Um total de 118 migrantes encontra-se neste momento a bordo do navio humanitário “Ocean Viking”, da organização não-governamental (ONG) francesa SOS Méditerranée, após duas operações de resgate realizadas nas últimas 24 horas no Mediterrâneo, foi esta sexta-feira divulgado.

Os resgates foram realizados na rota migratória do Mediterrâneo Central, que sai da Argélia, Tunísia e Líbia em direção à Itália e a Malta.

O primeiro resgate envolveu um grupo de 51 pessoas, incluindo uma mulher grávida e uma grande maioria de cidadãos oriundos do Paquistão, que estavam a bordo de uma embarcação de madeira que se encontrava em dificuldades ao largo da ilha italiana de Lampedusa, segundo relatou a ONG francesa através das redes sociais.

Na segunda operação, o “Ocean Viking” salvou outros 67 migrantes, que tentavam fazer a travessia do Mediterrâneo numa embarcação precária, que já tinha sido localizada algumas horas antes pelo avião humanitário de reconhecimento “Moonbird”, que está ligado à ONG alemã Sea-Watch.

Os migrantes resgatados na primeira operação tinham já pedido auxílio através da Alarm Phone, uma organização que recebe as chamadas de emergência feitas por embarcações que se encontram em perigo.

Todos os migrantes que se encontram a bordo do “Ocean Viking”, que começou a patrulhar esta zona do Mediterrâneo nos últimos dias, foram submetidos a exames médicos e a sua saúde “está a ser monitorizada de forma contínua” pela equipa médica do navio humanitário, segundo explicou a SOS Mediterranée na rede social Twitter.

Na mesma rede social, o coordenador de operações da organização, Nicholas Romaniuk, alertou para a “urgência real” que se vive no Mediterrâneo, apesar da pandemia do novo coronavírus.

“Continuam a ocorrer naufrágios e perdas de vida”, reforçou o representante da organização, que aguarda agora indicação de um porto seguro para realizar o desembarque dos migrantes.

Apesar da ameaça da pandemia da doença covid-19, o fluxo migratório nas várias rotas do Mediterrâneo acabou por nunca parar e com a chegada do verão, e consequentemente melhores condições de navegabilidade, é expectável que as tentativas de travessia para tentar alcançar a Europa aumentem nas próximas semanas.

Devido em parte aos constrangimentos provocados pela pandemia do novo coronavírus, os navios das várias ONG envolvidas nos resgates humanitários no Mediterrâneo ficaram parados e muitos portos europeus, como foi o caso em Itália e em Malta, foram encerrados.

Mas essa situação não impediu que várias embarcações com migrantes a bordo continuassem a sair em particular da Líbia e a chegar, por exemplo, às costas italianas de forma autónoma.

“No Mediterrâneo, podemos morrer uma vez. Na Líbia, morremos todos os dias”, disse um dos migrantes paquistaneses resgatados, em declarações a um jornalista da agência France-Presse (AFP) que se encontra a bordo do “Ocean Viking”.

Arslan Ahmid, de 24 anos, esteve na Líbia – país que não é considerado um porto seguro e tem sido um terreno fértil para as redes de tráfico ilegal de migrantes e situações de sequestro, tortura e violações – durante cerca de oito meses, até decidir partir de Zouara (cidade portuária do noroeste da Líbia) e arriscar a vida na travessia do Mediterrâneo para tentar chegar à Europa.

Já Imran, 30 anos, também do Paquistão, esteve no território líbio durante um ano.

Todos os paquistaneses aqui (no navio) foram feitos cativos enquanto estiveram na Líbia, fomos todos raptados, tínhamos vindo para trabalhar, mas encontrámos a guerra, a tortura e a extorsão. Para eles, nós não somos seres humanos”, contou Imran.

Foi esta sexta-feira anunciado, entretanto, que o navio humanitário “Alan Kurdi”, da ONG alemã Sea Eye, pode voltar às operações de resgate. Este navio estava bloqueado pelas autoridades italianas no porto de Palermo (Sicília) desde 5 de maio.

Num comunicado, a ONG anunciou que o navio está a dirigir-se para as costas de Espanha, depois de ter alcançado, em 10 de junho, um acordo com a guarda costeira italiana que permitiu a saída do porto italiano.

“Estamos gratos às autoridades espanholas e alemãs por terem ajudado a libertar-nos deste controlo devastador”, afirmou o responsável pela organização, Gorden Isler.

Segundo a ONG, tanto Espanha como a Alemanha autorizaram que o navio “Alan Kurdi” se desloque em direção às costas espanholas, localizadas na rota migratória do Mediterrâneo Ocidental (de Marrocos para Espanha).

As autoridades italianas justificaram o bloqueio do navio por causa de “deficiências significativas de segurança”, decisão que foi considerada como ilegal pela Sea Eye, com base num parecer de um especialista em direito marítimo.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) referiu em meados de abril que 16.724 migrantes e requerentes de asilo tinham entrado na Europa por via marítima (quase metade nas costas da Grécia) desde o início de 2020, um aumento de 16% em relação aos 14.381 registados no mesmo período do ano passado.

Até meados de abril deste ano, 256 pessoas terão morrido durante a travessia da rota migratória do Mediterrâneo, menos que as 425 vítimas mortais registadas no mesmo período de 2019, de acordo com os mesmos dados.

Segundo as estimativas da OIM, mais de 20 mil pessoas terão morrido durante a travessia da rota migratória do Mediterrâneo desde 2014.