O assassínio de Júlio César e o período politicamente conturbado que viveu a República Romana nada têm a ver com os fenómenos climáticos. Mas o arrefecimento repentino e o aumento das chuvas que arruinaram as colheitas em todo o Mediterrâneo, que causaram a fome e contribuíram para a propagação de doenças, podem ter agravado a crise vivida na altura — não só na antiga Roma, mas também no reino de Cleópatra.

Os dados recolhidos por um grupo de investigadores no gelo do Ártico e nos registos históricos mostram que os anos 43 e 42 a.C. foram dos mais frios do último milénio no hemisfério norte e o início de uma das décadas mais frias de que há registo nesse período. E tudo isto pode ter sido causado pela erupção de um vulcão e pela quantidade de gases sulfurosos que ficam acumulados na atmosfera durante anos.

Embora seja difícil estabelecer vínculos causais diretos com eventos históricos pouco documentados, as condições de humidade e frio dessa erupção maciça no lado oposto da Terra provavelmente resultaram em quebras nas colheitas, fome e doença, exacerbando a agitação social e contribuindo para realinhamentos políticos em toda a região do Mediterrâneo durante esta conjuntura crítica da civilização ocidental”, escrevem os autores do artigo publicado na Proceedings da Academia Nacional de Ciências.

O gelo do Ártico preserva o registo do que se passou nessa metade do planeta, nomeadamente, os restos de cinzas resultantes da atividade vulcânica. A equipa de investigadores conseguiu demonstrar a existência de duas erupções: uma muito poderosa, mas curta, por volta de 45 a.C., e outra muito maior e mais longa em 43 a.C, que durou dois anos e é uma das maiores erupções dos últimos 2.500 anos, noticia o jornal El Mundo.

A equipa liderada por Joe McConnell, investigador no Desert Research Institute (Estados Unidos) conseguiu associar cinzas referentes à erupção de 43 a.C à erupção do vulcão Okmok, no Alaska. Os modelos climáticos usados estimam que as temperaturas terão descido, em média, sete graus e que as chuvas aumentaram 50 a 120% no verão e 400% no outono.