A história de Bruno Soriano, um daqueles poucos mas bons exemplos que fazem toda uma carreira no mesmo clube resistindo a convites tentadores que foram surgindo pelo meio, comoveu esta semana a Espanha e até o mundo do futebol em geral: depois de uma longa ausência de 1.028 dias (equivalentes a três anos, um mês e um dia) devido a constantes lesões nos joelhos, o médio regressou aos relvados no empate do Villarreal frente ao Sevilha. No final, na zona da flash interview, começou por nem conseguir falar perante tamanha emoção. Chorou. E voltou a fazê-lo quando chegou ao balneário, perante a reação apoteótica dos companheiros de equipa que o foram vendo meses atrás de meses a resistir à tentação de acabar a carreira e a chegar ao dia tão desejado com 36 anos.

Defender livres de Messi com barreiras de oito funcionou e Sevilha “secou” Barcelona (no jogo com invasão de campo virtual)

Nos seniores do Villarreal desde 2006, depois de ter feito toda a formação no Submarino, foi internacional pela primeira vez em 2010 após a conquista do Mundial, teve propostas vantajosas como aquela que chegou de Valência quando o clube desceu ao segundo escalão, em 2012, mas continuou fiel à sua paixão de sempre no futebol e assim pretende continuar – de preferência com mais uns jogos para juntar aos 418 oficiais que já leva. Não tendo um mediatismo como Paolo Maldini, Francesco Totti, Ryan Giggs ou Lionel Messi, é um marco na Liga. Assim como Iñaki Williams, dez anos mais novos, mas também ele um exemplo e a vários níveis.

Filho de pai ganês e mãe liberiana, um casal que fugiu da Guerra Civil na Libéria, esteve num campo de refugiados, atravessou o deserto a pé e chegou a Espanha via Melilla, o avançado nasceu em Bilbau, começou a jogar futebol no Natación Pamplona, passou depois para o Pamplona e chegou ao Athletic com apenas 15 anos, iniciando aí um percurso por vários escalões que ainda hoje se mantém no plantel sénior, onde chegou com 19 anos antes de ter sido uma figura de destaque na seleção Sub-21 que chegou à final do Europeu de 2017. Referenciado por vários clubes ingleses como Manchester City, Liverpool ou Arsenal, renovou então contrato até 2021 com uma cláusula de rescisão e foi permanecendo na equipa como indiscutível e a caminho de outro recorde.

Depois de já ter prolongado mais uma vez o vínculo ao clube por mais nove temporadas, desta feito com cláusula de 135 milhões, Iñaki fez história nesse mesmo mês de agosto de 2019 ao ser titular e marcar no dérbi basco contra a Real Sociedad naquele que foi o 122.º encontro consecutivo na Liga, registo máximo no século XXI. Mais tarde, em novembro, aumentou essa série para 133 partidas seguidas, superando o recorde do clube que pertencia a Carmelo Cedrún. Esta noite, chegou ao 150.º jogo e tinha como principal objetivo manter a série de jogos sem perder, após os empates com Atl. Madrid (1-1) e Eibar e da vitória com o Betis (1-0) nas jornadas após a retoma. Ao todo, desde 20 de abril de 2016 que o avançado não falha um encontro da Liga, aproximando-se dos registos de Jon Adoni Larrañaga (202), Arconada (188), Zubizarreta (182) e Alfredo Di Stéfano (171).

“Queria voltar a sentir-me um futebolista outra vez, sobretudo depois de tantos dias sem estar com os meus colegas. A bola pareceu quadrada, em vez de redonda. Perdi alguma da sensibilidade mas o sentimento foi bom. Agora anseio pelo regresso dos treinos coletivos”, dizia Iñaki Williams no regresso aos treinos, em maio. Mas a bola não demorou a passar de quadrada para redonda outra vez, para ele e para quem melhor a trata. De forma inevitável, Messi é um desses casos. E se o avançado basco tinha feito história, também o argentino estava apenas a um pequeno passo, ou neste caso golo, de aumentar a sua no Barcelona, clube que representa desde os 11 anos. Mais uma vez, esse número redondo do 700 ficou adiado. E os catalães safaram-se por pouco de outro número redondo em forma de nulo como tinha acontecido em Sevilha e que valeu a perda da liderança da Liga.

Num início de semana ainda marcado pelas críticas dos catalães pela arbitragem do Real Sociedad-Real Madrid (invertendo a lógica que diziam vigorar e que apontava para constantes queixas do clube da capital espanhola sobre os jogos dos blaugrana) e com uma “bomba” que chegou esta terça-feira de Itália e que dava conta do negócio quase fechado entre Barcelona e Juventus que levaria Arthur para Turim e Pjanic para a Cidade Condal, a equipa de Quique Setién voltou a fazer uma exibição sem rasgo, sem chama e com reduzidas oportunidades frente a um Athl. Bilbao que vendeu cara a derrota e que contou sempre com Iñaki Williams para assustar na frente.

Com o jogo por desbloquear, e a meio da segunda parte, as entradas de Ansu Fati e Rakitic conseguiram mexer na equipa e foi mesmo o médio croata, que anda há duas janelas do mercado de transferências no sai-não sai-sai-não sai de Camp Nou, a marcar o único golo do encontro. “Queria dedicar este momento à minha mulher e às minhas filhas que me têm aturado nestes últimos meses. Foi um jogo muito difícil, o Athletic fez bem as coisas mas fizemos a nossa parte. É estranho ter de esperar pela 31.ª jornada para marcar o primeiro golo da temporada, não é normal, mas fico feliz por ter aparecido e por ajudar a equipa em três pontos que eram muito importantes para a equipa”, disse Rakitic no final, em afirmações interpretadas como recados internos para um Setién que tem vindo a ser cada vez mais criticado pela forma como gere a equipa sobretudo depois da retoma.