender como é que o Brasil não saiu às ruas de forma “massiva” e “violenta” contra o racismo e violência policial, “problemas estruturais” do país.

Para Eliza, realizadora do filme documentário “Espero Tua (Re)volta” (2019), sobre as manifestações estudantis de São Paulo, é inconcebível que os brasileiros não tenham seguido os mesmos passos dos norte-americanos, que protestarem pela morte do afro-americano George Floyd, quando no Brasil morrem dezenas de crianças às mãos da polícia.

“Não consigo entender como é que o Brasil não saiu para as ruas, como em outros países. Há alguns movimentos a protestar neste momento, mas não entendo como isso não se tornou numa questão absolutamente massiva e, inclusive, violenta no Brasil. Porque, imaginem a raiva de crescer com medo, que se tornou rotina para a maioria da população brasileira que mora em comunidades carenciadas”, disse a realizadora.

Acho que só pode ser uma anestesia. Basta observar quantas pessoas já morreram este ano no Rio de Janeiro às mãos da polícia [741 de janeiro até maio deste ano], quantas crianças foram assassinadas”, considerou Eliza.

Em entrevista à agência Lusa, a brasileira, que se encontra em Portugal para “respirar” e abstrair da realidade brasileira, acredita que o seu país está “anestesiado” por todo o sofrimento que enfrenta há anos, e que só essa poderá ser a resposta para a falta de reação dos seus 210 milhões de habitantes.

O Brasil é esse país absolutamente racista, mas que uma boa parte da população nega até hoje, dizendo que é um povo sorridente. (…) Não entendo como é que ainda não se tomaram as ruas e se parou tudo, como aconteceu nos Estados Unidos com uma morte terrível, e que levou à mudança nas leis”, frisou a brasileira.

A ligação de Eliza Capai às manifestações estudantis que foram alvo do seu filme “Espero Tua (Re)volta” recua a 2015, quando estudantes do ensino secundário de São Paulo, a primeira geração a crescer sob políticas públicas progressistas, se organizaram contra os cortes orçamentais propostos para o sistema público de ensino, e ocuparam cerca de 200 escolas em prol de uma educação de qualidade.

A realizadora, que tem uma longa carreira na área de documentários sobre questões sociais, confessou que assistiu às invasões de 2015 pela internet, de forma um pouco distante, mas que ficou logo impressionada com aquela geração de jovens, preocupados com questões estruturais do Brasil como o racismo, a educação e o feminismo.

“Em 2016 tive a oportunidade entrar numa dessas ocupações, em São Paulo. Fiquei muito chocada com aquela juventude e tentei entender o que estava a acontecer. As meninas usavam roupas curtas, falavam de uma forma que eu me sentia mais velha. Aí, fui entender que elas pegaram no slogan da minha geração ‘meu corpo, minhas regras’ e aplicavam no próprio corpo”, afirmou a realizadora.

“Da mesma forma, uma juventude negra que afirmava a sua ascendência, não apenas no discurso, mas também no próprio visual, com os seus cabelos black power [poder negro], com toda uma estética de trazer a questão política para os próprios corpos. Demorei muito para entender o que estava a acontecer naquela ocupação, de uma forma profunda”, disse.

Dali resultou um filme narrado pelos três jovens protagonistas – Marcela Jesus, Nayara Souza e Lucas “Koka” Penteado –, e que conquistou vários prémios. Teve a sua estreia mundial na Secção “Generation” do Festival de Berlim de 2019, onde recebeu o Prémio da Amnistia Internacional e o Prémio da Paz.

Contudo, o filme, que contrasta a força da juventude com a velha repressão e agressão policial, não trouxe o final feliz que Eliza esperava. Cinco anos depois, em pleno 2020, quando o Brasil é o segundo país do mundo mais afetado pela pandemia da Covid-19, o país vê os mesmos problemas intensificarem-se, num ciclo “difícil de quebrar”.

A violência policial faz novas vítimas a cada dia, e raras são as semanas em que o Brasil não amanhece com a notícia de mais uma criança morta por uma bala perdida, ou às mãos de agentes. Na sua maioria, crianças negras.

“Quando eu comecei, pensei que estava a fazer um filme com um final feliz, sobre essa geração nascida em democracia e que, finalmente, não aceitaria mais retrocessos. Foi muito estranho porque o nosso plano era lançar o filme em julho 2018, mas havia algo que não deixava o filme ficar pronto. Eu não sabia o que era, mas sentíamos que era para esperar”, avançou.

“Até hoje, quando eu assisto o filme, eu tremo com as imagens da violência policial, porque não dá para a acreditar que o Estado manda os seus polícias, daquele tamanho, contra corpos franzinos de adolescentes”, indicou a realizadora, referindo-se às duras imagens dos agentes a agredirem violentamente crianças que entoavam cânticos a pedir uma melhor Educação.

O filme foi assim concluído no final de 2018, momento em que Jair Messias Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil, com a promessa de acabar com o ativismo no país, num movimento “totalmente inesperado” para Eliza.

Esse era o final mais trágico, e que eu jamais imaginaria. Que um filme sobre a primeira geração nascida em democracia, e super ativista, terminaria com o novo Presidente a dizer que iria acabar com eles. Infelizmente, sinto que o filme fica cada vez mais atual”, disse à Lusa.

Eliza Capai defendeu ainda que este é o momento do Brasil se unir e sair à rua contra o atual governo: “Acho necessária uma grande e forte reação, para que o governo saiba que basta, que já teve no poder tempo demais. Para mim, no dia em que Bolsonaro homenageou um torturador [coronel Brilhante Ustra] devia ter saído do Congresso preso, e não estaríamos a viver esta história. Acredito que precisamos de uma rutura, e que regresse esse espírito de indignação”.